Capítulo 5: Outra Loucura

1154 Words
Lucca ​— Culpa? — repeti, estreitando os olhos para ela. — Por que se sentiria culpada por ficar comigo? ​Ela ficou visivelmente nervosa, mas eu não iria facilitar para ela, me afastando. ​— Há alguns anos eu fiz uma promessa de que eu jamais me entregaria a um homem sem amá-lo e principalmente, sem me sentir amada por ele! ​— Você ainda é virgem, Coryne? ​— É... bom... sim — ela gaguejou, o nervosismo e o constrangimento dominando sua voz. ​Um suspiro ruidoso escapou de mim. Virgem. Aquilo complicava um pouco as coisas. Fui tomado por uma fúria cega e me afastei bruscamente. ​— Coloque uma roupa — ordenei, irritado. — Antes que pegue um maldito resfriado ou eu cometa uma... bem, outra loucura. ​Ela foi até a mala que estava no canto do quarto e se inclinou, revirando o conteúdo. ​Ou ela era uma excelente atriz e estava me provocando deliberadamente, ou era inocente demais para achar normal empinar o quadril daquela forma diante de um homem que estava no limite. ​Não precisei olhar muito para ver uma coleção de pequenas peças sendo arremessadas de qualquer jeito para fora. ​— Mas que diabos... — Me aproximei da mala revirada e peguei uma calcinha que dizia "beije aqui". — ...religiosa demais para fazer uma promessa e sa-fada o suficiente para comprar... isso! ​Vermelha como um tomate, ela tomou a peça da minha mão e a escondeu no fundo da mala. ​— Não fui eu que comprei essas... essas coisas. ​— Pelo amor de Deus, pare de gaguejar! — acabei subindo o tom de voz e ela se encolheu. ​Eu tentava me convencer que ela estava apenas atuando, mas às vezes, algo em seu jeito despertava um alerta de que havia algo errado. ​Abri o guarda-roupa e joguei uma calça de moletom e uma camiseta minha para ela. ​— Vista-se! Não vou te obrigar a fazer nada comigo, mas dormirei nesse quarto e nessa cama! ​— Sim, senhor — ela fugiu para o banheiro outra vez. ​O chá que eu havia preparado estava frio e horrí-vel, mesmo assim tomei a bebida, buscando acalmar os meus próprios nervos agitados. Isso não devia ser tão trabalhoso, ainda assim decidi deixar para conversar com Coryne no dia seguinte. ​Estava deitado há um tempo, quando ela finalmente veio para a cama. ​Eu achei que ia mudar de ideia quanto à exigência de dormir na mesma cama que ela, e que era apenas um capricho para irritá-la, por aceitar se casar por dinheiro. ​Mas tive uma boa noite de sono, considerando as noites terríveis e intermináveis na clínica, dormir ao lado de um corpo tão feminino e cheiroso me fez muito bem. ​Eles deveriam experimentar essa técnica... ​Quando abri os olhos, senti a respiração de Coryne no meu ombro, seu nariz roçando a minha pele. Fiquei apenas desfrutando da sensação e me esforcei por um bom tempo para ficar imóvel para não acordá-la, mas lembrei de Leticia. ​Dei um pulo da cama. ​Coryne virou para o outro lado, mas logo afundou a cabeça no travesseiro e continuou dormindo. ​Fui para outro quarto onde estava a maioria das minhas coisas, não havia mudado tudo para o quarto principal ainda. Coloquei um terno cinza escuro, queria ir até a empresa, precisava mostrar que estava de volta. ​Quando desci, a Letícia já estava na cozinha, preparando o café da manhã. Ela estava em um conjunto social azul marinho, com uma saia justa e terninho. ​— Cadê os empregados? Não deveria estar fazendo isso, vai acabar se sujando... ​— Dispensei todos, mas calma... foi só temporariamente. Um casal precisa de privacidade — ela deu uma piscadela. ​— Sua ideia de privacidade é bem diferente, Let. Aliás, você está belíssima. Essa cor destaca os seus olhos. ​— Você vai me acompanhar? — ela perguntou, enquanto mexia os ovos. ​Antes de responder, me virei para pegar um copo e vi Coryne na soleira da porta. O cabelo preso em um coque bagunçado, ainda estava com a minha camiseta e a minha calça de moletom. Ela olhava para Letícia e para mim atônita. ​— Sim, eu irei te levar no trabalho, querida. — Não pretendia, mas me lembro de Coryne falando toda confiante que eu podia ter amantes e resolvi provocá-la. ​— Ah, você está aí? — Letícia se virou para cumprimentá-la. — Tome café com a gente. ​Percebi o rosto de Coryne ficar vermelho. Qual é, meu anjo? Está com ciúmes? ​Dei um sorriso torto, antes de falar: ​— Sente-se! ​— Oh... sim, senhor... é, Lucca. ​— Quanta formalidade — Letícia me olhou, provavelmente pensando o mesmo que eu. ​Por que uma garota, filha única de uma socialite, agia como se fosse uma simples empregada? ​Lancei um olhar duro para que Letícia não começasse a tagarelar e acabasse falando demais. ​Coryne estava claramente desconfortável, praticamente engoliu o café da manhã. ​— Lucca... — ela deu uma tossidinha antes de continuar. — Vai para a cidade? ​— Sim! ​— Posso ir com vocês? Quero ir ver minha... mãe — ela me encarou. ​— Acabamos de nos casar e já está com saudades da mamãe? ​— É, nós acabamos de nos casar. E seu dever como marido é me... — ela fez uma pausa e mediu Letícia dos pés a cabeça. — ...mimar, ao menos um pouco. ​— Seja breve, nós estamos atrasados — respondi, seco. ​Coryne saiu rapidamente para se trocar e eu fui para o lado de fora de casa, com Letícia bem atrás de mim. ​Com certeza, estava com raiva por tê-la usado nesse jogo infantil. Que inferno! O que está acontecendo comigo? ​— Por que você fez isso? Eu fiquei muito sem graça lá dentro. ​— Letícia, acalme-se, por favor! ​— Eu não entendo você, realmente eu não te entendo, Lucca. Ela até me pareceu uma boa garota. ​— Ela se casou por dinheiro! É uma interesseira! ​— E você, Lucca? Também não se casou apenas para ter um herdeiro, e herdar bilhões em dinheiro? Devo te chamar de interesseiro também? ​— É diferente... — murmurei, sem graça. — O que estou fazendo é apenas garantir, que eu receba o que é meu por direito. ​Depois de um tempo, fui buscar o carro. Quando voltei, dei um beijo no topo da cabeça da Letícia e pedi: ​— Não conte nada a ela, por enquanto... por favor... ​— O que a sua esposa não pode saber? — a voz de Coryne soou bem atrás de mim. ​Letícia me encarou com um sorriso perverso e respondeu por mim: ​— Lucca é o meu irmão!
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