Cincinat
Lucca se virou para me encarar, ele retirou os óculos escuros como se quisesse me olhar melhor.
Sem saber que os dois eram irmãos, e movida por um sentimento que eu não deveria sentir, talvez eu tivesse exagerado um pouco na escolha da minha roupa.
— Já que o Lucca se recusa a nos apresentar formalmente, eu sou a Letícia. Irmã caçula.
— E, graças aos céus, a única... Let, entra no carro!
Lucca estava com o olhar carregado, e pelo jeito não era só em mim que ele colocava medo com aquela carranca, pois a irmã tratou de obedecê-lo bem rápido.
— Queria que eu acreditasse que ela era a sua amante? — Dei uma risadinha, me sentindo vitoriosa.
— Onde você pensa que vai vestida desse jeito? — Ele agarrou o meu braço, me conduzindo para longe do carro onde Letícia estava.
— Você disse que as mulheres recém-casadas devem usar... usar branco!
Ele soltou meu braço imediatamente e deu um passo para trás.
Eu havia colocado um vestido curto branco, com um belo decote em V, uma sandália anabela e uma tiara branca na cabeça. Era um look aparentemente inofensivo, se o vestido não ficasse tão curto em mim.
— Esperava você de camisola branca na minha cama ontem... ou só uma calcinha branca, não importa. Poderia até me aguardar sem nada, mas no nosso quarto!
Senti meu corpo esquentar com as palavras dele. Aquele homem não fazia ideia do que era romantismo.
— Você é um... um sem-vergonha.
— Você começa a gaguejar quando está nervosa. Eu já te soltei e me afastei. — Ele baixou a voz como um sussurro. — O que está te deixando nervosa, meu anjo?
— Eu... eu... não estou nervosa — respondi, sentindo uma vontade imensa de chorar, e meus olhos marejaram contra a minha vontade.
— Pelo jeito tudo o que eu faço te deixa ma-l. Me ensine a lidar com você, Coryne...
Ouvir o nome de Coryne, foi o suficiente pra que eu retomasse a compostura.
— Vamos logo, sua irmã está nos esperando! — respondi.
— Não posso levar você para a minha empresa vestida desse jeito! A minha reputação já está bastante arruinada.
— Não precisa me levar para a sua empresa. Tenho outras coisas para fazer.
— Você tem uma reunião comigo. Falaremos de negócios, então faremos isso na empresa! — Ele mordeu o lábio inferior, desviando o olhar ligeiramente.
— Não vou trocar de roupa só porque você é antiquado, Lucca. E eu preciso muito falar com a... minha mãe.
— Achei que você fosse religiosa. É isso que o padre ensina que uma mulher casada deve vestir?
— Por que como eu me visto te incomoda tanto? — perguntei de uma vez.
— Eu fiquei mais de dois anos preso em uma clínica psiquiátrica. Saí de lá direto para o nosso casamento. Eu sou um homem, Coryne!
O encarei por um tempo, tentando entender sua frustração.
— Preciso fazer se-xo! É sobre isso que eu estou falando... e você não me quer, mas fica me provocando.
— Bom... me desculpe — respondi, envergonhada. Ele parecia realmente chateado.
— Pelo jeito sua mãe não te ensinou nada sobre os homens!
— Você não poderia estar mais certo — respondi com amargura.
Lucca pegou minha mão e me levou até o carro, abrindo a porta para mim.
Letícia estava trabalhando em algo no notebook e não pareceu se importar muito por ter ficado esperando.
— Vou deixar a Letícia no fórum e depois te levo para ver sua mãe! — Lucca avisou.
A viagem seguiu silenciosa. Letícia desceu do carro bem séria, e eu não contive a curiosidade de perguntar para Lucca se estava tudo bem com ela.
— Letícia é advogada. — Ele respondeu. — Ela é bastante brincalhona e divertida, exceto no trabalho. Eu costumo dizer que ela ativa o modo advogada e já era para o outro lado. Ela é muito boa no que faz!
Pelo jeito ele tinha muito orgulho da irmã. Isso era bonito de ver.
Ele dirigiu mais um pouco até estacionar em frente à minha casa, ou melhor, a casa da Sra. Carolina, minha madrasta.
— Você pode ir fazer as suas coisas... — falei, tentando não parecer desesperada para ele sumir dali.
Ele pareceu considerar um pouco, mas então seu telefone tocou, e devia ser algo importante, porque ele olhou para mim com o semblante sombrio:
— Desce! O carro da segurança vai ficar aqui te esperando.
Ele abriu a porta do carro e só faltou me empurrar para fora.
Entrei na casa, sentindo os passos pesados, e estar ali parecia sufocante demais.
— Cincinat... — a voz da Sra. Carolina ecoou na grande sala. — Como vai sua vida com o homem louco?
— Eu vim buscar o que você me prometeu!
— Não seja insolente, garota. Me trate com respeito, eu te criei como se fosse minha própria filha. Apesar da ferida que sua mãe abriu no meu coração, eu criei você. O fruto do pecado do seu pai com aquela desgraçada.
— Você me... me prometeu...
— Sim, eu te prometi e vou cumprir. Quer o endereço da sua mãe e eu vou te dar o endereço. Vai descobrir que eu não menti, que ela pagou muito caro por ter se envolvido com um homem casado.
— Só me dá o endereço — implorei, desesperada que ela estivesse apenas me manipulando outra vez.
Passei a vida inteira querendo saber sobre a minha mãe, qualquer coisa que revelasse o paradeiro dela.
Aceitei substituir Coryne no casamento em troca do endereço dela, e agora temia que minha madrasta continuasse apenas me torturando e me negasse a chance de conhecer a minha mãe.
Mas, para minha surpresa, a Sra. Carolina voltou com um pequeno papel entre os dedos.
— Aqui está. Esse é o endereço da sua mãe. Agora me conte, como vai a vida com o marido da sua irmã?
— Como você pode ser assim tão... tão cru-el?
Ela gostava de repetir que eu seria como a minha mãe, e no final das contas, ela mesma fez isso comigo.
Como se lesse meus pensamentos, sua voz envenenada me acertou em cheio:
— Te coloquei na vida dele, e não na cama. Se você tiver algum respeito por si mesma, não vai dormir com o marido da sua irmã. Eu o vi de longe hoje, ele não me pareceu tão desprezível. Me diz, Cincinat, ele é mesmo impotente?
Sem aguentar ser atormentada nem mais um minuto sequer por aquela mulher, eu corri para fora da casa.
Entrei no carro que já estava me aguardando e pedi para ser levada para a empresa de Lucca.
— Sim, Sra. Coryne!
Sem conseguir me conter, chorei copiosamente no banco de trás do carro. O coração batia forte. Eu era uma criminosa, me passando por outra pessoa. Apertei o pequeno papel com o endereço e isso me trouxe algum conforto.
Valeu a pena, repeti para mim mesma.
Lucca não estava na empresa. Uma recepcionista muito educada me levou até a sala dele para que eu pudesse esperar lá.
Entediada, liguei o notebook e, pela aba de visitantes, comecei a navegar na internet apenas para distrair a mente.
Foi então que me deparei com um vídeo terrível. Eu estava pesquisando sobre a irmã do Lucca, e havia uma enxurrada de informações sobre ele ter agredido a irmã em uma festa, após uma bebedeira.
No vídeo, ele aparecia arrastando ela, toda machucada, para fora da festa. Não era uma agressão qualquer, ela estava muito ferida.
Céus, eu havia me casado com um monstro!