Ana estava sentada sozinha no canto da cafeteria, o avental ainda amarrado na cintura, mas sem clientes para atender. A xícara de café diante dela já estava fria. Desde a saída de Helena, o lugar parecia diferente. As paredes familiares agora carregavam um peso que ela não queria sentir.
O tilintar da campainha da porta soou, e o coração dela se acelerou.
Miguel entrou. Terno aberto, gravata frouxa, expressão carregada. O olhar dele a encontrou no mesmo instante.
— Precisamos conversar — disse, indo direto até ela.
— Não acho que seja uma boa ideia — Ana respondeu, tentando evitar que a voz tremesse. — A sua mãe deixou bem claro o que pensa sobre mim.
Miguel puxou a cadeira à frente dela e se sentou.
— Eu sei o que ela fez. E já falei com ela.
— E resolveu? — Ana perguntou, amarga. — Ela vai desistir?
— Não. — Ele foi honesto. — Mas isso não muda nada entre nós.
Ana riu, sem humor. — Não muda? Miguel, você não tem ideia do que ela é capaz. Eu vi nos olhos dela… se eu continuar, ela vai destruir a minha vida.
Ele inclinou-se para a frente, apoiando as mãos sobre as dela.
— Então vamos enfrentar juntos.
— E se eu não quiser lutar? — Ana o encarou, a voz mais baixa. — E se eu só quiser a minha vida de volta? Simples, tranquila, sem manchetes, sem câmeras na porta.
— Você quer mesmo isso? — Miguel perguntou, buscando o olhar dela. — Ou está com medo?
O silêncio que se seguiu foi denso. Ana desviou o olhar para a xícara fria, mas não respondeu. O coração dela estava em guerra: entre a segurança que conhecia e o desejo que não conseguia negar.
Miguel suspirou, e a voz dele veio mais suave.
— Eu não vou te obrigar a nada. Mas eu preciso que saiba… desde que você entrou na minha vida, eu não consigo imaginar seguir o caminho que minha mãe quer.
Ana fechou os olhos por um instante, tentando acalmar a mente. Quando voltou a encará-lo, havia uma decisão ali, mesmo que ela ainda não soubesse o tamanho das consequências.
— Então, se é pra fazer isso… vai ter que prometer que não vai soltar a minha mão.
Ele apertou os dedos dela, firme.
— Nunca.
A campainha da porta soou de novo, trazendo clientes, barulho e o mundo real de volta. Mas, por um instante, Ana e Miguel permaneceram imóveis, como se aquele momento fosse um pacto silencioso.
Do lado de fora, a cidade seguia com seus segredos e ameaças.
Dentro do café, um acordo ainda mais poderoso havia sido selado.