CAPÍTULO 4
Alice Narrando
Os gritos enquanto pessoas eram jogadas na piscina – tornava tudo quase teatral, era como assistir a um bando de adolescentes criando seu próprio filme da Disney. Chato e entediante, mas ainda assim? Era melhor do que a minha realidade.
Todas aquelas pessoas estavam ali por Tracy. Todas tinham pais dispostos a pagar por toda e qualquer bagunça que elas causassem, era tão bobo que chegava a beirar o irreal.
— Bola de canhão! — Um dos amigos de Tracy gritou e pulou na piscina, fazendo que a água jorrasse para todos os lados.
Eu sorri, um sorriso de pura satisfação enquanto me deitava em uma das cadeiras da piscina. Era em momentos como aqueles que eu me sentia viva, que me sentia feliz por não precisar fazer nada além de relaxar, mas principalmente, me sentia feliz por não conhecer uma única pessoa presente naquele lugar.
Desconhecidos.
Completos desconhecidos que não davam a mínima para nada além de seus próprios umbigos.
Garotinhas carentes por atenção, adolescentes de 17-19 anos, entupindo seus corpos com bebidas enquanto riam e tentavam desesperadamente — parecerem legais.
Eu me surpreenderia por Tracy ainda se envolver com pessoas como aquelas, mas a verdade era que aquele era o seu círculo social e que embora tivessem alguns aninhos de diferença, Tracy era como eles. Mimada, inconformada e claro: desesperada por atenção, principalmente quando se tratava da atenção de seu pai.
“Não é um problema seu,” eu disse a mim mesma enquanto fechava meus olhos e tentava relaxar. Era meu momento, minhas tão esperadas férias.
— Alice!! — Tracy gritou meu nome enquanto corria em minha direção. Os olhos castanhos brilhavam com a empolgação e claro, álcool. — Levante! Vem dançar comigo! Tem um monte de gatinhos nessa festa, não se isole!
Eu sorri, um sorriso quase verdadeiro.
— Tracy, eu realmente não quero conhecer nenhum gatinho. — Falei fechando meus olhos brevemente e a mão dela me puxou pelo ombro.
— Não seja assim, Ali! Você não pode se isolar para sempre! Não pode ser assim! O Tony te trair não foi o fim do mundo! Reaja! Vamos! Se divirta, encontre alguém que vale a pena! — Ela dizia e só de pensar em me levantar, eu queria morrer.
Tudo que eu queria era descansar, aproveitar e simplesmente curtir aquele final de tarde e noite. Queria beber algumas margaridas, ouvir a música de fundo, aproveitar a sensação de liberdade que raramente me era permitido ter.
— Tracy...
— Alice, não comece! — Ela me interrompeu, — ao menos tente! Eu realmente quero te ver feliz! Você tem que superar aquele traíra, ele não merece que você continue...
— Eu não preciso de outra pessoa! — Falei começando a me irritar.
Era impossível que Tracy não entendesse o básico. Era ridículo que não conseguisse aprender que uma mulher não precisa de um homem para superar e ser feliz!
Mas o que eu poderia esperar de alguém que foi criada por aquela víbora?
Era em momentos como aqueles que eu me questionava: como Thomas suportou a mãe de Tracy por tanto tempo?
— Alii... — ela choramingou, — seja legal, por mim...
Eu suspirei, mas antes que pudesse reagir, ela puxou um rapaz pela camisa e o jogou em minha direção.
— Oh, ÓTIMO! Ali, esse é o Julian, eu tenho certeza que vocês vão se adorar! — Ela soltou e simplesmente... foi embora.
Eu a encarei, mas o cara — obviamente bêbado — tomou a frente, me segurando pelo braço.
— Olá, Ali... — Ele disse e o seu tom me fez querer vomitar.
— Olá... — eu soltei como se falar com aquele i*****l, me causasse dor.
— Então...
— Não me leve a m*l, Julian, — eu comecei, — mas eu realmente não tenho o menor interesse em você ou... em te conhecer.
Ele riu e Tracy já havia sumido a essa altura, se desfazido entre aquelas pessoas que se amontoavam.
— Oh, querida... isso não tem nada haver. — Ele disse agarrando meu braço, — você certamente vai mudar de ideia.
Eu forcei um sorriso que fazia minhas bochechas doerem.
— Eu realmente não tenho interesse. — Falei e com um puxão, me desvencilhei dele. Minha cabeça já estava a mil nesse momento e quando me dei conta, estava tentando me afastar de Julian. Eu entrei naquela multidão e tentei atravessar enquanto me escondia dos bêbados felizes.
— Com licença, — eu falei pela quinta vez, tentando — quase inutilmente —, evitar que meu cabeço fosse encharcado por cerveja e vodka.
O problema surgiu quando comecei a subir as escadas e vi Julian me encarando enquanto saia da multidão.
“Qual a p***a do problema dele?” Foi tudo que consegui pensar, correndo para longe dali — para a parte de cima da casa.
— Aliii... — A voz embolada pela bebida me chamava enquanto eu tentava me esconder e pelos corredores da mansão.
Qual era o problema daquele desgraçado em entender um não?
Eu corri e entrei em meu quarto, na vaga esperança de enfim me livrar — mesmo que tivesse que me trancar ali por toda o noite —, mas para meu total azar, Julian estava bêbado, mas não lento, e seu pé ficou entre a porta antes mesmo que eu conseguisse fecha-la.
— Você gosta desses joguinhos de esconder, Ali? — Ele me perguntou enquanto entrava em meu quarto, seus olhos pareciam turvos, escuros.
— Saia daqui, — eu falei me afastando dele, mas Julian não parecia se importar com qualquer coisa que eu falasse.
— Ora, qual é, pare de brincar... — ele disse se aproximando mais, seu hálito forte estava me matando. Era um misto de cerveja e destilado que parecia capaz de me incendiar caso algo fosse aceso ao meu lado.
— Eu não estou brincando! — Falei tentando empurrar ele, mas Julian me empurrou contra a parede e sua mão desceu entre minhas pernas. — PARA!
Eu gritei e ele riu, segurando meu braço com força e se esfregando em mim.
— Pare de charminho, você acha que eu não sei que você quer? — Ele riu e sua língua deslizou por meu pescoço, — eu vi o jeito que você se insinuou na cadeira da piscina, — ele disse com a voz embolada e eu só conseguia sentir nojo.
Meus olhos queimaram com as lágrimas e eu tentei empurrar ele com toda a força que eu tinha, mas mesmo bêbado — ele era mais forte que eu.
— ME SOLTA! — Gritei entre lágrimas, — sai daqui! EU NÃO QUERO!
— CALA A BOCA VÁDIA! — Ele me deu um tapa e naquele momento, a porta do meu quarto foi escancarada por Thomas.
Ele parecia furioso e ao mesmo tempo, surpreso.
— Que merda é essa? — Ele perguntou e por mais que seu tom fosse baixo e sério, parecia ter estrondado pelo quarto, — é melhor você largar ela, moleque.
Julian bufou, como se Thomas não fosse nada demais.
— Eu acho que você não deveria se meter, velhote. — Ele disse com desprezo, talvez pela bebida já ter subido a sua mente, mas Thomas não parecia paciente.
Ele arrancou Julian de cima de mim e o socou tão forte que o garoto cambaleou para trás.
— Saia daqui, agora. — Thomas murmurou e aquela ordem era absoluta.
Eu estremeci, ainda contra a parede e as lágrimas simplesmente caíram de uma vez.
Ele havia me salvado, havia me protegido.
— Alice? Você está bem? — Ele me perguntou e eu não sabia bem o que responder, mas sabia o que eu queria.
Eu queria aquilo, queria ser protegida, cuidada. Queria... Thomas.