Ligação. (Jeff)

1430 Words
Deixo a fumaça escapar por entre meu sorriso depois de dar uma longa tragada no cigarro. Não me considero um viciado, mas fumar me relaxa quando estou estressado, e ultimamente, eu ando bem estressado. Bato as cinzas no beiral da janela enquanto mexo no celular, salvando na galeria toda e qualquer foto de Esther que encontro na internet. Infelizmente, ela não é do tipo de pessoa que posta foto com regularidade, então acabo ficando decepcionado quando, além de descobrir que a maioria dos seus perfis foram desativados, as poucas fotos em que ela aparece no perfil de outras pessoas datam de pelo menos três anos atrás. As mais recentes são as postadas em sites de notícias ou fóruns online que não têm problema algum em expor a imagem de uma menor de idade e agradeço pela falta de noção dessas pessoas. Pelo que consegui nos registros de sua escola, é bem perceptível que ela nunca se destaca em nada lá também. Nenhum clube, nenhuma nota abaixo ou acima da média, nenhum atraso, nenhuma briga ou desrespeito com um professor, nada. Em suma, a garota é um tédio total. Não cheguei a cursar o ensino médio por motivos óbvios, mas com certeza eu seria um estudante muito mais divertido do que ela. Até suas fotos no anuário são usando roupas simples e dando um sorriso discreto como se não ousasse se destacar nem nisso. Ela deve me odiar por ter tornado ela uma celebridade local e isso me faz dar um sorriso de verdade. A Mansão fica silenciosa a essa hora da manhã, quando quase todos os assassinos estão dormindo ou pretendendo dormir, mas não me sinto disposto a descansar agora. Quero ela. Ultimamente, minha raiva tem diminuído o suficiente para que eu consiga planejar uma vingança realmente dolorosa com a cabeça fria ao invés de só esfaquear aquela i*****l como um lunático. Já comecei a brincar com o psicológico dela, pagando ao Tim para fazer uma brincadeirinha por mim já que ele pode andar por aí sem ser reconhecido a quilômetros de distância como eu. Os malefícios de ser tão famoso. Rio baixo ao imaginar aquele rosto tão inocente se deparando com o meu lembrete de que estou de olho nela e que ela não pode fugir de mim. Seus olhos castanhos se arregalando, a boca se abrindo em um perfeito círculo de surpresa antes do choro começar... Tiro sua fisionomia de assombro da mente antes que eu fique de p*u duro. Pensar em Esther me deixa inquieto e irritado na mesma medida em que me deixa com t***o e ansioso. Não sei o que essa garota tem por baixo daquela fachada de invisível, mas atiça algo em mim que meu subconsciente percebe e eu não. Meu celular vibra quando os olhos fundos de Ben aparecem na tela. — Conseguiu o que eu pedi? — Apago o cigarro e o jogo pela janela. — Não sou inútil como você, então sim. — Ele responde, irritado. — Mas ainda não entendi qual é a sua com essa garota e por que você se dá ao trabalho de fazer uma investigação sobre ela. — Estou pegando emprestada a sua tática de enlouquecer uma pessoa antes da morte dela. Agora vaza do meu celular, Zelda. Preciso fazer uma ligação. — Você parece mais um ex-namorado maluco do que um estranho que invadiu a casa dela por acaso. — Vou tirar uma foto do meu p*u se você não sair da merda do meu celular agora. Ben mostra o dedo do meio e sua imagem desaparece, dando lugar aos contatos salvos em meu celular, a maioria de outros assassinos. Indicado como o primeiro contato, brilha o novo número de celular gravado com o nome de “Amor ”. Muito engraçado, elfo arrombado do c*****o. Sem me importar em mudar o que está escrito, teclo para ligar para aquela v***a. Ela atende depois de dois toques. — Alô? A voz dela soa distraída, como se prestasse atenção em outro lugar. Não consigo deixar de sorrir ao imaginar sua expressão quando digo: — Está com saudades de mim, amor? Silêncio seguido de um baque, provavelmente o som do celular caindo no chão. Rio abertamente disso, satisfeito com o efeito que causo nela. — Qual é o seu problema? — Percebo facilmente sua vontade de chorar, mas isso não diminui minha irritação por ela ousar perguntar isso para mim. — Problemas eu tenho vários, mas o pior deles agora é você. Porém, não se preocupe; eu pretendo resolver em breve. — Só me deixa em paz. — Ela sussurra, sua voz tão baixa que quase não a ouço. — Por favor. Eu não fiz nada contra você e nem posso fazer. — Cada batida do seu coração é você fazendo algo contra mim. Cada respiração sua é algo contra mim. Cada vez que você acorda é algo contra mim. — Minha voz soa ainda mais rouca que de costume quando deixo a raiva assumir o controle. — Mas sou obrigado a admitir que tivemos bons momentos que eu adoraria repetir. Isso não acontece com frequência, sinta-se especial. Ela fica em completo silêncio quando digo isso, quebrando-o apenas para respirar fundo. Presumo que esteja de olhos fechados agora, tentando não surtar por estar falando comigo. — Abra os olhos, meu bem. Você sabe que eu gosto do medo no seu olhar. Ouço ela arfar de surpresa e meus cortes ardem quando sorrio ao constatar que acertei. Ah, Esther, é tão fácil ler você. — Como... ? — Rio para deixar claro como o medo dela me diverte. — Não me subestime, Esther. Se for uma garota minimamente esperta, vai dormir com um olho aberto e o outro fechado. Se bem que um deles eu já fechei para você, não é? — Fechou um dos meus por que não consegue fechar nenhum dos seus, Jeff? Sua resposta me pega de guarda baixa e, dessa vez, quem fica surpreso sou eu. Demoro um segundo para digerir o fato de que essa vagabunda que eu quase matei está tirando uma com a minha cara. Admito que isso é tão inesperado que me diverte e ela parecer tão incomodada com meu riso me faz rir ainda mais. Se você quer brincar de quem atinge mais o outro, eu te ensino as regras, querida. — Não pensei que ouvir meu nome saindo dessa boquinha fosse tão excitante. Acho que só não é mais excitante do que ouvir você implorando por misericórdia. — Você é um doente mental que deveria estar na cadeia. — Ela praticamente mia essa frase, prestes a chorar de novo. — Não chegue perto de mim nunca mais. — Ah? O que é isso agora? — Estalo a língua, como se estivesse ralhando com uma criança. — Vai me dizer que não pensa no nosso tempo juntos toda noite? Porque sempre que eu penso nessas coxas ao redor da minha cintura eu fico louco, Esther. Louco para repetir isso mais e mais vezes até você ficar quieta e gelada demais para ser algo interessante como foi quando você estava gemendo para mim naquela noite. De certa forma, estou sendo sincero com essa filha da p**a. Quase toda manhã, imagens dela usando aquele pijama velho e toda descabelada invadem meus sonhos, suas mãos puxando minhas roupas enquanto ela me olha com um sorrisinho sexy, seu olhar fixo no meu com a mensagem "eu quero você" explícita ali. Na maioria das vezes, não é preciso nem que eu mande para que ela mesma abra as pernas para mim, me instigando a ficar por cima. — Vai pro inferno, seu psicopata de merda. Eu vou estar sentada na primeira fileira quando fritarem você na cadeira elétrica, seu doente! — A voz raivosa da Esther real me desperta do meu rápido devaneio s****l, me deixando levemente decepcionado com a realidade. — Não conte com isso, querida. Você não vai viver tanto assim. Ouço um barulho alto de algo se chocando contra uma superfície sólida e a ligação é encerrada. Encaro a tela do celular por alguns segundos, irritado, porém surpreso com a súbita mudança de personalidade dela. Deito em minha cama, com as mãos atrás da cabeça e os pensamentos ainda focados na conversa que acabei de ter. Minha vontade é de sair daqui agora, pegá-la pelos cabelos e trancá-la em um quarto à meia-luz comigo durante dias, mas sei que seria estupidez tentar chegar perto dela quando o caso ainda é tão recente. Sorte minha e azar o dela, mas eu sei ser bem paciente quando a espera vale a pena.
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