A manhã começou como qualquer outra na cafeteria. O cheiro de café recém-moído, o som das xícaras se tocando e a campainha da porta marcando a entrada dos primeiros clientes.
Ana tentava manter o foco no trabalho, mas a sensação de estar sendo observada não saía de sua mente. Desde que o nome dela começara a circular na mídia, cada cliente novo parecia um curioso disfarçado.
Perto do meio-dia, o gerente, Sr. Renato, entrou pela porta com expressão séria. Ele raramente aparecia durante o expediente, preferindo ficar no escritório administrativo a alguns quarteirões dali. Ao vê-lo, Ana sorriu educadamente, mas o sorriso não foi retribuído.
— Ana, pode vir comigo um minuto? — disse, a voz baixa e seca.
Ela o seguiu até o pequeno escritório nos fundos. Quando a porta se fechou, o silêncio ficou pesado.
— Recebi uma ligação hoje cedo — ele começou, evitando o olhar dela. — Uma… pessoa importante. Muito importante.
— E? — Ana perguntou, o estômago já apertando.
— Ela… disse que a presença de certos funcionários aqui pode prejudicar a imagem do café. — Ele engoliu seco. — Usou exatamente essa expressão.
Ana sentiu o sangue sumir do rosto.
— Foi a mãe dele, não foi? — perguntou, sem precisar de confirmação.
O gerente suspirou, como se quisesse evitar a resposta.
— Ana, você sabe que eu gosto muito do seu trabalho. Mas essa mulher… ela é influente demais. Fornecedores, parcerias, até licenças. Ela deixou claro que, se você continuar aqui, as coisas vão ficar… complicadas.
— Está me demitindo? — a voz dela saiu baixa, mas carregada de incredulidade.
— Não tenho escolha. — Ele passou um envelope pela mesa. — Dois meses de salário adiantado. É o máximo que pude fazer.
Ana pegou o envelope, mas não olhou para dentro. Segurou firme, como se aquilo fosse a última prova de que ainda tinha algum controle sobre sua própria vida.
— Entendi — disse, levantando-se. — Obrigada por… tudo.
Saiu do escritório com passos firmes, mesmo sentindo as pernas tremerem. Alguns colegas olharam com pena, outros fingiram não perceber. Ela não se despediu de ninguém. Apenas tirou o avental, deixou-o sobre o balcão e atravessou a porta.
Do lado de fora, a cidade seguia indiferente. Ana andou sem rumo, tentando ignorar o nó na garganta.
O celular vibrou. Mensagem de Miguel:
"Posso passar aí?"
Ela digitou devagar:
"Não. Não quero que você me veja assim."
Mas a verdade é que o que ela não queria era que ele percebesse o tamanho da guerra que Helena estava disposta a travar.
E, a poucos quarteirões dali, dentro de um carro preto, Helena observava pela janela fumê, um sorriso frio se formando nos lábios.
Mais um movimento no tabuleiro.