Caio de joelhos gritando a plenos pulmões, cobrindo a cabeça com as mãos enquanto choro atormentada demais para ter outra reação. Não abro meus olhos com medo do que posso ver. Ou de quem eu posso ver.
Sinto mãos quentes apertando meus ombros com força, o que me impulsiona a estapear e gritar como uma criança assustada. Demoro vários segundos para perceber que é Luke, tentando segurar meus pulsos enquanto chama meu nome desesperadamente.
Fico parada e completamente muda quando olho enfim para minha cadeira, percebendo que a dita figura de branco é apenas a minha toalha que esqueci de colocar para secar após meu banho ontem à noite. Minhas mãos caem inúteis em minhas coxas quando meus ombros começam a tremer pelo choro.
Encaro Luke envergonhada, percebendo o imenso arranhão que acabei fazendo em seu rosto. Ele está de joelhos ao meu lado, parecendo extremamente confuso com o que acabou de acontecer.
E ele não é o único.
...
Após meu humilhante ataque de pânico e um sermão por acordar todo mundo por nada, encaro a face irritada do meu tio enquanto a perícia raspa o sangue do meu espelho com o intuito de analisar e ver se descobrem a quem ele pertence. Chamei a polícia logo depois que minha respiração normalizou e eles chegaram há alguns minutos, nada interessados em uma adolescente com alucinações e um homem divorciado de cara amarrada.
Luke e George estão na sala, ambos ainda abatidos pela sonolência por serem acordados às cinco e meia da manhã. O mais novo me fulmina com o olhar como se eu fosse a pessoa mais detestável do mundo e não resisti em mostrar a língua para ele quando subi as escadas para mostrar à moça da perícia onde ela deveria ir.
Quando ela enfim vai embora, meu tio esfrega as mãos no rosto e me encara.
— Liguei para o seu médico ontem. — Sua voz soa irritada e baixo a cabeça diante disso. — Vou pedir que mudem sua medicação para outra que seja mais forte.
— Me desculpe. Só é... muito difícil me acostumar com a segurança de novo. — Sussurro, sentindo o rosto queimar de vergonha mais uma vez.
— Você tem que pegar os resultados dos seus últimos exames hoje. — Ele diz, por fim. — Faça o café da manhã, os meninos têm escola às oito e como você está de licença, pode tomar conta da casa enquanto não estamos.
Confirmo com a cabeça quando ele sai do quarto, me deixando sozinha com meus pensamentos. Olho para meus pulsos no exato momento em que meu celular vibra no meu bolso (finalmente encontrei uma utilidade para bolso em pijama). Atendo sem olhar o visor.
— Alô?
— Está com saudades de mim, amor?
Meu celular escorrega de minha mão quando a voz debochada — agora tão familiar — de Jeff soa do outro lado da linha. Ouço seu riso de escárnio vindo do aparelho no chão enquanto meu cérebro tenta decidir se o pego de volta ou não.
Olho ao redor me sentindo observada e, sem ar, coloco o celular próximo ao ouvido de novo.
— Qual é o seu problema? — Minha voz sai esganiçada, expondo minha vontade de chorar.
— Problemas eu tenho vários, mas o maior deles agora é você. — Estremeço diante da raiva em sua voz. — Porém, não se preocupe; eu pretendo resolver em breve.
— Só me deixa em paz. — Sussurro, sentindo a garganta apertar como se seus dedos estivessem ao redor dela de novo. — Por favor. Eu não fiz nada contra você e nem posso fazer.
— Cada batida do seu coração é você fazendo algo contra mim. Cada respiração sua é algo contra mim. Cada vez que você acorda é algo contra mim. — Ele rosna. — Mas sou obrigado a admitir que tivemos bons momentos que eu adoraria repetir. Isso não acontece com frequência, sinta-se especial.
Fecho os olhos e inspiro devagar, tentando me manter sob controle.
— Abra os olhos, meu bem. Você sabe que eu gosto do medo no seu olhar.
Instintivamente acabo fazendo o que ele manda, olhando ao redor várias vezes enquanto me afasto da janela, colando as costas na parede e sentindo minha respiração ficar descompassada de novo.
— Como... ? — Ele ri baixo dessa vez, divertindo-se com minha surpresa.
— Não me subestime, Esther. Se for uma garota minimamente esperta, vai dormir com um olho aberto e o outro fechado. Se bem que um deles eu já fechei para você, não é?
Mordo o lábio com tanta força que o sangue não demora a fluir. Quero gritar e chorar até explodir, mas me contenho. Não vou dar esse gostinho a ele.
— Fechou um dos meus por que não consegue fechar nenhum dos seus, Jeff? — A resposta o pega de surpresa, pois ouço uma mínima falha em sua respiração que indica que o atingi. Permito-me um sorrisinho.
Fugindo de todas as reações que imaginei que ele pudesse ter, sua risada preenche a ligação durante alguns segundos. Tento não deixar que nenhuma expressão facial entregue meu desconforto com isso, visto que não sei se ele realmente está me observando ou foi apenas um blefe.
— Não pensei que ouvir meu nome saindo dessa boquinha fosse tão excitante. — Finco minhas unhas na palma da mão quando ele diz isso. — Acho que só não é mais excitante do que ouvir você implorando por misericórdia.
Imagens de meus dedos agarrando seu moletom enquanto ele me esmaga com o peso de seu corpo invadem minha mente, causando um arrepio que se traduz em um tremor físico que faz minhas pernas bambearem por um momento. Sento no chão, uma parte de mim sabendo que ele está apenas me atingindo porque eu o atingi primeiro, mas não consigo manter a fachada de confiança.
— Você é um doente mental que deveria estar na cadeia. — Minha voz não acompanha a ofensa explícita que quero passar, me fazendo parecer mais uma criança fazendo birra do que uma mulher forte. — Não chegue perto de mim nunca mais.
— Ah? O que é isso agora? — Ele estala a língua, divertindo-se com minhas reações. — Vai me dizer que não pensa no nosso tempo juntos toda noite? Porque sempre que eu penso nessas coxas ao redor da minha cintura eu fico louco, Esther. Louco para repetir isso mais e mais vezes até você ficar quieta e gelada demais para ser algo interessante como foi quando você estava gemendo para mim naquela noite.
— Vai pro inferno, seu psicopata de merda. Eu vou estar sentada na primeira fileira quando fritarem você na cadeira elétrica, seu doente! — A raiva explode dentro de mim no lugar do medo, a sensação da língua dele em minha boca me queimando.
— Não conte com isso, querida. Você não vai viver tanto assim.
Em um impulso motivado pela fúria, jogo meu celular contra a parede à minha esquerda, ofegante e com lágrimas nos olhos.
Desgraçado.