Alina
De manhã, Nikolay tinha ido embora. Verifiquei seu quarto, mas ele não estava lá. Fiz café e ovos e sentei-me em sua sala de estar, naquele espaço vazio, e me perguntei como um homem conseguia viver daquele jeito.
Com sua vida em branco, sem cor. Só servia para matar.
Ele não tinha nem um DVD, um CD, um vinil. Nenhum entretenimento. A TV dele nem tinha TV a cabo, o que era quase assustador — todo mundo tinha TV a cabo.
Até assassinos em série tinham TV a cabo.
Mas não Nikolay. A casa estava quieta, mortalmente silenciosa, pesada como uma sombra. Embora ele tenha me contado aquela história sobre como ele acabou na família Starkov, eu ainda não o conhecia — não sabia do que ele gostava, do que ele não gostava, quais eram seus filmes favoritos e o que ele gostava de beber depois de um dia difícil.
Todos tinham coisas das quais gostavam. Exceto Nikolay.
Eu desejava voltar para minha casa. Eu provavelmente iria preparar um sanduíche de queijo e talvez beber uma garrafa de vinho.
Não era muito saudável, mas eu gostava.
Eu folheei meu celular, olhando distraidamente para o i********:, para as garotas com quem estudei no ensino médio, todas elas se esforçando tanto para parecer normais e felizes com seus filtros, roupas de ginástica elegantes e grandes sorrisos em frente às cadeias de montanhas e seus bichinhos fofos, e me perguntei se algum dia eu teria algo assim.
Provavelmente não.
— Você acordou cedo.
Eu quase pulei do sofá. Virei-me e Nikolay estava no corredor, olhando para mim.
— Não consegui dormir — eu disse. — Onde você estava?
— Tive alguns assuntos para resolver para a família. — Ele caminhou pela cozinha. Levantei-me e fui atrás dele.
— Que tipo de assunto?
— Nada que lhe diga respeito. — Ele era frio e mordaz. Seu corpo estava fechado para mim e ele não me olhava nos olhos.
— O que aconteceu? — insisti.
Ele derramou um pouco de café em sua xícara, então sua respiração ficou profunda, tomou um gole e virou-se para mim. Os músculos ao longo de sua espinha flexionaram quando ele virou a cabeça para o lado e estalou o pescoço.
— Às vezes, meus problemas são apenas meus.
Soltei um suspiro agudo. O bastardo me fez ficar em sua casa, seguindo suas regras, e ele não conseguia nem ter uma conversa simples sobre o que estava fazendo. Eu não precisava de detalhes, não precisava que ele me contasse todos os seus segredos — mas minha vida estava em jogo.
Eu realmente não me importava com o que ele fazia. Eu só odiava ser tratada como se eu não importasse.
Porque uma parte sombria e terrível de mim achava que eu realmente não importava.
— Sim, certo, agora suas preocupações são apenas suas. — Me aproximei dele.
Ele se virou e tomou um gole de café antes de colocar a caneca no chão. Seus olhos estavam quase vazios, e eu senti uma rápida batida no meu peito.
— Pare de insistir, princesa. O que meus assuntos teriam haver com você?
Ele passou por mim. Olhei para ele e o segui até o corredor. Queria que ele explicasse por que estava sendo um babaca, mas ele não parecia apto para me dar nenhuma explicação, e isso só me irritou mais.
Eu me sentia presa neste lugar. Eu não queria estar aqui, não queria nada disso. Eu não tinha pedido para Nikolay poupar minha vida, e eu certamente não queria que Aiden fosse levado como refém e usado contra mim.
Eu estava impotente. Eu estava numa gaiola e não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso.
Nikolay parou no pé da escada. Ele olhou para mim e sua expressão suavizou. Eu o encarei de volta e desejei poder fazê-lo entender o quão profundamente eu estava me afogando em tudo isso.
Ele abriu sua boca para dizer algo, então parou, balançou a cabeça e subiu as escadas.
— i****a — eu disse suavemente.
Ouvi a porta do quarto dele bater .
Isso era demais. O som do couro contra a pele nua ecoou no meu cérebro, e tentei não imaginar Aiden amarrado a uma cadeira em algum porão sujo sangrando por vários ferimentos por todo o corpo.
Eu queria gritar, mas em vez disso, peguei meu telefone e saí correndo.