CAPÍTULO 4

2681 Words
Harry P.O.V. Pássaros cantando. Luzes ofuscantes e, ao mesmo tempo, naturais, vindas de algum lugar muito próximo. Cheiro de ar fresco depois da chuva, um aroma comum e conhecido. Rosas e ar puro. Conforme meus sentidos começavam a reconhecer os cheiros, ruídos e cores, mais latejante minha cabeça se tornava. Abri meus olhos. Bom dia, realidade. Aquela realidade rotineira; apenas mais um dia, uma etapa de vinte e quatro horas e três períodos, que basicamente consiste em acordar e jogar tudo pelos ares, sentindo a vida fluir sem controle algum enquanto eu a desordeno a cada dia mais. Repetia aquilo sempre ao abrir meus olhos e sentir a luz do sol me cegar. Era como um auto estímulo diário. Nessa manhã, depois do meu tal auto estímulo diário, apalpei o lado esquerdo da cama — algo quase automático da minha parte, já que eu sempre tinha alguma companhia desconhecida no dia sucessor a alguma noitada — , e então, quando meus dedos sentiram nada mais que o lençol e o colchão, suspirei aliviado por não ter de expulsar mais um indesejável da minha magnifica residência. Ou pedir para que Liam fizesse esse trabalho, mas com uma dose maior de educação se comparada à quase inexistente que eu usaria. Oito e meia da manhã. E minha cabeça dói. Eu realmente deveria ignorar toda aquela merda de auto estímulo, dormir por mais alguns minutos, horas... Quem sabe? Mas não. Podia ser apenas mais um dia, mas estava lotado de coisas; reunião marcada para fazer os acertos finais da nova emboscada comercial na França, almoço com os senhores da Lei, para assim fazê-los ganhar uma graninha extra por encobrirem a minha máfia regularmente, e, bem... Talvez matar alguns. Quando ouvi o toque do despertador repetir-se pela segunda vez, eu finalmente empurrei o edredom para longe e senti a corrente de ar frio percorrer meu corpo nu. p***a. Além de algo mais... Maldita ereção matinal. Justo quando eu havia decidido não trazer companhia para o meu amiguinho agitado. Mesmo eu sabendo o motivo de tal agitação; seu nome e sobrenome. Assim como seu sotaque rude, uma confusão de inglês com francês, que apenas em imaginação já me deixava louco. Insano. Sem deixar que minha imaginação me levasse para um rumo muito além do necessário, fechei meus olhos e corri para o banheiro, apanhando um frasco de pílulas que Niall havia recomendado para amenizar a ressaca. Entrei no chuveiro de água fria e contei até três, ciente de que usar minhas mãos seria uma covardia, mas por fim usando-as e me culpando por imaginar ele. Até porque, aquele corpinho pequeno e cheio de um ar poderoso ocupava minha mente há menos de cinco horas, e ainda por cima permaneceu ali durante o meu sono, e agora durante a minha manhã. Merda, nem um beijo eu havia conseguido. A tentação já me parecia indomável. Com a água fria caindo em meu corpo quente, decidi que seria melhor parar de falar comigo mesmo, fantasiando o meu doce diabinho francês, e simplesmente vesti minha cueca. Sem tempo para reorganizar as ideias, muito menos os meus cachos rebeldes pós-sono. Saindo do quarto e em direção à cozinha, deparei-me com um bule de café já me esperando, e três rostos familiares, felizes demais para quem acorda cedo em plena sexta-feira, encarando-me com as bocas sujas de achocolatado. Em cada um deles, um sorriso perturbador para o meu mau humor matinal, que, por sinal, dizia: "Se eu não estou de bom humor, ninguém mais tem o direito de estar". Egoísmo é a minha maior dádiva, acredite. — Hoje acordou um tanto animado, não é, Harry? — Zayn disse naquele tom desafiador que apenas ele ousava usar comigo. Era reconhecível o sarcasmo em suas palavras. Era um filho da p**a. Zayn era como um teste de paciência que eu tinha de enfrentar diariamente. Ele gostava de me desafiar e sempre impor novos obstáculos para o meu humor alcançar, realmente curioso até onde eu iria antes de começar a gritar e ser tão filho da p**a quanto ele. — A sua grande sorte se chama mantra de auto estímulo diário de Harry Styles. Ou você já poderia se considerar um homem morto. — Adverti divertido, enquanto Zayn jogava suas mãos para cima, em rendição, notavelmente e como sempre testando a minha paciência, mas logo parando quando foi repreendido por Liam. Doce Liam. — Obrigado, Lee. Dando de ombros, abri a geladeira e dei uma rápida perpassada com os olhos, até encontrar uma garrafa de energético pela metade, depois despejando o líquido na xícara de café. Encarei o amarelo do energético se misturar com o n***o do café ainda aquecido, a ponto de queimar a ponta do meu indicador quando decidi segurar a xícara sem o mínimo de consciência no momento. — p***a! — Resmunguei, sentindo o meu dedo palpitar com a dor. — p***a digo eu. Maluco s*******o! Oito horas da manhã e você misturando energético com café. Isso não resolve ressaca, achei que Niall tivesse te avisado sobre. — Era a voz protetora de Liam. Ele tirou a xícara de minhas mãos e despejou toda a bebida na pia. Como eu odiava quando ele tomava decisões por mim, não importando se fosse com algo tão fútil como uma xícara de café e energético misturados. E como eu era grato por ele, ao mesmo tempo, por ser o meu fiel protetor e um maldito exemplo de como ser "o durão" e ainda assim saber se cuidar. Desde pequenos, quando eu ainda era apenas um peixinho aprendendo a nadar contra a maré, Liam era quem me guiava para isso. — E as pílulas que eu deixei no seu banheiro, Harold? — Disse Niall, com as mãos ocupadas demais pelo controle do vídeo game. — Ah é, você estava ocupado demais pensando no seu diabinho francês enquanto batia uma no banho. — Niall gargalhou, jogando a cabeça pra trás e rindo ainda mais quando Zayn se juntou a ele e ambos fizeram um high five. — Hoje os palhaços estão inspirados. — Revirei os olhos e voltei minha atenção para a nova xícara de café que Liam preparava enquanto resmungava para Zayn e Niall. Por um curto espaço de tempo, eu realmente senti minhas bochechas queimarem em constrangimento ao saber que eu havia, de fato, gemido o nome dele enquanto me masturbava. Talvez tenha sido algo vindo do instinto, mas também não passava de um desejo reprimido, pelo menos por agora, já que ainda não tinha conseguido tê-lo. Ainda. Num piscar de olhos, minha xícara de café já estava vazia. E lá estava o pobre eu, perdido em meus próprios devaneios, concentrado na noite anterior, quando, ainda em meu carro, sua respiração se tornou tão mais quente contra a minha pele, e aquele choque elétrico de dois corpos, quando se atraem, praticamente rasgava todo o meu interior. Sua boca parecia tão morna quando eu tentei tocá-la, ao mesmo tempo que gelou instantaneamente quando, por algum motivo, parou o que estava fazendo — ou prestes a fazer —, e, simplesmente, saiu do carro. Sumiu pelo horizonte, me deixando a certeza de que era a primeira vez que eu desejava tanto alguém sem ao menos um mísero contato carnal. — Droga. — Murmurei mais para mim mesmo, ou aquilo era mais como um choramingo. Puxei meu cabelo todo para trás e segurei-o por um bom tempo ali. Quando levantei o olhar para o ambiente ao redor, os três garotos me encaravam com as sobrancelhas arqueadas. Eles sabiam quando eu pensava muito, e também quando eu pensava miseravelmente pouco. — Conhecem algum Louis Tomlinson? — Francês? — Niall perguntou num tom mais parecido com uma dedução de quem pudesse ser. Os outros apenas observavam tudo com curiosidade, principalmente Zayn que, assim como eu, babava na rapidez com que Niall conseguia ligar as coisas. Ele era meu fiel portal de informações, ou google, chame como quiser. Niall memorizava e parecia até que computava cada informação de qualquer um que cruzasse nosso caminho. Era, de longe, o ser-humano mais inteligente e esperto que já conheci. Se não fosse um dos meus, eu diria que seria um belo investigador. — O homem que estava com você não parecia ser francês... Mas, bem, nunca ouvi falar. Sem falar que franceses são terrivelmente perigosos. Eles te conquistam pelo sexo! Confie em mim. — Simplesmente deu de ombros, voltando a atenção para a tela da TV, e atraindo Zayn, que continuou com o jogo. Franceses são perigosos... Louis não parecia nem um pouco perigoso com aquele olhar que eu estranhamente comparei ao de um felino. Azuis num instante, e depois num tom esverdeado até chegar ao cinza. Era tão instigante olhar no fundo de seus olhos, e apenas descobrir o quão indefeso ele se sentia estando perto de um monstro como eu. Eu precisava encontrar aquele garoto de alguma forma, para enfim saciar aquela minha sede tão doentia. Eu precisava ouvir a sua voz e tê-lo, assim como sempre tive todos aqueles que eu desejei, e, puff, em questão de segundos, já estavam caídos pelos meus encantos. Ou eu precisava apenas de um ar fresco; esperar que ele mesmo viesse atrás de mim, já que não era o meu tipo correr atrás de alguém. Isso. Um ar fresco. — Nunca senti minha b***a tão murcha. Vou fazer musculação. — Avisei, empinando os glúteos na direção de Zayn, apenas para irritá-lo um pouquinho mais. Nunca era o suficiente. — Ah, e não se esqueçam de conferir o dinheiro da mary jane da semana passada. Esses vagabundos de rua estão cada vez piores. Não seria novidade se estivessem tentando bancar os espertos pra cima do meu cadáver. — Pode deixar, Styles. Contaremos cada centavo. — Disse Niall, entediado, sem tirar os olhos da TV. — Hum... E você ainda está de cueca. — Jura? — Olhei de soslaio para as minhas pernas expostas e mexi na barra da cueca, provocante, ameaçando tirá-la enquanto Zayn tampava os olhos de Liam e os seus, e Niall apenas emitia um som estrangulado, mais como um grito de desespero misturado com o som de alguém vomitando horrores. Eram mesmo uns imbecis, afinal. Antes que alguém realmente vomitasse ou Liam começasse a dar seu sermão referente à privacidade pessoal e corporal de cada um de nós, simplesmente saí em direção ao quarto no final do corredor, pegando alguns documentos da escrivaninha pelo caminho. Mil contas a pagar quando, na verdade, eram sempre eles quem deviam grana ao papai aqui. Depois de revirar os olhos, joguei todas pela janela e apenas tive tempo de ouvi-las atingirem o gramado do térreo. Hoje seria um grande dia.  Louis Tomlinson P.O.V. Na última noite de quinta feira, dezenove/dezembro, Sheffield; recebi a amistosa presença de Harry Styles em uma das casas noturnas do bairro central da conturbada cidade, com outros três garotos — aparentemente, seguranças. Os tais eram jovens e vestiam-se casualmente, assim como Harry Styles. A casa noturna era claramente ilegal. Assim que estiveram cientes da minha identidade, sua segurança logo me impediu de aproximar-me do local. Harry Styles, enquanto isso, analisava uma aparente joia falsa. Tal joia vendida por um sujeito alto e de cabelos negros, também traficante, que se identifica como Nickolas Grimshaw. Harry Styles, a todo momento, mostrou-se agressivo, de comportamento extremamente confuso e bipolar; ora controlado, ora incontrolável. Ele é inteligente e ágil no que faz, e isso eu pude perceber quando o gângster atingiu e quase matou o tal traficante, Grimshaw, pelo mesmo ter o enganado. Aliás, ele não gosta de ser feito de bobo, demonstrando um prazer peculiar em ser observado enquanto executa suas vítimas. Com toda certeza, Harry Styles ainda é um mar profundo a ser explorado. Existe muita obscuridade em toda a sua máfia, e de tal obscuridade eu só poderei saber em questão de tempo. Porém, ele já mordeu a isca. Basta tempo, e eu voltarei com novas informações. Encarei a tela do velho notebook por apenas mais alguns minutos, antes de clicar em "enviar" e aguardar até que pudesse desligá-lo e voltar ao que antes fazia. Meu chá já estava frio e toda a sua essência havia se perdido por todo aquele tempo em que meus dedos trabalhavam no meu primeiro relatório. Era o único na pequena lanchonete de esquina, em plena manhã fria de um típico dezembro, ainda assim bocejando por minhas poucas quatro horas de sono. A garçonete loira, e com surpreendentes olheiras ainda mais fundas que as minhas, ainda me encarava descaradamente enquanto mordia a ponta da caneta. E então, eu só podia fingir ser um velho resmungão que estava ali apenas para assistir ao jornal matutino na pequena televisão em preto e branco do recinto. Tomar um cházinho antes de ouvir a previsão do tempo ou tirar um dominó dos bolsos, e então chamar a menina para me fazer companhia e jogar uma partida comigo. Mas p***a. Eu realmente sou gay. — A conta, por favor. — Pedi, por fim vendo a garota sair de seu transe e finalmente pegar meu dinheiro, sumindo de vista ao que entrou atrás do balcão e eu saí porta afora. Não pude evitar encolher meu corpo. A corrente de ar frio atingiu-me quase como se eu tivesse encostado o dedo numa tomada e levado um choque, assim que dei de cara com a rua deserta. Apesar do frio, o sol estava presente, lindo e radiante, refletindo nas grandes e vistosas casas vitorianas por toda a região. Mas o que mais me impressionava era o fato de Sheffield ser tão movimentada ao anoitecer, e, ao amanhecer, tão monótona. Talvez eu fosse o único caminhando lentamente pelas ruas desertas, com uma pasta e um notebook entre os braços, meus pés ecoando o barulho dos sapatos conforme eu andava. Não podia negar que era reconfortante ser apenas eu, e, claro, alguns carros ali, outros carros lá... Até eu avistar um em especial. Meus pés automaticamente frearam; um sorriso satisfeito surgiu em meus lábios. Um Chevy Malibu creme estava estacionado em frente a uma academia aparentemente tão calma quanto a cidade em si, considerando-se que o Malibu era o único ali. Eu lembrava bem daquele carro. Só de olhá-lo, praticamente um filme inteiro se passava em minha mente. Desde a proximidade dos nossos corpos, tão perigosa, mas que, mesmo assim, eu consegui resistir... Doce coincidência. Sem pensar muito, entrei no local escondendo as pastas entre a capa protetora do notebook, no mesmo momento em que a moça atrás do balcão me olhou com as sobrancelhas arqueadas, obviamente perguntando-se sobre o que um cara com terno e sapatos sociais estaria fazendo numa academia. Resolvi agir casualmente, simplesmente oferecendo um sorriso à mulher e pegando uma ficha de pacote para vinte minutos de exercícios, sem personal trainer ou algo assim. Até porque, éramos apenas eu e o senhor Styles dali em diante. Gastaria trinta euros para vinte minutos que eu certamente não usaria fazendo exercícios. Mas era fato que reencontrá-lo seria bem mais divertido. Supus que ele acharia estranho me ver de forma tão repentina, coincidentemente na mesma academia que ele frequentava, e no mesmo horário, usando roupas de pinguim. Talvez ele até pudesse achar que eu estava o seguindo. Mas f**a-se. Eu bancaria o homem francês perdidamente atraído por um homem sanguinário, além de muito interessado em fazer parte de suas falcatruas, o qual procurava por uma diversão após horas de tensão s****l na noite anterior, e, enfim, por mero acaso, o encontrara. Enquanto isso, em um canto afastado do balcão, suspiros ofegantes denunciavam alguém levantando pesos numa velocidade quase doentia... Ora, só podia ser ele. As costas descobertas mostrando partes de uma pele de tonalidade clara (as partes onde as tatuagens não cobriam), onde as gotas de suor desciam lentamente, da dorsal à lombar, acompanhando cada traço das suas infinitas tatuagens, de modo que eu já pudesse imaginar por onde aquelas pequenas gotículas parariam e por onde tudo aquilo levaria a minha sanidade. Eu m*l podia raciocinar direito. Era quase como uma escultura humana em frente a mim. Repentinamente, o calor tomou conta do meu corpo, que antes quase entrava em estado gélido pelo frio. Quando me vi, já estava tirando o terno preto e colocando-o em um dos banquinhos em frente a uma esteira qualquer e mais próxima. Apenas de camisa social, com as mangas puxadas até o cotovelo, e sabendo que naquele exato instante eu era o homem mais fodidamente gostoso daquele lugar, simplesmente me sentei de frente a ele, ao mesmo tempo em que seus ofegos se cessaram; um sorriso presunçoso surgiu em seus lábios. — Bonjour, Sr. Styles.
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