Capítulo 8 — Entre o Medo e o Desejo

448 Words
Ana estava sentada sozinha no canto da cafeteria, o avental ainda amarrado na cintura, mas sem clientes para atender. A xícara de café diante dela já estava fria. Desde a saída de Helena, o lugar parecia diferente. As paredes familiares agora carregavam um peso que ela não queria sentir. O tilintar da campainha da porta soou, e o coração dela se acelerou. Miguel entrou. Terno aberto, gravata frouxa, expressão carregada. O olhar dele a encontrou no mesmo instante. — Precisamos conversar — disse, indo direto até ela. — Não acho que seja uma boa ideia — Ana respondeu, tentando evitar que a voz tremesse. — A sua mãe deixou bem claro o que pensa sobre mim. Miguel puxou a cadeira à frente dela e se sentou. — Eu sei o que ela fez. E já falei com ela. — E resolveu? — Ana perguntou, amarga. — Ela vai desistir? — Não. — Ele foi honesto. — Mas isso não muda nada entre nós. Ana riu, sem humor. — Não muda? Miguel, você não tem ideia do que ela é capaz. Eu vi nos olhos dela… se eu continuar, ela vai destruir a minha vida. Ele inclinou-se para a frente, apoiando as mãos sobre as dela. — Então vamos enfrentar juntos. — E se eu não quiser lutar? — Ana o encarou, a voz mais baixa. — E se eu só quiser a minha vida de volta? Simples, tranquila, sem manchetes, sem câmeras na porta. — Você quer mesmo isso? — Miguel perguntou, buscando o olhar dela. — Ou está com medo? O silêncio que se seguiu foi denso. Ana desviou o olhar para a xícara fria, mas não respondeu. O coração dela estava em guerra: entre a segurança que conhecia e o desejo que não conseguia negar. Miguel suspirou, e a voz dele veio mais suave. — Eu não vou te obrigar a nada. Mas eu preciso que saiba… desde que você entrou na minha vida, eu não consigo imaginar seguir o caminho que minha mãe quer. Ana fechou os olhos por um instante, tentando acalmar a mente. Quando voltou a encará-lo, havia uma decisão ali, mesmo que ela ainda não soubesse o tamanho das consequências. — Então, se é pra fazer isso… vai ter que prometer que não vai soltar a minha mão. Ele apertou os dedos dela, firme. — Nunca. A campainha da porta soou de novo, trazendo clientes, barulho e o mundo real de volta. Mas, por um instante, Ana e Miguel permaneceram imóveis, como se aquele momento fosse um pacto silencioso. Do lado de fora, a cidade seguia com seus segredos e ameaças. Dentro do café, um acordo ainda mais poderoso havia sido selado.
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