Alina
Dormir rapidamente, presa em algum lugar entre acordando e sonhando.
Era como se ele estivesse parado no final da minha cama, me observando a noite toda. Eu abria os olhos, mas ele já tinha ido embora.
Havia uma parte de mim que estava com medo de que ele entrasse furtivamente no meu quarto e fizesse algo terrível comigo enquanto eu dormia.
E outra parte que queria exatamente isso.
Então eu vaguei pelo quarto com ansiedade perpétua até que o sol da manhã se derramasse através das persianas. Me levantei, tomei um banho no chuveiro — ele tinha toalhas limpas no armário, o que era chocante, eu não achava que assassinos de aluguel fossem do tipo que têm toalhas extras limpas — então vesti minhas mesmas roupas.
Lá embaixo, eu fiz café, então vasculhado todas as suas gavetas.
Não era como se eu estivesse bisbilhotando — mas, ok, eu estava bisbilhotando. A cozinha dele parecia normal e estava cheia de coisas normais de cozinha, embora ele não tivesse muito comida nos armários. Eu abri o lixeiro e encontrei apenas lixo no cesto de lixo. Nada na mesa do corredor, nada no banheiro, nada embaixo da pia ou no porão, exceto por um aquecedor de água antigo e a lareira.
A casa dele era terrivelmente chata.
Não havia itens pessoais ou fotos. Eu não sabia nada sobre esse cara - de onde ele era, Quem eram seus amigos, quem os pais dele eram. Tipo, nada. Isso me deixou um pouco nervosa, e eu esperava descobrir alguma coisa olhando as coisas dele.
Como a maioria das pessoas, sua personalidade existia nos objetos com os quais se cercavam. Seu espaço de vida era um reflexo de seu cérebro, principalmente.
Exceto ele, não havia nada, apenas uma lousa em branco. Eu não sabia o que isso significava.
Sentei-me novamente à mesa da cozinha e tomei café. Ele desceu as escadas um pouco depois vestindo um short de ginástica e nada mais. Olhei para seu corpo musculoso e as tatuagens cobrindo sua pele e me perguntei o que eu fiz para merecer tudo isso.
Isto teria sido tão fácil se ele não fosse assim incrivelmente lindo.
— Bom dia? — ele perguntou, bebendo seu café e inclinando-se acima contra o ilha.
— Bom dia. — Girei meu telefone na mesa. — Tenho um turno mais tarde hoje.
— Tudo bem. E imagino que você queira passar em casa e pegar suas roupas.
— Claro que sim. — Eu não olhei nos olhos dele por um segundo. — Eu estive pensando no que aquele cara disse ontem à noite.
— Você está falando sobre o Viktor?
— Sim. Sua família vai seguir enviando pessoas para matar a minha, certo?
— Eles podem tentar. — Ele parecia quase divertido. — Embora eu duvide que muitas pessoas vão querer aceitar o trabalho depois do que aconteceu com Maxim.
— Eles ainda virão mais cedo ou mais tarde, e você estará no meio disso. — Bati meu dedo contra a caneca de café. Essa parte estava me incomodando mais. — Como você planeja lidar com isso? Quando outra pessoa vim, quero dizer.
— Eu o matarei se for preciso .
Ele disse isso como se não fosse nada demais.
Eu suspirei e inclinei minha cabeça.
— Eu não posso pedir para você matar por mim.
— Você não está pedindo. Eu não recebo ordens.
— Exceto quando o líder da sua gangue te pede para fazer isto. Tipo, eu. — Rebato, franzindo um pouco a testa.
Eu não acredito que assassino de aluguel de uma máfia pode dizer que não mata quando recebe ordens.
Esse era exatamente o seu trabalho.
Ele sorriu e tomou um gole de café.
— O quanto você sabe sobre a família Starkov?
— Não muito. Vocês são um bando de russos. Há muitos de vocês, eu acho. E tudo é administrado por um cara que vocês chamam de Pakhan.
— Pakhan é como o Don em russo. O nome do nosso líder é Mikhail, e quando eu tinha doze anos, ele salvou minha vida.
Eu me mexi na cadeira e coloquei uma perna debaixo de mim.
— O que aconteceu?
— Não é uma história legal. Ele se inclinou para mim, olhos escuros queimando em ódio. —Tem certeza de que quer ouvir? Eu não deveria te contar, eu tenho tentado esquecer tudo isso. Quando ele olhou para mim daquele jeito, eu conseguia lembrar o que ele era: um monstro, um assassino, uma fera.
— Me diga — Eu sussurrei.
— Quando eu tinha dez anos, minha mãe morreu. — Ele parou por um segundo, desviou o olhar, seu olhar se aprofundando no passado, onde eu não conseguia alcançá-lo. — As coisas estavam r**m para mim. Meu pai não era um homem legal e ele descontou sua raiva em mim. — Outra pausa. Ele fechou os olhos e os abriu novamente. — Uma tarde, eu vim da escola e encontrei a porta aberta. Meu pai estava sentado na sala de estar com um ferimento de bala no estômago. Sangue por todo lado, jorrando dele em ondas lentas, como se seu corpo fosse um mar de sangue. Ele me disse para pegar toalhas, mas eu fiquei ali, olhando para ele, até que outro homem saiu da cozinha fumando um charuto. Foi Mikhail. Ele me viu e lançou um olhar fixamente nos meus. Eu nunca vou esquecer. então atirou no rosto do meu pai. Lembro-me de gritar, arranhar Mikhail, xingá-lo, tentar matar ele, mas não conseguir. Eu acordei em uma sala de uma
casa abandonada, e desde então sou tutelado pela família Starkov.
Ele parou de falar, e eu deixei o horror daquele momento penetrar.
Ele era apenas uma criança, um garotinho ainda. Sua mãe se foi, e então ele teve que assistir seu pai ser assassinado na sua frente. Eu não conseguia nem começar a imaginar o que isso fazia com uma pessoa.
Ficar sozinho morando com o homem que puxou o gatilho.
Não é de se espantar que ele estivesse tão quebrado por dentro. Não é de se espantar que quando ele olhou para mim, era como um vazio imenso vindo daqueles lindos olhos.
Havia versões dessa história na família Petrov. Havia primos que achavam que Cormac era algo próximo do próprio Jesus. Todos eles ansiavam por sua atenção e sua aprovação, e ele era mesquinho com ela, provavelmente para mantê-los viciados na droga de sua lealdade e respeito.
O jovem Nikolay deve ter sido assim: viciado naquele sentimento de ser especial e fazer parte de algo.
Só que nenhum deles era bom.
A coisa toda foi uma fraude.
Eu percebi isso quando era uma garotinha. As famílias acolhiam esses homens jovens e problemáticos. Isso lhes dava uma saída para sua raiva e agressão, pagava-os muito bem, cuidava deles de muitas maneiras, mas também os jogava em um mundo de perigo, violência e morte.
Eu vi com meus próprios olhos o que minha família realmente pensava de seus filhos. O som de um cinto contra a pele nua ecoou na minha mente. Os gritos do meu irmão enquanto ele lutava no quarto dos fundos.
Minhas lágrimas desamparadas enquanto eu me escondia no meu guarda roupa.
O jovem Nikolay poderia não ter se tornado um assassino profissional se Mikhail não tivesse aparecido naquele dia.
Ele teria ficado marcado. Arruinado, até. Talvez morto. Mas ele não iria ser o homem sentado perto de mim agora.
Cansado, obscuro e feito em pedaços.
— Obrigado por compartilhar isso comigo — eu disse suavemente. — Eu estava sentada aqui me perguntando quem diabos você era.
— Eu não sou ninguém — ele disse e colocou seu café na mesa. — Eu sou um cara como qualquer outro lutando nessas ruas.
— Mas nenhum deles é assassino como você.
— Não, não são. — Ele me observou cuidadosamente, e parecia que seus olhos me abriram e olharam fundo no meu âmago. — Vou vestir uma camisa e depois vamos para sua casa.
— Certo, sim. Vá colocar uma camisa.
— A menos que você prefira que eu não faça isso.
— Acho que estou bem.
Ele sorriu firmemente e desapareceu no andar de cima. Eu o observei ir, ainda tentando digerir aquela história.
Ninguém vê seu pai ser assassinado aos doze anos e consegue sair ileso. Ninguém cresce em uma máfia em volta dos homens que destruíram seu mundo e ainda consegue se manter inteiro.
E ainda assim ele conseguiu sobreviver.
Quando eu tinha doze anos, eu só me importava com as bandas de rapazes e aprender a usar maquiagem.
Ele estava ocupado aprendendo a matar.
Eu não conseguia imaginar como deve ter sido a vida dele depois disso. Toda a sua existência foi dedicada àquela família — e ainda assim ele foi contra eles para salvar minha vida.
Ele até assassinou um dos seus.
Isso é algo difícil de se digerir.