Lucca
— Culpa? — repeti, estreitando os olhos para ela. — Por que se sentiria culpada por ficar comigo?
Ela ficou visivelmente nervosa, mas eu não iria facilitar para ela, me afastando.
— Há alguns anos eu fiz uma promessa de que eu jamais me entregaria a um homem sem amá-lo e principalmente, sem me sentir amada por ele!
— Você ainda é virgem, Coryne?
— É... bom... sim — ela gaguejou, o nervosismo e o constrangimento dominando sua voz.
Um suspiro ruidoso escapou de mim. Virgem. Aquilo complicava um pouco as coisas. Fui tomado por uma fúria cega e me afastei bruscamente.
— Coloque uma roupa — ordenei, irritado. — Antes que pegue um maldito resfriado ou eu cometa uma... bem, outra loucura.
Ela foi até a mala que estava no canto do quarto e se inclinou, revirando o conteúdo.
Ou ela era uma excelente atriz e estava me provocando deliberadamente, ou era inocente demais para achar normal empinar o quadril daquela forma diante de um homem que estava no limite.
Não precisei olhar muito para ver uma coleção de pequenas peças sendo arremessadas de qualquer jeito para fora.
— Mas que diabos... — Me aproximei da mala revirada e peguei uma calcinha que dizia "beije aqui". — ...religiosa demais para fazer uma promessa e sa-fada o suficiente para comprar... isso!
Vermelha como um tomate, ela tomou a peça da minha mão e a escondeu no fundo da mala.
— Não fui eu que comprei essas... essas coisas.
— Pelo amor de Deus, pare de gaguejar! — acabei subindo o tom de voz e ela se encolheu.
Eu tentava me convencer que ela estava apenas atuando, mas às vezes, algo em seu jeito despertava um alerta de que havia algo errado.
Abri o guarda-roupa e joguei uma calça de moletom e uma camiseta minha para ela.
— Vista-se! Não vou te obrigar a fazer nada comigo, mas dormirei nesse quarto e nessa cama!
— Sim, senhor — ela fugiu para o banheiro outra vez.
O chá que eu havia preparado estava frio e horrí-vel, mesmo assim tomei a bebida, buscando acalmar os meus próprios nervos agitados. Isso não devia ser tão trabalhoso, ainda assim decidi deixar para conversar com Coryne no dia seguinte.
Estava deitado há um tempo, quando ela finalmente veio para a cama.
Eu achei que ia mudar de ideia quanto à exigência de dormir na mesma cama que ela, e que era apenas um capricho para irritá-la, por aceitar se casar por dinheiro.
Mas tive uma boa noite de sono, considerando as noites terríveis e intermináveis na clínica, dormir ao lado de um corpo tão feminino e cheiroso me fez muito bem.
Eles deveriam experimentar essa técnica...
Quando abri os olhos, senti a respiração de Coryne no meu ombro, seu nariz roçando a minha pele.
Fiquei apenas desfrutando da sensação e me esforcei por um bom tempo para ficar imóvel para não acordá-la, mas lembrei de Leticia.
Dei um pulo da cama.
Coryne virou para o outro lado, mas logo afundou a cabeça no travesseiro e continuou dormindo.
Fui para outro quarto onde estava a maioria das minhas coisas, não havia mudado tudo para o quarto principal ainda. Coloquei um terno cinza escuro, queria ir até a empresa, precisava mostrar que estava de volta.
Quando desci, a Letícia já estava na cozinha, preparando o café da manhã. Ela estava em um conjunto social azul marinho, com uma saia justa e terninho.
— Cadê os empregados? Não deveria estar fazendo isso, vai acabar se sujando...
— Dispensei todos, mas calma... foi só temporariamente. Um casal precisa de privacidade — ela deu uma piscadela.
— Sua ideia de privacidade é bem diferente, Let. Aliás, você está belíssima. Essa cor destaca os seus olhos.
— Você vai me acompanhar? — ela perguntou, enquanto mexia os ovos.
Antes de responder, me virei para pegar um copo e vi Coryne na soleira da porta. O cabelo preso em um coque bagunçado, ainda estava com a minha camiseta e a minha calça de moletom. Ela olhava para Letícia e para mim atônita.
— Sim, eu irei te levar no trabalho, querida. — Não pretendia, mas me lembro de Coryne falando toda confiante que eu podia ter amantes e resolvi provocá-la.
— Ah, você está aí? — Letícia se virou para cumprimentá-la. — Tome café com a gente.
Percebi o rosto de Coryne ficar vermelho. Qual é, meu anjo? Está com ciúmes?
Dei um sorriso torto, antes de falar:
— Sente-se!
— Oh... sim, senhor... é, Lucca.
— Quanta formalidade — Letícia me olhou, provavelmente pensando o mesmo que eu.
Por que uma garota, filha única de uma socialite, agia como se fosse uma simples empregada?
Lancei um olhar duro para que Letícia não começasse a tagarelar e acabasse falando demais.
Coryne estava claramente desconfortável, praticamente engoliu o café da manhã.
— Lucca... — ela deu uma tossidinha antes de continuar. — Vai para a cidade?
— Sim!
— Posso ir com vocês? Quero ir ver minha... mãe — ela me encarou.
— Acabamos de nos casar e já está com saudades da mamãe?
— É, nós acabamos de nos casar. E seu dever como marido é me... — ela fez uma pausa e mediu Letícia dos pés a cabeça. — ...mimar, ao menos um pouco.
— Seja breve, nós estamos atrasados — respondi, seco.
Coryne saiu rapidamente para se trocar e eu fui para o lado de fora de casa, com Letícia bem atrás de mim.
Com certeza, estava com raiva por tê-la usado nesse jogo infantil. Que inferno! O que está acontecendo comigo?
— Por que você fez isso? Eu fiquei muito sem graça lá dentro.
— Letícia, acalme-se, por favor!
— Eu não entendo você, realmente eu não te entendo, Lucca. Ela até me pareceu uma boa garota.
— Ela se casou por dinheiro! É uma interesseira!
— E você, Lucca? Também não se casou apenas para ter um herdeiro, e herdar bilhões em dinheiro? Devo te chamar de interesseiro também?
— É diferente... — murmurei, sem graça. — O que estou fazendo é apenas garantir, que eu receba o que é meu por direito.
Depois de um tempo, fui buscar o carro. Quando voltei, dei um beijo no topo da cabeça da Letícia e pedi:
— Não conte nada a ela, por enquanto... por favor...
— O que a sua esposa não pode saber? — a voz de Coryne soou bem atrás de mim.
Letícia me encarou com um sorriso perverso e respondeu por mim:
— Lucca é o meu irmão!