Isabela acordou antes do amanhecer.
Vestiu um conjunto de treino impecável, prendeu o cabelo em um coque alto e desceu para a cozinha do novo apartamento.
Não era por ansiedade… era por estratégia. Cada minuto contava.
Ligou para o número que havia memorizado semanas atrás.
— Está tudo confirmado para hoje? — perguntou, a voz controlada.
— Sim, senhora. Os exames e os papéis estarão prontos antes do horário marcado — respondeu o homem do outro lado.
Isabela sorriu.
— Ótimo. E lembre-se: isso precisa parecer legítimo para qualquer um, inclusive para a mãe dele.
O segredo queimava como fogo em sua consciência, mas ela o mantinha sob controle. Helena acreditava que aquele bebê viria da inseminação com Miguel. Miguel acreditava que ainda havia tempo. Só ela sabia que já carregava uma vida — e que não pertencia a ele.
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Enquanto isso, na zona mais nobre de São Paulo, Ana observava a fachada envidraçada de sua nova cafeteria.
O letreiro dourado refletia a luz da manhã, e o aroma do café gourmet se espalhava pela rua.
— Está perfeito — disse, emocionada, para a equipe.
A inauguração havia atraído jornalistas de gastronomia e influenciadores locais.
As mesas eram de mármore claro, as cadeiras estofadas em veludo, e cada detalhe — das flores frescas à louça importada — havia sido pensado para transmitir sofisticação.
— Parabéns, dona Ana, está um sonho — disse um cliente, ao provar o primeiro espresso.
Ela sorriu.
— É só o começo.
O endereço, ironicamente, ficava a menos de cinco minutos da sede da Castro Group. Ela não sabia, mas seu sucesso estava prestes a cruzar com um passado que acreditava ter deixado para trás.
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À tarde, Isabela encontrou Miguel na sala.
— Está pronto? — perguntou, com um brilho calculado nos olhos.
— Eu já disse que quero esperar — respondeu ele, frio. — E minha mãe já escolheu a clínica.
Ela apenas caminhou até a bolsa e tirou o contrato, virando-o para ele.
— Cláusula setenta e quatro, parágrafo final. Em letras miúdas.
Miguel leu, sentindo o sangue subir.
— Isso é uma armadilha.
— Não, querido. Isso é estratégia. Amanhã, nove da manhã.
E, sem esperar resposta, saiu da sala com um sorriso vitorioso.
No celular, uma mensagem piscava: "Todos os exames falsos estão prontos. Apenas mantenha ele afastado do médico principal."
Isabela sabia: precisava garantir que ninguém — nem Miguel, nem Helena — descobrisse que o bebê que todos esperavam fosse, na verdade, filho de outro homem.