Miguel chegou ao apartamento de Ana no fim da tarde, levando uma sacola com o jantar preferido dela. Bateu na porta, como sempre, mas não houve resposta. Estranhou. Ligou para o celular dela — chamava até cair na caixa postal.
— Ana? É o Miguel. Me liga quando ouvir isso.
Esperou alguns minutos antes de bater de novo, mais forte. Ainda nada. Ao tentar a maçaneta, encontrou a porta trancada, mas percebeu algo estranho: por baixo, nenhuma sombra indicava movimento dentro.
Preocupado, foi até o zelador.
— A moradora do 302 saiu hoje?
O homem coçou a cabeça. — Na verdade… saiu cedo, com duas malas grandes. Não disse para onde ia. Pediu para encerrar o contrato do aluguel e deixou as chaves comigo.
A informação caiu sobre Miguel como um soco no estômago.
— Ela não falou nada? Nem uma pista?
— Só disse que era uma mudança urgente.
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De volta ao carro, Miguel começou a ligar para todos os conhecidos em comum. Nenhum sabia de nada. Ninguém tinha visto ou falado com Ana desde a manhã. Era como se tivesse desaparecido do mapa.
Chegou a considerar ir à polícia, mas sabia que, tecnicamente, ela não estava desaparecida contra a vontade — pelo menos, não oficialmente.
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À noite, foi até a casa da mãe. Helena o recebeu na sala, impecável como sempre, uma taça de vinho na mão.
— Você está pálido — comentou. — Aconteceu alguma coisa?
— Ana sumiu — disse ele, sem rodeios. — Pegou as coisas e foi embora. Não deixou nenhuma explicação.
Helena franziu a testa, fingindo surpresa.
— Que estranho… talvez tenha se cansado de toda essa pressão. Essas garotas não aguentam o peso da vida real.
— Não — Miguel retrucou, com firmeza. — Não é isso. Ela não faria isso comigo sem motivo.
Helena pousou a taça na mesa, aproximando-se para colocar uma mão no ombro dele.
— Filho, às vezes as pessoas simplesmente não são quem pensamos. Talvez seja melhor assim.
Miguel a encarou por alguns segundos, tentando decifrar se havia algo por trás daquela serenidade. Mas, no fim, apenas saiu, deixando Helena sozinha.
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Assim que a porta se fechou, Helena voltou para a poltrona, retomando a taça de vinho. O reflexo no cristal mostrava um sorriso contido, satisfeito.
Ana já estava longe.
Miguel, perdido.
E ela, no controle absoluto.