Calmaria.

2484 Words
Rita e eu passamos quase todo o tempo em que estou no hospital conversando sobre coisas banais e jogando xadrez. Tudo e todos são mencionados em nossas fofocas, menos a noite em que meu pai morreu. A noite em que tudo mudou. Faz três dias desde que as bandagens que envolviam meu rosto foram removidas, e no lugar delas eu agora uso uma espécie de tapa-olho que, sendo sincera, fica ridículo em mim. Ainda estou tentando me habituar a fazer coisas do cotidiano sem a visão do olho esquerdo. Nesse momento, estou mexendo no celular de maneira tediosa, sentada na cama. Após a notícia de que sobrevivi se espalhar como fogo num palheiro, as pessoas se sentiram no direito de me enviar mensagens como se fôssemos amigos íntimos, então ao acessar a internet depois do ataque, fui bombardeada por centenas de textos enviados por desconhecidos. Sempre me senti desconfortável recebendo a atenção alheia, então acabei decidindo desativar todas as redes sociais para que meus perfis parassem de atrair tantos curiosos. Rita teve a bondade de falar para os repórteres que eu não daria nenhuma declaração sobre o ocorrido, mas aparentemente eles continuam esperando o momento em que terei alta do hospital para me interrogar sobre os mínimos detalhes da aparência de Jeff. Largo o celular em cima do lençol de cor creme que me cobre e olho pela janela, sentindo falta da visão periférica esquerda. O sol aumenta cada vez mais, quase como se estivesse espelhando a ansiedade dos estudantes do país todo pela chegada das férias. Cutuco os pontos no canto direito da minha boca, pois a minha ansiedade agora se resume a esperar pela retirada deles. A formatura do meu último ano do ensino médio será em algumas semanas, mas eu obviamente não tenho a intenção de comparecer. E isso não se deve somente ao meu infeliz encontro com Jeff the Killer, mas também ao fato de que eu nunca sou bem-vinda em nenhuma categoria de evento social. Desde antes do início da minha adolescência, eu já convivia com o alcoolismo do meu pai. Porém, foi nessa época que o que era só um incômodo se tornou um imenso problema para mim. Várias vezes ele aparecera completamente bêbado em festas infantis para as quais eu havia sido convidada e, nas poucas vezes em que tentei sair com um grupo de amigas quando fiquei mais velha, a humilhação que ele nos fez passar ao nos perseguir e gritar conosco em público foi tão grande que, gradualmente, as pessoas simplesmente pararam de me convidar para qualquer coisa, pois se livrar da minha presença era mais um meio de se livrar da incômoda presença do meu pai. Agora, elas não têm mais que fazer isso. Rita me arranca de meus devaneios estalando os dedos na frente do meu rosto. Minha postura fica ereta automaticamente. — Estava viajando, hein? — Ela sorri. — Só pensando um pouco no que me aguarda. — Mexo nos fios que percorrem meu rosto novamente. — Logo eu vou sair daqui e ter que encarar toda a merda acontecendo lá fora. — Que boca suja! — Ela ralha comigo, mas sua expressão é gentil. — Estou aqui tão cedo porque queria eu mesma te dar a notícia. — Que notícia? — Fico apreensiva na hora. — Você vai fazer uma espécie de cirurgia hoje. — Seu tom é feliz, mas a notícia me soa apavorante. — Mais pontos internos? Algo está errado? — Pergunto num fio de voz, já morrendo de medo de encarar a mesa de cirurgia. Não me lembro de quando cheguei ao hospital ou das cirurgias que fiz, mas sei que nada disso foi agradável. Se tomar um coquetel de remédios após o estupro não foi uma boa experiência, levar pontos internos deve ser ainda pior. — Vão implantar sua prótese ocular. — Olho para ela com o olho arregalado e ela tenta conter o sorriso. — Sei que não é um olho de verdade, mas é melhor que nada. Ela me dá um abraço desajeitado sem encostar muito em mim ou em meus machucados. Mesmo assim, esse leve carinho faz com que eu me sinta melhor. Rita sempre dá um jeito de melhorar as coisas para mim, mesmo que sua vida seja ocupada. Agora que a filha dela está na faculdade, Rita iniciou carreira como agente em uma empresa de desfiles de moda, então o fato dela estar na cidade para cuidar de mim é algo de valor inestimável. — Muito obrigada... — Sussurro contra seu ombro, verdadeiramente agradecida. — Eu nunca vou poder retribuir tudo que está fazendo por mim. — E não precisa. Tudo que eu faço é porque amo você e amava sua mãe. — Ela me dá um beijo na testa e se afasta. — Além disso, hoje você também vai finalmente tirar esses pontos, então é dia de comemorar! ... O dia se passa de modo lento até a hora da cirurgia de implantação do meu olho falso, que felizmente ocorre bem. Passo o resto do tempo falando animada com Rita e me olhando no espelho, não conseguindo acreditar no quão real esse olho parece e no quão satisfatório é não ter mais todos aqueles fios costurando minhas bochechas no lugar. — Nem dá para notar a diferença entre o falso e o verdadeiro! — Digo novamente, ainda incrédula. — Essa prótese deve ter custado o olho da cara! — Pelo menos não foi o meu olho que custou. — Ela responde, um sorriso falsamente m*****o nos lábios. Rio abertamente pela primeira vez desde que fui internada, sem ligar para a leve ardência ainda presente ou para o fato de eu agora ter uma enorme cicatriz no rosto com o formato de um imenso sorriso. ... Quando o horário de visitas acaba e Rita vai embora, não consigo parar de encarar meu reflexo no pequeno espelho de mão. Além da cicatriz que imita o sorriso de Jeff, tem um pequeno corte em minha pálpebra esquerda, formando uma linha exatamente no meio dela, repartindo-a. Consigo imaginar a faca perfurando-a ao me olhar no espelho, e felizmente não me lembro da dor que senti quando isso aconteceu. Respiro fundo, ansiosa. Daqui a alguns dias receberei alta, mas não sei se realmente quero deixar o hospital agora. Já é noite e Jeff está lá fora em algum lugar, fervilhando de ódio por não ter conseguido me matar. Sei que ele virá atrás de mim, bem no fundo eu sinto isso. Sei também que ele provavelmente está rondando minha casa agora, procurando novas maneiras de invadi-la, porque ele é esperto o suficiente para saber que vou reforçar a segurança. Estou suando frio e não noto quando as lágrimas de nervosismo começam a escorrer pelo meu rosto. Nunca mais conseguirei dormir em paz sem a ajuda de remédios, tenho certeza disso. — Jeff the Killer, você arruinou minha vida. — Sussurro com amargura, agarrando o lençol com força ao imaginar que ele também sabe disso. ...  Narrador Dez dias antes. No meio de uma floresta de difícil acesso, um bando de assassinos se reúne para receber mais um deles em uma afastada casa caindo aos pedaços, mais conhecida como Mansão Creepypasta. Assim que Jeff the Killer adentra a porta da Mansão, proferindo xingamentos em voz alta enquanto pressiona a mão direita em cima do curativo m*l feito em seu braço esquerdo, é recebido com risos e piadas a respeito de seu último trabalho, já notícia na televisão. — Que papelão foi esse, hein, Jeff? — Eyeless Jack grita da sala, enquanto gargalha e aponta para a televisão, ligada no noticiário local. Jeff encara a nuca do mascarado com ódio, segurando o braço onde levara o tiro. Um fio de sangue escorre pela pele exposta, o habitual moletom branco amarrado na cintura. — Queria que eu ficasse lá e levasse mais um tiro, p***a? — O assassino sorridente ameaça se aproximar, quase espumando de raiva. Eyeless Jack se levanta, pronto para uma briga desonesta com um Jeff ferido, mas Masky entra no meio. — Se acalme, Jeff. Já temos problemas o bastante por hoje. E você — ele se volta para Eyeless Jack — não pode abrir a boca para falar de Jeff. Ultimamente você tem mais roubado órgãos do que matado. Uma discussão mais acalorada está prestes a irromper com a chegada de mais assassinos na sala onde os três se encontram, mas todos ficam em silêncio no momento em que Slenderman aparece no local, trajando um terno n***o e uma gravata perfeitamente arrumada, como sempre. O som de estática paira no ar, deixando Smile.Dog nervoso, fazendo-o resmungar e se encolher debaixo da mesa, rosnando. Ainda é um cachorro, apesar de tudo. — O que está acontecendo aqui? — A voz de Slender é grave, de impor respeito. Ele é realmente uma das poucas criaturas desse mundo capaz de manter vários assassinos insanos na linha. — Qual o motivo de tanta comoção? — Jeff não conseguiu matar uma garota porque ao invés de fazer o serviço que devia, resolveu t*****r com ela. E ainda levou um tiro. — Ticci Toby diz de forma distraída, enquanto disputa uma partida no videogame com Ben Drowned. É incrivelmente óbvio quem irá ganhar. — Pelo menos eu dou um jeito de t*****r. E quanto a você, Toby? Não consegue tirar as próprias calças sem ter um ataque de nervos. — Jeff responde com um tom debochado, imitando o tique nervoso do colega assassino. — Ele virou um estuprador. — Uma voz feminina soa do outro lado da sala. Clockwork diz a frase carregada de frieza, desviando o olho de seu livro para encarar o outro serial killer fixamente. — Não é mesmo, Jeff? — Poucas garotas transariam comigo por vontade própria. — Jeff resmunga, se recostando na parede. — E depois, que graça teria se ela quisesse? — O que foi que você fez, Jeff? — Sally desce as escadas nesse momento. Com um ursinho de pelúcia nas mãos e um sorriso infantil no rosto, é o único tipo de inocência que mora na Mansão. Todos ficam meio tensos ao olhar para os curiosos olhinhos castanhos da menina protegida de Slender e de Laughing Jack. — Papo de adulto. Não enche, pirralha. — Ben se manifesta, sem desviar o olhar entediado da tela da segunda TV na sala, onde o videogame está plugado. — Falou o adulto. — Sally diz de forma sarcástica, mostrando a língua. O som de estática fica mais alto nesse momento, demonstrando que Slender está ficando sem paciência para os serial killers presentes. — Assassinos sanguinários deveriam ser os moradores daqui. — A criatura esguia começa a falar, fazendo a imagem das TVs dar lugar a telas de estática. — Mas no lugar disso, tenho um bando de crianças que ficam jogando videogame e um bando de preguiçosos e ladrões. Para fechar com chave de ouro, um dos poucos assassinos realmente em série — ele vira a cabeça na direção de Jeff, que está revirando os olhos nesse momento — prefere ter relações sexuais com a vítima ao invés de matá-la. Eu deveria dar um fim em todos vocês e arranjar inquilinos novos. Todos reclamam da declaração de Slender, mas ninguém realmente n**a suas acusações. Todo intimamente sabem que se tratam de fatos. — É, talvez nós t-tenhamos ficado um pouco p-preguiçosos. — Toby quebra o silêncio, coçando a nuca. — Matar já não é mais como antes, quando as pessoas tinham medo de nós. — Eyeless Jack diz, frustrado. — Ao invés de nos temerem, garotinhas adolescentes criam histórias românticas e melosas conosco. — Jeff resmunga, fazendo um som como se estivesse prestes a vomitar. — Estou farto de parecer um i*****l apaixonado. — Você não é o único que se sente assim. — Masky suspira, cruzando os braços e se recostando no canto mais escuro da parede, ao lado da escada. — Estou cheio do modo como pareço bobo nessas historinhas. Dito isso, todos os assassinos começam a concordar, menos Sally, por não fazer ideia do que estão falando. Ela simplesmente não se interessa por esse mundo. Jeff não para de mexer no curativo em seu braço e todos os outros agora se ocupam com coisas igualmente inúteis, para a frustração de Slender. — É melhor que tenham resultados melhores na próxima semana. — Ele diz, começando a desaparecer do local sem se despedir. — Zalgo nos fará uma visita e ninguém aqui quer decepcioná-lo, quer? Todos sabem o que aconteceu com Jane por isso. Com a menção ao nome de Jane, todos olham para Jeff, que começa a subir as escadas no mesmo momento. Ela é um assunto do qual Jeff sempre se recusa a falar. Não que ele a amasse, claro. Ele não consegue amar ninguém além de si mesmo. Mas ele gostava da companhia dela, afinal, a garota de olhos negros era sua parceira, tanto de matança quanto na cama. Porém, chegou um momento em que a personalidade de Jane começara a se deteriorar — para os padrões da Mansão. Ela começara a agir de forma estranha, não matando enlouquecida como antes, passando mais tempo lendo e, um dia, teve a audácia de perguntar se Jeff já havia pensado em ter filhos. A infame serial killer a essa altura parecia mais uma adolescente apaixonada comum do que uma assassina sanguinária. Nada contente com isso, Zalgo ordenou que o problema de Jane fosse resolvido e Jeff assim o fez. Ele não queria problemas com o demônio, ainda mais devido a uma companheira que perdera o que tanto o atraía: a loucura. Murmurando palavrões ao entrar em seu quarto, Jeff bate a porta com força e suspira, sentindo uma leve queimação no braço machucado. Irritado, ele arranca o curativo, observando o ferimento feito pela bala: nada mais que um pequeno círculo sangrento, mas que dói de forma intensa. Ondas de dor percorrem todo o seu braço quando ele repuxa o furo em sua pele para observá-lo por dentro. Já havia retirado a bala, mas sua cicatrização não é tão rápida quanto gostaria. Desistindo de observar o ferimento, o assassino desamarra o moletom ainda ensanguentado da cintura e o joga no chão, tirando a camiseta preta logo em seguida. Ao deitar-se em sua velha cama de casal, ele encara o teto antigo da Mansão com ódio. Pensa na garota, aquela que ele não matou. Furioso, grava o rosto dela em sua mente, prometendo a si mesmo que aquilo não irá ficar assim. Mais cedo ou mais tarde a garota vai se descuidar e, nessa hora, Jeff sabe que vai estar lá, pronto para terminar o que começou de uma forma c***l e extremamente dolorosa. Fazendo essa promessa, ele pega sua máscara de dormir e a coloca para enfim poder preencher sua visão com o escuro. Em seu sono inquieto, fantasia com a morte da garota que lhe rendeu uma mancha em seu histórico de maldade.
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