🥀 Capítulo 3🥀

1472 Words
Hannah Brooks. São 07h50 da manhã de uma terça-feira. Lá fora, o sol brilha forte e a brisa fresca faz as folhas das árvores dançarem enquanto são banhadas pelo sol da manhã. Já aqui dentro, na sala da minha casa — ou melhor, da casa dos meus pais — o clima é pesado. A situação está tão tensa que poderia ser cortada com uma faca, e eu me encontro bem no centro desse furacão. — Família ajuda família, Hannah. Você não pode simplesmente nos virar as costas nesse momento. — diz minha mãe, com aquele tom choroso que costuma usar quando quer assumir a direção de uma situação que considera complicada. — Não estou abandonando a família. — digo calmamente. — Só estou afirmando que não vou ajudá-los a pagar por essa loucura. — Mas, filha, sua irmã precisa... — Não, mãe, ela não precisa. Ela quer. E, acredite em mim, isso são coisas totalmente diferentes. — digo, olhando para minhas unhas com uma paciência e firmeza que adquiri ao longo dos anos. — Amelie não trabalha, não estuda, passa o dia inteiro dando uma de blogueira para seus cem seguidores, tentando arduamente passar a imagem de uma vida que ela não vive. E agora vocês vêm até mim me dizendo que eu devo trancar a faculdade e usar o valor para financiar um carro para ela? Solto um riso anasalado, mas sem humor. — Em que parte as câmeras aparecem, junto com o apresentador de um programa de humor, dizendo que tudo não passa de uma pegadinha? — pergunto sarcasticamente, observando os três adultos à minha frente. — Você não entendeu que eu preciso desse carro? — a voz de Amelie ecoa dois níveis acima do civilizado, e eu continuo a encará-la, esperando por suas próximas palavras. — Todas as minhas amigas já têm seus carros. Algumas até apartamento próprio. Não é justo que eu ainda precise morar com os nossos pais. Eu quis gargalhar nesse momento, mas apenas arqueei uma sobrancelha, mantendo a descrença e o sarcasmo evidente no rosto. — E desde quando isso se tornou meu problema? — pergunto, ainda mantendo a mesma expressão. — Você é minha irmã mais velha. Deveria ficar feliz que eu esteja querendo ser independente. — Ela bufou, cruzando os braços como uma criança que faz birra quando não consegue o que quer. — Ficaria muito feliz por você... se sua independência não viesse às minhas custas. — digo calmamente. — Eu não vou desistir do meu futuro para ser seu banco particular. — Entenda, querida, não estamos pedindo que desista do seu futuro. — diz minha mãe com aquele tom apaziguador que costuma usar quando tenta mediar uma situação. — Estamos sugerindo que você poderia apenas... adiar um pouco seus sonhos. Quem sabe por um ou dois anos, para ajudar sua pobre irmã. — Ou ela poderia agir como uma adulta, criar responsabilidades e arrumar um emprego. — digo, sorrindo e pegando minha mochila, jogando-a sobre os ombros. — Preciso ir. Não tenho interesse em chegar atrasada na minha aula — aquela que eu pago com o meu dinheiro, porque trabalho para isso. Antes que um novo chilique comece por parte de Amelie, simplesmente deixo a casa. Saio caminhando calmamente pela calçada até o ponto de ônibus. O acontecimento de minutos atrás não foi o primeiro, e sem dúvidas não será o último. A diferença é que, com o tempo, aprendi a não ceder, tampouco a fazer os gostos de Amelie. O que funcionava quando éramos crianças — aquela manipulação clássica — já não tem mais efeito na vida adulta. Aos vinte anos de idade, minha irmã nunca teve uma responsabilidade real. Talvez a maior tenha sido cuidar de uma planta que ganhou... e que morreu em duas semanas por falta de água. Amelie nunca soube o que é ser responsável e, por isso, ainda age como uma criança mimada, achando que o mundo lhe deve algo. E, infelizmente, nossos pais apoiam esse comportamento. O ônibus que me levaria até a faculdade não demora a passar. Entro, pago a passagem e me sento em um dos últimos bancos. Ponho meus fones e me preparo para a jornada até a faculdade. 》☆☆☆《 Cael Sterling — Eu só preciso que você o busque na escola e o deixe em casa, Mia. — minha voz sai controlada demais para alguém que já está a um passo de arremessar o celular pela janela. — O Xavier vai levar o carro pra revisão hoje. É só isso. Não tô pedindo que leve meu filho pra um lugar onde vendem frituras e carboidratos processados que vão f***r a saúde dele. Do outro lado da linha, o silêncio dura dois segundos. Dois segundos longos o suficiente para eu saber que vem bomba. — E desde quando eu faço o que você pede, Cael? — ela retruca, a voz escorrendo sarcasmo como veneno doce. — Como tia, eu tenho meus direitos, sabia? E se eu estou dizendo que o Theo vai comigo naquela lanchonete temática perto da escola, ele vai comigo à lanchonete. Quer você goste ou não. Fecho os olhos com força, esfregando o polegar contra a têmpora, tentando conter a dor de cabeça que começa a pulsar atrás dos meus olhos. Lidar com Mia é como discutir com uma adolescente em plena crise existencial — só que com cartão de crédito ilimitado e zero medo de consequências. — Eu sou o pai dele, Mia. — minha voz sai mais baixa agora, mais perigosa. — E eu estou dizendo que você não vai— — E eu sou a tia. — ela me corta, sem cerimônia alguma. — E estou dizendo que vamos à lanchonete, quer você queira ou não. Respiro fundo. Uma, duas, três vezes. Em vão. — p**a m***a, Mia, eu não vou ficar discutindo com você. Vocês não vão a— A frase morre nos meus lábios quando a chamada é encerrada do outro lado da linha. Olho para a tela apagada do celular por alguns segundos, incrédulo. Depois passo as mãos pelo rosto, afundando os dedos nos cabelos, tentando recuperar algum vestígio de sanidade que ainda reste em mim. Eu amo minha irmã. Amo aquela praga insuportável, teimosa e perigosamente irresponsável. Mas, como acabei de constatar mais uma vez, responsabilidade definitivamente não é o forte de Mia Sterling. E não estou falando da vida profissional. No trabalho, ela é um maldito furacão de competência. Brilhante, eficiente, bem-sucedida em absolutamente tudo que toca. O problema é que, fora daquele universo corporativo organizado, a vida pessoal dela é um acidente esperando para acontecer. Trinta anos, solteira, zero planos de filhos, casamento ou qualquer coisa que envolva a palavra “estabilidade”. Mia é a definição viva da “tia legal”. Não só para o Theo, mas também para Savannah e Ethan, meus sobrinhos — filhos do Sebastian, meu irmão mais velho. Ela é a tia legal porque faz exatamente tudo o que eles querem. Independente do que nós, os pais responsáveis dessa família disfuncional, permitimos ou não. O melhor exemplo disso foi o episódio do mês passado. Numa sexta-feira à tarde, sem avisar absolutamente ninguém, Mia buscou Savannah e Ethan na escola e simplesmente… sumiu com eles. Viagem de fim de semana. Road trip improvisada. Sem mensagem, sem ligação, sem localização compartilhada. Nada. Savannah tem onze anos. Ethan, treze. Sebastian e Ayla, minha cunhada, entraram em pânico. A família inteira entrou em pânico. Foram dois dias de inferno. Dois dias sem notícias. Já tínhamos acionado a polícia quando aquela criatura inconsequente resolveu reaparecer, sorrindo como se tivesse acabado de trazer os filhos dos outros de um passeio no parque. Savannah voltou com o cabelo pintado de azul. Ethan, com o nariz furado. A confusão foi monumental. Gritos, discussões, ameaças vazias de cortar contato. E, como sempre, Mia ficou ao lado dos sobrinhos o tempo todo, defendendo a “liberdade de expressão”, a “fase da adolescência” e mais meia dúzia de discursos que soam lindos até você ser o pai ou a mãe de duas crianças que desapareceram por quarenta e oito horas. No fim, não deu em nada. Porque Mia é excêntrica o suficiente para fazer algo ainda pior se for proibida. Ela ainda não fez nada desse nível com o Theo — talvez porque ele ainda seja pequeno demais para entrar nos delírios de rebeldia estética dela. Mas já viajou com ele sem a minha permissão. Cruzar o país com o meu filho enquanto eu estava do outro lado do mundo resolvendo problemas da empresa não foi, exatamente, um dos momentos mais tranquilos da minha vida. Eu quase infartei quando descobri. Como eu disse: irresponsável. E, ainda assim, infelizmente… a família inteira confia nela como se ela não fosse uma bomba-relógio vestida de carisma e boas intenções.
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