Capítulo 13

808 Words
Alina Apertei meus olhos e tentei não deixar Nikolay me ouvir chorar. Um longo tempo atrás, pensei que era forte. Tive uma centenas de primos, a maioria deles meninos, e eu amava todos eles. Eu achava que eles me amavam também — pelo menos eles diziam que amavam. Papai sempre dizia que a família era mais importante do que qualquer outra coisa no mundo, e eu acreditava nele. Meu irmão e eu éramos melhores amigos naquela época. Íamos para todos os lugares juntos, cruzando as ruas em nossas pequenas bicicletas, encontrando outras crianças Petrov, rindo no parque, brincando de esconde-esconde, pega-pega e caça ao tesouro. Éramos os reis do bairro, nosso pequeno bando de crianças. Eu pensei que esse era meu lar. Eu pensei que eu nunca seria ferida, pois estava cercada pela minha família. Papai disse nós estavamos seguros. Mas é claro que ele mentiu. Não pensei que meu primeiro contato com a dor aconteceria sob nosso próprio teto. Mas uma manhã estávamos jogando tênis na rua e meu irmão bateu a bola de tênis com tanta força que parecia que a parte verde peluda iria se desfazer. Todos nós olhamos enquanto ela voava sobre nossas cabeças como uma águia em voo, e lembro-me de pensar em quão orgulhosa eu estava do meu irmãozinho… Até que a bola acertou o rosto do próprio tio Cormac. Ninguém falou. Foi como ver Jesus levar um chute na garganta. Aiden ficou tão pálido que pensei que ele fosse cair. Cormac apenas sorriu, agarrou a bola e a jogou de volta. Mas paramos de jogar depois disso, com muito medo do grande líder Petrov para continuarmos testando a sorte. Que noite. Papai foi até Aiden no quarto pela primeira vez. Eu não entendi. Eu tinha talvez dez anos. Aiden tinha oito. Ouvi a voz do papai através das paredes, ouvi Aiden chorando e dizendo que ele não quis fazer isso — então ouvi o tilintar da fivela do cinto do meu pai. Por que o papai tiraria as calças? Então começaram as pancadas. Então os gritos. Essa foi a primeira vez que me escondi no guarda roupa. Depois, eu entrei furtivamente no quarto de Aiden e o encontrei encolhido no chão. A parte de trás da camisa dele estava manchada de vermelho. Eu a tirei e o algodão rasgou das crostas recém-formadas. Ele respirou fundo enquanto eu gentilmente limpava com álcool do grande frasco marrom como papai me mostrou, enxugando suavemente com algumas bolas de algodão. Quando terminei, as costas de Aiden estavam vermelhas e inchadas. Ele olhou para mim com aqueles olhos grandes e bonitos, pingando lágrimas. — Eu não queria fazer isso — ele disse e eu o abracei forte. Depois disso, papai começou a chicotear Aiden regularmente. Isto não era todo dia. Aiden não teria sobrevivido. Não era nem toda semana, embora às vezes ele fizesse isso algumas vezes seguidas. Aconteceu aleatoriamente, às vezes sem razão. Papai aparecia, talvez bêbado, talvez não, tirava o cinto e chicoteava Aiden até suas costas se abrir e sangrar. Eu me escondia no meu armário e me odiava a cada estalo do couro nas costas do meu irmão. Eu chorava forte o suficiente para me deixar doente, especialmente no começo. Depois de um tempo eu aprendi a me manter calma. Foi assim que dominei minhas emoções. Não que isso tenha ajudado em nada. Aiden foi chicoteado, e logo suas costas estavam cobertas de cicatrices. Eu entrava furtivamente em seu quarto e o limpava e segurei-o, mas depois das primeiras vezes ele parou de chorar. Ele parou de perguntar por quê. Eu nunca o defendi. Nem uma única vez. Eu ficava sentada naquele armário, ouvindo-o gritar de dor e desejando ser uma pessoa melhor. Que foi quando eu percebi que não era forte de forma alguma. Não, eu não era nada. Não era boa o suficiente para salvar Aiden e nem valia a pena ser chicoteada pelo papai. Se eu fosse melhor, talvez pudesse ter tirado um pouco do fardo do meu irmãozinho. Isso nunca importou. Meu quarto na casa de Nikolay parecia aquele armário. O que talvez não fosse justo — eu estava tentando fazer algo pela primeira vez na vida. Eu estava indo contra minha família, tentando obter informações quando não deveria, desesperada para tentar manter meu irmãozinho vivo por apenas mais alguns dias. E eu tinha Nikolay. Eu tinha nosso pequeno acordo. Mesmo assim, a forma como as sombras das persianas sobre as janelas me lembravam das ripas da porta do armário, e quando puxei os lençóis sobre o rosto e pensei em como seria ter minhas costas chicoteadas até ficarem em carne viva, vermelhas e sangrando, eu era aquela garotinha novamente, indefesa, patética e fraca. Eu não merecia conforto. Eu nem merecia proteção. Se não fosse por Aiden, eu poderia muito bem me entregar a quem me quisesse morta.
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