Enxugo as lágrimas com as costas da mão direita enquanto Rita aperta meus ombros, tentando me consolar. A coroa de flores amarelas não combina com o caixão de madeira polida simples e não consigo me sentir confortável com a minúscula multidão que aparece para o velório do meu pai se aglomerando ao meu redor.
Estou em uma cadeira de rodas ao lado do caixão, observando a tampa que separa a visão do corpo totalmente mutilado do homem que me criou, algo chocante demais para ser deixado à mostra.
Não posso fazer o mínimo esforço como caminhar até que meus pontos internos se fechem totalmente, então tudo que me resta é aceitar ser levada pelos outros para lá e para cá, como se estivesse em um carrinho de bebê.
Sempre detestei ficar dependente de outras pessoas, porque no final, acabo sempre sozinha.
— Meus pêsames, Esther. — Oliver, gerente da loja onde meu pai trabalhava (e também o grande aproveitador) diz em voz baixa, arrancando-me de meus devaneios. — Eu sinto muito mesmo.
Apenas faço um sinal afirmativo com a cabeça, desviando o olhar do rosto pálido do homem magro e loiro que ele é de volta para o caixão.
Coloco meus óculos escuros para não ter que encarar mais ninguém, tentando não ouvir o burburinho de vozes ao fundo. Como sempre, meu pai é o centro das atenções de uma pequena multidão estressada, e eu me encontro ao seu lado buscando ser o menos visível possível.
— Você quer água, suco ou talvez um chá? — Rita sussurra em meu ouvido, atrás de mim para empurrar a cadeira de rodas. Sempre meu único apoio nessas situações.
E que em breve vai me deixar também.
Repito o sinal afirmativo com a cabeça.
— Só quero sair daqui.
No caminho até a cozinha, percebo os olhares transtornados ou aborrecidos dos poucos presentes no velório, realizado em minha casa. Os únicos parentes vivos do meu pai se resumem em minha avó Anne e seus filhos, meus tios Theo e Richard.
Minha avó nunca foi uma pessoa fácil de lidar. Tantos anos presa em um casamento sem amor com um marido infiel e agressivo a transformaram em uma mulher tão amarga que ainda não derramou uma lágrima sequer pelo filho que está sendo velado nesse exato momento. Nunca a vi demonstrando qualquer tipo de emoção positiva e, pelo visto, não é agora que vou ver, pois seus três — agora dois — filhos são uma parte do que a fez se tornar essa pessoa tão fria, afinal, ela mesma já admitira que nunca desejara ser mãe.
Apesar de tudo isso, tio Theo é o orgulho da família. Diferente dos irmãos mais novos, ele é um advogado bem-sucedido que, mesmo em um velório, não para de falar ao telefone nem por um segundo. Não parece triste, mas sim incomodado por ter que mudar sua agenda para estar aqui.
O irmão do meio é meu tio Richard, dono de uma pequena empresa de decoração de eventos que, infelizmente, não é lá grande coisa na cidade. Ele olha para o irmão mais velho nervosamente, como se quisesse dizer quão desrespeitosa é a atitude dele, mas sem de fato ter coragem para isso.
Meu pai, bom, suponho que não é necessário descrevê-lo agora.
O pouco que resta da família apenas ocupa espaço na sala, evitando olhar para o caixão no centro do cômodo, e não posso culpá-los por isso. Não posso ficar zangada com eles por não estarem tristes com a morte de um homem que trazia problemas que somente um bêbado traz à família. Eles finalmente terão paz.
Já na cozinha, Rita me serve uma xícara de chá e senta-se à minha frente, encarando-me com olhos pesarosos. Sinto seu cansaço por ter que se desdobrar para cuidar de mim e de seu trabalho em simultâneo, e me sinto péssima por ser o centro dessa situação incômoda.
— Como você está? — Ela pergunta por fim, passando a mão em seus curtos cabelos avermelhados.
— Estou bem. Na medida do possível, eu acho. — Respondo, segurando minha xícara quente com as duas mãos. O calor aquece os curativos ao redor delas, que seguem enfaixando meus pulsos.
Os ferimentos neles não foram feitos pela lâmina de Jeff.
— Você quer falar sobre isso? — Sinto seu olhar queimando as bandagens e mordo o lábio.
— Ele era meu pai, mas nunca esteve muito presente na minha vida. — Murmuro, sabendo que não é desse assunto que ela está falando. — Nunca perguntou nada sobre escola, amigos ou namorado. Estava sempre fora, jogado em algum beco fedendo a urina e sem lembrar do próprio nome.
— É, eu sei. — Rita suspira, encarando o piso branco de cerâmica da cozinha e me dando uma folga de seus olhos preocupados. — E como você está depois do... incidente no hospital?
Sua voz adquire um tom cauteloso, como se estivesse com medo de que, ao mencionar isso, eu entre em desespero e enfie o braço no triturador de lixo da pia.
Tomo um longo gole do chá e saboreio o gosto adocicado da camomila, desejando que ela esqueça o que aconteceu assim como eu estou tentando. Mas, é claro que Rita nunca me daria uma folga quando o assunto é algo tão delicado quanto uma tentativa de suicídio, e seu olhar está de novo em meu rosto, tentando enxergar minha alma atrás das lentes escuras dos meus óculos. Suspiro e me dou por vencida.
— Eu me desesperei. — Minha voz é fraca, envergonhada. — Quando você falou que o velório dele seria feito, tornou tudo tão... real. É como se a minha ficha tivesse finalmente caído e de repente senti o choque de tudo que aconteceu. Foi aí que percebi que nada nunca mais vai ser igual e, mesmo a minha vida sendo uma merda, era a única que eu tinha e não sei se consigo lidar com a vida que eu tenho agora.
Ela não comenta nada sobre meu pequeno desabafo, então continuo:
— Não consigo mais dormir sem remédios. — Dou um sorriso triste, observando a nuvem de vapor que sai de minha xícara terminando de se esvair. — Eu estava deitada na cama tentando dormir quando um enfermeiro entrou devagar para não me acordar. Eu pensei que fosse ele e tive um ataque de pânico. Comecei a gritar, jogando tudo que encontrei, até precisei ser sedada. — Suspiro, baixando a cabeça. — Meus nervos estão em frangalhos, eu só pensei: ‘por que me dar ao trabalho de viver assim? Qual o problema em terminar o que outra pessoa começou?’
Rita não fala nada durante alguns segundos, absorvendo minhas palavras vergonhosas e entristecidas. Ela abre a boca algumas vezes, como se fosse comentar algo, mas termina em silêncio de novo. A encaro pelas lentes.
— Então eu olhei para todas as marcas que eu tenho na minha cara e surtei, ok? Eu meti um soco no espelho e cortei os pulsos com os cacos. — Uma risadinha histérica me escapa quando coloco os cotovelos na mesa e apoio a cabeça nas mãos, deixando as lágrimas rolarem pelo meu rosto. — Eu sei que você vai dizer que sou fraca, que estou sendo ingrata pela segunda chance que eu tive, mas a questão é que eu nunca pedi por uma maldita segunda chance!
Meu choro silencioso se transforma em um agrupamento de soluços e palavras desconexas. Tiro os óculos e escondo os olhos com as mãos enfaixadas, me sentindo nua após admitir tudo isso para a mulher mais religiosa e maternal que conheço.
— Bem, você passou por muita coisa, Diabinha. — Ela coloca uma mão em meu ombro de forma carinhosa. Seu sorriso é gentil, mas percebo a hesitação em seu olhar. — Não penso que você seja fraca, muito pelo contrário! Você é uma filha de Deus que erra, entra em pânico e faz besteira, assim como eu e qualquer outra pessoa nesse mundo. Não se culpe tanto por algo que não está no seu controle, só busque o conforto no colo do Pai e veja como as coisas melhoram com o tempo.
— A religião não vai me livrar dos meus demônios pessoais, Rita. — Meu sussurro é cheio de ressentimento, porém ele não é direcionado a ela. Deito a cabeça na mesa, sentindo falta de ar.
— Sozinha, não. — Ela tira uma mecha de cabelo do meu rosto, atraindo minha atenção. — Mas com terapia, amor e provavelmente medicação, quem sabe você não consegue espantá-los?
Rio pelo nariz diante de seu otimismo extravagante.
— Não são só desses demônios que estou falando. — Fecho os olhos, tentando controlar a crise de ansiedade que sei que está chegando. — Ele vem atrás de mim, sinto isso. Só não sei quando.
— Não diga bobagens, menina. — Ela me dá um tapinha na cabeça. — John atirou nele, e sem poder ir para um hospital, quem garante que não morreu sangrando em alguma esquina? Hein?
— Adoro seu otimismo, sabia? — Sorrio levemente, ainda de olhos fechados. — Ele quase me faz esquecer da realidade.
— Todos adoram meu otimismo. — Ela me joga uma piscadela e levanta-se, posicionando-se atrás de mim. — Agora, vamos voltar para a sala?
— Pode ir na frente, eu vou terminar de tomar meu chá. — Minha voz soa fraca e tremida, mas passa meu recado: quero ficar sozinha para poder me acalmar.
— Tem certeza?
— Consigo ficar sem babá, pelo menos durante o dia. — Forço um sorrisinho e levanto a cabeça, o peito começando a doer. — Só preciso de um tempo, ok?
Meio a contragosto, Rita me deixa na cozinha e volta para a sala para conversar com os outros. Assim que ela sai, desabo de volta na mesa e choro em silêncio, sentindo o mundo inteiro pesar nos meus ombros.
Choro ao lembrar dos momentos felizes, quando meu pai estava sóbrio e fazia eu me sentir como uma princesa, das tardes em que ele me levava fazer piqueniques na margem de um lago qualquer e contava histórias sobre minha mãe, sempre levando uma foto dela na carteira.
A angústia me rasga o peito quando as memórias mais recentes sobrepujam as antigas, trazendo à tona o homem violento que ele se tornara ao longo dos anos até chegar aos dias atuais, onde agora estou sentada em uma cadeira de rodas, com o abuso e a brutalidade literalmente estampados no meu rosto.
Nesse momento, realmente sinto vontade de enfiar o braço no triturador de lixo.
Após mais alguns minutos, sinto minha frequência cardíaca diminuir e estabilizar, assim como minha respiração. Logo, consigo respirar fundo e enxugar as lágrimas, forçando o resto do chá goela abaixo antes de, com uma certa dificuldade, manobrar a cadeira de rodas de volta até a sala.
Paro no meio do caminho ao ouvir uma conversa com vozes acaloradas vindas da escada que dá para o porão.
— Por favor, você tem uma condição mil vezes melhor que a minha, ela será mais feliz com você... — Reconheço a voz de tio Richard, chorão como sempre. — Faz ideia dos gastos que ela vai gerar, com hospitalização, terapia e medicação? Eu não tenho como bancar tudo isso, mas você tem!
— Já disse, pare de tentar empurrar a pirralha para mim, eu não vou gastar um único centavo com a filha daquele bêbado! — A voz de tio Theo se eleva ainda mais. — Sabe quanto ele já me custou só em fianças para tirá-lo da cadeia por embriaguez em público, embriaguez ao volante e atentado ao pudor?
— Você acha que eu quero ficar com ela?! m*l consigo criar os meus filhos, quem dirá filha dos outros.
— Não me importo com isso, mas já lhe deixo avisado: você é o novo guardião legal da pirralha. Pensa que não sei que já está de olho nesse barraco em que ela vive?
Encaro minha saia preta enquanto me afasto do local de onde vêm as vozes, ainda discutindo sobre quem ficará com minha guarda. Sei que se pudessem, me empurrariam para minha avó, mas como ela foi acusada de maltratar o filho de seus vizinhos, será difícil conseguir torná-la responsável por mim. Além disso, como não tenho nenhum parente por parte de mãe, eles terão que chegar a uma decisão logo.
Vou até à sala, com o olhar magoado escondido atrás dos óculos, e aceito as palavras de consolação que me oferecem pela minha perda, todas mais falsas que suas lágrimas e olhares abatidos.
Por um segundo, desejo que todos eles tenham um fim pior que o de meu pai.