Capítulo 6 — O Preço do Silêncio

454 Words
Ana estava no balcão, limpando as xícaras da manhã, quando a porta da cafeteria se abriu com um tilintar quase discreto. Mas não foi um cliente comum que entrou. Helena Castro. Terno impecável, salto que não fazia barulho, perfume caro que parecia dominar o ar. Não havia pressa em seus passos, apenas a segurança calculada de quem sabia que todos iriam reparar. — Você é Ana Clara? — perguntou, aproximando-se do balcão como se estivesse diante de uma peça que avaliaria antes de comprar. — Sou. E a senhora é…? — Ana manteve o tom educado, mas a tensão se instalou no corpo. — Helena Castro. — O sobrenome caiu pesado, como uma sentença. — A mãe de Miguel. Por um instante, o ar pareceu rarefeito. Ana tentou manter o olhar firme. — Posso ajudar em algo? Helena pousou a bolsa sobre o balcão, sem se sentar. — Não vou me alongar. Sei que você e o meu filho passaram a noite juntos. Ana sentiu o rosto esquentar, mas não desviou. — Não vejo como isso seja assunto da senhora. — É exatamente o meu assunto. — O tom era calmo, cortante. — Miguel está de casamento marcado com a filha de um dos meus maiores aliados. E você… — Helena deu uma breve olhada no avental de Ana — não faz parte desse mundo. — Não estou tentando fazer parte de nenhum mundo que não seja o meu. Helena inclinou a cabeça, como quem observa um inseto interessante. — Então talvez possamos resolver isso de forma prática. — Abriu a bolsa e tirou um cheque. — Diga quanto quer para deixar meu filho em paz. Ana respirou fundo, olhando para o pedaço de papel como se fosse um insulto materializado. — A senhora acha mesmo que pode comprar tudo? — Eu sei que posso — Helena respondeu, sem hesitar. — A questão é se você é inteligente o suficiente para aceitar. Por um segundo, o silêncio reinou. O barista do outro lado fingia não ouvir, clientes olhavam discretamente, como se sentissem que havia algo grande acontecendo. Ana empurrou o cheque de volta. — O que eu tenho com Miguel não está à venda. Os olhos de Helena endureceram. — Então está escolhendo o caminho mais difícil. E acredite… eu sei como torná-lo insuportável. Ela guardou o cheque, pegou a bolsa e se virou para sair, mas antes de alcançar a porta, olhou por cima do ombro: — Isso é um aviso, Ana. Não teste a minha determinação. O tilintar da campainha anunciou a saída dela. E, por alguns segundos, Ana permaneceu imóvel, sentindo o peso daquela ameaça pairar no ar. Sabia que Helena não estava blefando. E que aquela guerra acabara de começar.
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