Nikolay
Meu telefone começou a tocar sobre a mesa de cabeceira, me tirando do meu estado de sono. Não de um sonho, mas de um vazio completo. Olhei para o teto tentando despertar, antes de atender o telefone.
— O que é?
Era Viktor, e ele não parecia feliz.
— O Pakhan quer falar com você.
Agora ele conseguiu me acordar.
— Agora? — Olhei para o relógio e xinguei. Eram cinco e quinze da manhã.
— Sim, venha para o café da manhã às seis. Eu sei que você consegue chegar.
Viktor desligou antes que eu pudesse responder. Suspirei, recostei-me na cama e olhei para o teto.
No cômodo ao lado, Alina estava enrolada em suas cobertas, provavelmente com uma mão entre as pernas, pensando em meus lábios contra sua garganta.
Eu poderia entrar ali agora mesmo, arrancar os lençóis e olhar para sua pele branca e macia, perfeitamente lisa. Seus lábios se abririam, sua voz tremeria, e talvez ela me pedisse para parar — mas eu estava certo de que não ouviria.
Qual era o meu problema?
A garota despertou algo em mim que eu não sentia há muito tempo: desejo e fome.
Eu queria seu corpo, seus lábios deliciosos, seus quadris redondos, sua b***a firme, suas pernas envolvendo minha cintura enquanto eu a penetrava bem fundo. Mas eu também precisava de sua aprovação.
Ansiava por aquele olhar em seus olhos, precisava que ela me encarasse como se eu valesse alguma coisa. Pouquíssimas pessoas neste mundo olharam para mim como se eu fosse algo além de uma arma.
Sentei-me, esfregando os olhos. Todos aqueles anos vivendo sob o teto do Pakhan e, mesmo assim, eu não o conhecia de verdade. Ele era um mistério, uma figura obscura à margem da minha memória.
Ele era a dor no meu estômago, o fogo que me alimentava. Ele era minha raiva e meu instinto assassino. Ele me ensinou como tirar uma vida e como desligar minhas emoções antes que elas me consumissem.
Antes dele, eu era apenas um garoto qualquer. Mas ele colocou gelo em minhas veias. Ele me transformou em uma faca.
Fechei os olhos e passei a mão pelo ombro. A cicatriz ainda estava lá — carne perfeitamente redonda e enrugada, onde Mikhail apagou seu charuto em minha pele.
"Você acha que isso dói, garoto? Imagine levar um tiro. Imagine ser esfaqueado. Você ainda tem que lutar, mesmo quando dói."
Ele estava certo sobre isso. Eu ainda tinha que lutar, não importava o que acontecesse.
Levantei e tomei um banho. Vesti uma camiseta preta e uma jaqueta de couro. Encontrei minha caminhonete e dirigi pela cidade no início da manhã. Corredores e passeadores de cães manobravam pelas calçadas relativamente silenciosas, que ficariam lotadas nas próximas horas, à medida que os trabalhadores começassem seus trajetos.
Estacionei no fim do quarteirão, perto da delicatessen russa habitual de Mikhail. Dois bandidos estavam na entrada, caras que eu não reconhecia, mas que me conheciam de vista. Ambos assentiram respeitosamente quando passei por eles.
Não era normal que Mikhail tivesse seguranças do lado de fora, mas, por outro lado, a cidade também não estava normal ultimamente. Não com os Leones em guerra consigo mesmos.
Mikhail estava sentado a uma pequena mesa redonda no fundo. O lugar cheirava a picles e cozidos de carne. Os funcionários atrás do balcão me ignoraram.
Mikhail tinha um papel nas mãos e um café à sua frente, escuro. Viktor estava sentado à mesa ao lado dele, mexendo no telefone.
Nenhum homem como eu deveria ter ficado lá, parado, olhando fixamente para baixo. Foi um claro desrespeito, mas eu me mantive sob controle.
"Você ainda tem que lutar, mesmo quando dói."
— Obrigado por vir me ver, Nikolay. — Mikhail sacudiu o papel que segurava e o fechou, seus olhos frios encontrando os meus enquanto ele gesticulava para a cadeira em frente a ele. — Por favor, sente-se.
Fiz como ordenado. Viktor ainda não olhou para mim. Babaca.
— O que posso fazer por você, Pakhan?
O sorriso de Mikhail era tenso enquanto ele acenava com a mão.
— Dispense as formalidades, por favor. Não estamos em uma reunião oficial agora. O resto da Bratva não está aqui.
Respirei fundo e soltei o ar.
— Tudo bem, Mikhail. Por que você me acordou só para vir a esse buraco imundo em uma hora tão inconveniente?
Mikhail sorriu.
— Isso que eu esperava. — Ele pegou o café delicadamente e inclinou a cabeça. — Você tem estado ocupado ultimamente, não é?
Eu nunca conseguia encará-lo por muito tempo. Isso me lembrava muito do treinamento dele. Ele não era um homem gentil. Provavelmente porque eu seguia minhas próprias regras.
— Eu não diria que estou ocupado. — Inclinei minha cabeça e observei suas mãos. Aqueles dedos ásperos, as juntas calejadas que eu conhecia tão bem. Eu tinha hematomas permanentes de onde os socos dele me acertavam nas lutas de quando eu era criança.
— Então por que aquela garota Petrov ainda não morreu? — Sua voz era suave, quase gentil. Ele se inclinou para mais perto. — Você nunca demorou tanto antes.
— Não foi o momento certo. — Inclinei-me para frente. — Você a quer morta ou a quer desaparecida?
Ele riu. Eu sabia que ele entenderia o que eu queria dizer. Qualquer um podia tirar uma vida, mas poucos homens nesta cidade tinham habilidade suficiente para assassinar alguém e garantir que o corpo nunca fosse encontrado.
— Quero que o trabalho seja feito.
— Foi por isso que você enviou o Maxim, não é?
Seu sorriso desapareceu.
— E você o pegou no caminho. — Ele me lançou um olhar penetrante. — Você sabe que sou protetor com as minhas vítimas.
— Eu sei que você tem um senso de orgulho t**o. Achei que tivesse superado isso há muito tempo.
Ele certamente tentou, pelo menos.
— Eu sou o que você fez de mim, Pakhan. — Mostrei os dentes cerrados, um desafio silencioso. Viktor olhou de relance, franziu a testa e desviou o olhar.
Mikhail suspirou e passou a mão pelo cabelo ralo.
— Eu chamei você por respeito, Nikolay. Você sabe que penso em você como meu próprio filho, mas você atrasou essa morte por tempo demais, e agora um dos nossos morreu por causa da sua tolice. Não vou esperar mais para que você conclua o trabalho.
Minha mandíbula se apertou.
— O que você está propondo?
— Não estou propondo nada. Estou avisando. Chamei Putin.
Eu inclinei no encosto da minha cadeira.
— Putin? Eu pensei que ele ainda estava na Rússia.
— Moscou. Você sabe como ele gosta do velho mundo. Mas ele ainda é leal à família e fará o que for preciso.
Desviei o olhar, de volta para o balcão. Putin era um velho amigo meu. Nosso caminhos divergiu quando nós tornamos mais velhos, mas Andrei treinou nós dois.
Putin era enorme. Ele era um gigante, na verdade — quase dois metros de altura e cheio de músculos. Ele consistentemente ganhava a competição do Homem Mais Forte de Moscou todo ano, e Mikhail só o chamava quando as situações pareciam terríveis.
Ele era quase tão bom quanto eu. Embora Putin tivesse mais músculos do que inteligência.
O pensamento dele me deixou nervoso. Eu gostava do Putin, sempre gostei — ele era uma das poucas pessoas que eu considerava um amigo de verdade, e enfrentá-lo seria mais do que difícil. Eu não queria lutar com ele, muito menos matá-lo, mas eu precisava manter Alina segura.
Meu desejo por ela guerreava contra minha lealdade à minha família, e eu não sabia qual lado venceria.
— Agradeço pelo aviso — eu disse, empurrando minha cadeira para trás. — Era só isso que você queria?
— Só isso. — Mikhail estendeu as mãos, com um sorriso falso nos lábios. — Você deveria vir mais vezes, Nikolay. Conversar com os outros homens da família. Se envolver mais com o grupo.
— Estou bem onde estou. A menos que isso tenha sido uma ordem.
Mikhail suspirou. Esse era um debate antigo. Ele queria que eu assumisse o lugar dele um dia, mas eu não tinha interesse. Eu queria matar, e só isso. Mas liderar a Bratva exigia um tipo especial de animal, e eu não era esse tipo.
— Não, não é uma ordem. Não vou forçar você a assumir mais do que está pronto. Só queria que reconsiderasse.
— Por favor, não envie o Putin. — Olhei para o homem que me criou, que me quebrou e me moldou. Ele nem sequer perguntou como eu estava, se eu já tive um dia normal na vida, com ele sempre à espreita no meu passado.
— Já é tarde para isso. Sinto muito, mas você vai ter que pará-lo.
Eu me levantei, as mãos tremendo. Não queria que Mikhail visse minha fraqueza, mas a raiva subia pela minha espinha em ondas, deixando minha respiração irregular.
— Eu não temo isso. Só diga ao Putin para não vir.
— Pela primeira vez na sua vida, Nikolay, você vai fazer o que precisa ser feito. Eu sou seu Pakhan, afinal.
Soltei um suspiro agudo.
— Agora você quer formalidade?
— Agora eu quero lealdade. Deixe Putin lidar com ela. Você precisa de um descanso, Nikolay.
O olhei irritado, me virando e indo embora. Não conseguia ficar ali nem mais um segundo ouvindo aquele discurso sem dizer algo de que me arrependeria depois. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Ele sabia que eu não deixaria Putin chegar perto de Alina — mas também não queria ferir um dos poucos amigos que eu tinha no mundo.
Putin... maldito Putin. Eu me lembrava do sorriso largo dele, da risada estrondosa, das mãos enormes como troncos. A terra tremia quando Putin andava.
Eu tinha pelo menos alguns dias. Ele precisaria pegar um voo de Moscou, e não era uma viagem curta. Depois, precisaria de mais um dia para se recuperar antes de sair à caça.
Tinha que haver outra maneira. Putin era ferozmente leal a Mikhail, ainda mais do que eu, e não tinha dúvidas de que faria o que lhe fosse ordenado. Se Mikhail quisesse que ele matasse Alina, ele a encontraria e faria isso, com ou sem a minha interferência.
Bastardo. Sentei-me ao volante da caminhonete e agarrei o volante com tanta força que minha visão ficou turva.
Aquele desgraçado estava fazendo isso de novo. Durante toda a minha infância, desde que ele me acolheu, Mikhail me empurrou, me usou e me manipulou. Ele me batia quando eu falhava e me batia quando eu tinha sucesso. Prometia pegar leve, mas quebrava meu braço no dia seguinte. Minha adolescência foi consumida pelo medo — apanhando cada vez mais forte, sem nunca saber quando ele faria algo ainda pior.
Eu nunca soube quais eram os limites. E isso era o pior de tudo.
Pobre Putin. Tudo o que ele queria era levantar pesos e aproveitar a vida em Moscou. Agora, Mikhail o arrastava de volta para assassinar uma garota.
E eu tinha que parar os dois.
— Droga — sussurrei, sentindo a raiva queimar dentro de mim.
Andrei poderia ter confiado em mim. Ele poderia ter acreditado. Mas, em vez disso, mandou Putin.
Agora, eu precisava decidir o que importava mais: uma garota que me atraía como um vício ou a família que me quebrou, me treinou e me criou.
Liguei o motor e dirigi devagar para casa, com o humor sombrio e a raiva pulsando sob a pele.