O início de uma vida é o fim de outra.

1468 Words
Após despedaçar meu celular na parede, não conto para ninguém o motivo de tamanha estupidez. Meu tio parece ansioso para arranjar um motivo para me internar em uma clínica psiquiátrica e tomar conta dos poucos bens que meu pai me deixou, então procuro não dar nenhum meio dele conseguir fazer isso. A última coisa que preciso agora é ser colocada numa cela acolchoada. ... Todo o caminho até o hospital para pegar o resultado dos meus exames é silencioso. Fico observando as árvores, as casas e os muros, quase todos sem pichação, pois até quem costuma cometer vandalismo parou por medo de ser atacado por um serial killer. A polícia já havia dito meses atrás que Jeff não é o único assassino na região, mas é o que mata com mais frequência — e com mais requintes de crueldade. Na época eu não dei tanta importância para esse fato, pois raramente saía de casa (agora menos ainda). É estranho pensar que na atual situação, qualquer menção ao nome de Jeff me faz erguer os olhos atenta a todos os detalhes, mas, ao mesmo tempo, quero cobrir as orelhas e gritar até esquecer sua existência. Meu agressor também é suspeito do sumiço de dezenas de crianças que estavam próximas à floresta, mas ele não me parece do tipo que some com o corpo. Ele gosta que os outros observem o que ele faz, gosta de saber que é temido. Psicopatas como ele adoram ter seu ego acariciado e se seu objetivo é ter atenção, ele a terá de qualquer maneira. Quando chego enfim ao hospital, caminho pelos já conhecidos corredores e descanso em uma cadeira de plástico dura na sala de espera, onde a moça na recepção pede para eu aguardar. Fico confusa com seu pedido, pois o protocolo é apenas pegar a pasta com os resultados e levar para o médico avaliar, então aguardo ansiosamente para que a médica de plantão chame meu nome. Durante esse tempo, percebo os olhares de assombro ou fascínio que as outras pessoas me lançam, todos avaliando cada centímetro de meu rosto repleto de cicatrizes enquanto provavelmente agradecem por não estarem na minha pele. Queria ter esse benefício também. Depois de alguns minutos torturantes tentando me esconder com meu cabelo — porque está quente demais para usar um moletom com capuz — Dra. Cassandra me pede para entrar. Suspiro agradecida quando a médica, já acostumada com ferimentos e cicatrizes, me olha como se não tivesse nada de errado com minha aparência. Seu sorriso é cansado, provavelmente está de plantão desde a noite passada, pois o hospital está cheio de vítimas com históricos bizarros. A recepcionista comentava com outra mulher na sala de espera que há desde pessoas que foram atacadas por um ladrão de órgãos até aquelas que lotam a ala de psiquiatria do local porque estão ficando paranoicas em um surto de histeria coletiva causado por um jogo de videogame. — Bom dia, Esther. — Bom dia. E então, como estão as coisas com a senhora? — Tento sorrir para parecer simpática, mas desisto. Já tenho um imenso sorriso permanente mesmo. — Era eu quem deveria fazer essa pergunta, mas tudo bem. — Ela ri pelo nariz, exausta. — Seus exames tiveram ótimos resultados, todas as transfusões obtiveram sucesso e seu corpo está se recuperando muito bem. — Ela faz uma pausa, umedecendo os lábios. — Mas, temos um detalhe importante que eu gostaria de dizer pessoalmente ao invés de te deixar sabendo por um pedaço de papel porque, convenhamos, o calor humano é necessário em algumas situações. Então, por favor, sente-se. Quando ela desvia o olhar dos papéis em suas mãos e me olha de maneira gentil, engulo em seco e sento na cadeira em frente à mesa, já preparada para arcar com os custos de mais uma cirurgia ou com a notícia de que sou agora uma pessoa soropositiva. — Imaginei que a senhora não me chamaria aqui à toa. Pois bem, o que foi? Ela ajeita os óculos dourados no rosto e me encara quase com pesar quando diz: — Você está grávida. Meu cérebro demora para processar essa informação. Olho para a médica sem esboçar nenhuma reação durante quase um minuto quando consigo enfim me pronunciar: — Como é? — Minha calma aparente pega a nós duas de surpresa e ela parece relaxar com isso. — Olhe aqui — Ela aponta para os vários números em um dos papéis — Seus níveis de Beta hCG confirmaram a gravidez no último exame de sangue. Não sei se devo lhe dar os parabéns pela notícia, dada a situação em que ocorreu. — Ela limpa a garganta, desconfortável. — Mas suponho que seja melhor que a morte. Sempre me consolam com essa mesma frase. Toda vez me dizem que qualquer coisa que eu tenha passado nas mãos daquele psicopata é melhor que se ele tivesse apenas me degolado e acabado com tudo. Tenho minhas dúvidas quanto a isso. Olho para a parede, lutando contra o choro convulsivo que sei que vai tentar me dominar assim que eu parar para pensar na notícia que acabei de receber. A médica fala sobre minhas opções — iniciar o pré-natal ou encaminhar um pedido de aborto — mas, estou totalmente alheia ao seu falatório. As imagens daquela noite passam pela minha cabeça e meu lábio inferior treme, mas resisto à necessidade de chorar. Simplesmente não consigo formular um pensamento coerente enquanto meus nervos estão tão sobrecarregados que acho incrível quando, de maneira calma e controlada, pego meus exames, agradeço à doutora, saio do hospital e vou para o carro em silêncio. Tio Richard tem a sensibilidade de ao menos me perguntar se está tudo bem e apenas aceno negativamente com a cabeça quando entrego a pasta para ele e entro no carro, murmurando que ele pode ver por si mesmo o rumo que minha vida está prestes a tomar. ... Passo o resto do dia deitada em meu quarto, usando o travesseiro para abafar meus gritos de agonia. Exatamente como aconteceu naquela noite. A textura macia do tecido é gostosa ao toque, mas a fronha nova já está encharcada quando dou um último soluço engasgado, virando de barriga para cima para encarar o teto. Se antes eu considerava minha vida algo complicado, agora não sei o que fazer com toda a bagagem estafante que carrego. Não tenho suporte emocional, não tenho emprego, não tenho sequer amigos para dividir tudo o que está acontecendo. Nem mesmo ligar para minha psicóloga me ajuda a colocar as ideias no lugar, pois tudo que consegui foi falar frases desconexas e afirmar que vou me matar até ela enfim conseguir me acalmar o suficiente para que eu desligue a ligação e tente meditar — o que obviamente não ajuda nesse momento. Acabo deitada no chão, mãos cruzadas em cima da barriga enquanto pergunto a qualquer deus que queira me responder: o que eu fiz para merecer tanta desgraça em meros dezoito anos de existência? ... Depois do que posso considerar como o jantar mais angustiante da minha vida — com tio e primos tentando me consolar com a mesma frase de sempre — vou direto para o banho, torcendo para que eles apenas parem de falar sobre isso e todos finjamos que nada disso aconteceu. Assim que entro debaixo da água quente e me vejo sozinha, soluço alto. As lágrimas e a tristeza me atingem com um baque tão forte que me sento no piso e choro abraçando minhas pernas, sentindo o mundo pesar em meus ombros. Ele levou meu pai, levou minha virgindade — levou até mesmo meu olho! — e abriu feridas que jamais cicatrizarão. Perdi tudo, principalmente a dignidade, e agora, descubro que estou carregando um filho dele. Isso é demais para mim. Fico ofegante e abafo um grito de agonia com a mão, batendo a parte de trás da cabeça na parede com força e desejando apenas desaparecer no ar. Dentro de mim, está um ser que carrega o sangue dele, o DNA monstruoso dele. Eu serei mãe do filho do homem que mais me machucou em toda minha vida. ... Enrolada em uma toalha felpuda e com o cabelo pingando, me apoio de lado na janela até estar praticamente sentada nela. Observo o brilho das estrelas sentindo a doce sensação de estar saindo de meu corpo à medida que meu sangue escorre do punho direito, machucado após eu acertar um soco no espelho do banheiro. A cor carmim verte em minha mão esquerda também quando aperto um caco entre meus dedos, o lábio inferior tremendo mesmo que eu não consiga mais produzir lágrimas no momento. Encaro minha imagem — um misto de perplexidade e tristeza — quando posiciono o objeto cortante sobre a cicatriz mais proeminente em meu pulso direito. Dessa vez, vou fazer certo.
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