Capítulo 6

2828 Words
O mais novo olhava as estrelas brilhando ao longe, enquanto pelo canto do olho via alguns empregados da casa limparem a bagunça do jantar e retirarem as velas, o que ele achou uma pena, estava tudo lindo apesar de tudo, se fosse em outra ocasião acharia aquilo o pedido de casamento mais romântico. Suspirando se ajeitou no banco de cimento, sentindo o olhar do outro sobre suas costas. A lua brilhou pesada sobre a cabeça deles, dizendo aos dois solitários que abençoava aquela união, coisa que nenhum dos dois notarão por estarem presos cada um em seus próprios pensamentos. Henry sentia que a qualquer momento o outro poderia partir, já que se mostrava tão distante e frio em relação a ele, mas ele entendeu, não era uma situação fácil, se não era para ele, imagina para aquele rapaz que está descobrindo a vida agora. Henry distraidamente começou a assobiar uma canção qualquer de Chopin, ele amava algumas músicas clássicas, apesar de não ser amante, era um dos únicos gêneros que ele se prestava a ouvir, era algo que ele achava fascinante, aquela harmoniosa dança entre os instrumentos chegando ao ápice. Lindo. O que estava acontecendo com ele? Por que se permitia aqueles sentimentos? Estava assim tão carente que estava começando a gostar da pessoa que seria o responsável por prender ele em um casamento sem amor? Seus olhos desviaram para a mesa fria, não era apenas aquele cimento que separava os dois, tinha um mar de coisas que os faziam afastados. Henry encantado com todo aquele ar de romance, olha para seu futuro marido, esse mantém os olhos baixo enquanto o mais velho inspeciona cada parte de seu rosto, os lábios parecem muito beijáveis, e ele bem se lembrava disso, os cabelos pretos e pequenos cachos caindo por sua testa, era uma pintura para lá de linda, era maravilhosa, excepcional. Henry tinha uma vontade quase incontrolável de tocá-lo. — O que deseja fazer amanhã? — O CEO pergunta encarando os olhos do mais novo que o encara de volta. — Tenho um presente para lhe entregar pela manhã, espero que depois você aproveite, então podemos dar um passeio pela fazenda, tem muitas coisas que ainda não viu. Em breve tudo será tão seu quanto é meu hoje. O mais novo vivia uma vida confortável por causa do pai do seu noivo, eles não eram ricos como os Rossi, mas é uma vida cheia de luxo apesar de tudo, o pequeno rapaz não podia se imaginar dono de uma fortuna como aquela, se ele não conseguia contar os números na conta do seu pai, imagina na de seu futuro marido. Isaak olha ao seu redor, pensando que não seria uma má ideia andar por aí, apesar de ser com a última pessoa com quem ele queria fazer isso. Sua expressão de desagrado não passou despercebida. — Acho que podemos fazer isso. — Henry sentiu seu peito apertar por causa dessa situação, ainda mais pela aparente recusa do mais novo em ter sua companhia. Ele entendia seu agora noivo, mas ao mesmo tempo sentia-se chateado por não ver um mínimo esforço da outra parte em se darem bem. — Eu realmente estou tentando, Isaak. Será que pode fazer o mesmo? — Usando a voz que usaria para uma negociação na empresa, Henry se deixou levar pelos sentimentos conflitantes. Sinceramente tudo aquilo era novo e confuso para os dois. — Você não tem o direito de me pedir nada, senhor Henry. — Apesar de sua voz soar seria, o Rossi mais novo sentiu a pintada de deboche. A raiva que o empresário sentiu ao ser chamado assim, quase o fez cometer uma loucura. Mordeu os lábios, gesto que não passou despercebida aos olhos do mais novo dos Walker. Era um jogo perigoso, os dois sairiam machucados, ou pegariam fogo entre quatro paredes e de um modo muito bom. — Em breve serei seu marido, não vai ousar me chamar assim e, acho que isso também me dar o direito de lhe pedir muitas coisas. — A paciência, que não era muito de Henry, estava se esgotando. — Não tente usar esse fato para conseguir qualquer coisa de mim. — Falou indiferente, mesmo que sentisse seu rosto pegando fogo pela raiva sentida. — Você não vai conseguir nada de mim, nada! Eles não aguentavam manter uma conversa sem trocar farpas, talvez aquilo atrasasse o que estava destinado aos dois. Mas o destino nunca desistia. Destino e desistir podem até soar um pouco igual, mas os dois nunca andavam juntos numa mesma vida. Não tinha como voltar atrás quando se já está destinado. — Você calado é uma benção, isso sim, quando abre essa boca é apenas para brigar e soltar insultos. — Isaak abre a boca em choque. O mais velho parecia em seu limite, mas o futuro advogado não parecia ter medo de seus rompantes. Ou era isso que aparentava. — Está insinuando que sou o único culpado pelas brigas? Você é... é um escroto, isso sim, como posso aguentar viver ao seu lado? — Você é um riquinho mimado que só olha para o próprio umbigo. — Isaak sentia seu coração martelar contra o peito, não pôde impedir da sensação horrível que sentiu tomar conta de seu corpo ao ouvir aquelas palavras. Seus punhos se fecharam com a raiva e a vergonha por um passado não tão distante. — Você é uma pessoa horrível, esnobe do c*****o. — Isaak fala irritado, espalmando suas mãos sobre a mesa fria e ficando de pé, encarando Henry que faz o mesmo, os dois ficam de cara a cara, as respirações se chocando com fúria. — Controle essa boca imunda. Deixe de pensar apenas em si mesmo e cresça, não sabe manter uma conversa sem mostrar essas garras afiadas. — Henry podia jurar que sentia os canivetes que saiam dos olhos do mais novo atravessarem seu corpo. — Se eu não pensar em mim mesmo, quem irá? Foi pensando nos outros que parei nessa situação de merda. f**a-se você, f**a-se seu dinheiro, seu miserável, preferia morrer a casar com você! — Dito isso, ele bate sobre a mesa e passa pelo pequeno caminho agora vazio, sem aquelas pequenas luzes românticas, a sensação maravilhosa que sentiu ao vê-las foi sumindo feito pó em um vento muito forte. Com passadas fortes ele subiu as escadas quase que tropeçando a cada dois degraus e se trancou no quarto pelo resto da noite. Bufando e apertando os cabelos da nuca, Henry se xingou por deixar a conversa chegar naquele patamar, como iria fazer ele gostar de si se não conseguia controlar sua boca e sentimentos em sua presença? Como chegariam num acordo se o mais adulto e vivido ali se deixava explodir por miseras palavras? Mas o que o mais velho podia fazer? Se na presença de Isaak, ele se sentia uma bomba prestes a explodir e levar tudo ao seu redor, aquele homem petulante deixava o mais velho que pensava ser controlado e calmo ao seu limite. Seria uma missão impossível. Quando Isaak falava, o mais velho só pensava em respondê-lo, sem medir o peso de suas palavras. Não seria nada fácil a convivência dos dois. Disso Henry tinha certeza. Por mais que quisesse ele ao seu lado, não podia controlar o gênio forte de seu noivo. E ele nem queria controlá-lo, apenas queria que chegassem ao meio termo. Quando Henry estava prestes a se levantar do banco de cimento, seu celular vibrou em seu bolso, para logo um toque alto quebrar aquele pequeno barulho de grilos e sapos ao longe. — Pai. — Falou depois de ver o nome na tela e levar o celular ao ouvido. — Meu filho, liguei para saber do jantar. — O homem falou esperançoso que tudo tivesse dado certo. — A aliança está no dedo dele, mas a conversa que tivemos depois não foi muito alegre. — Henry escutou o suspiro cansado do mais velho do outro lado da linha. — Eu já imaginava. Filho, por favor, controle-se quando estiver com ele, tentem manter uma conversa civilizada. — Eu tento. — Falou levantando-se e elevando sua cabeça para o céu estrelado. — Mas quando ele abre aquela boca eu só penso em retrucar. — Morde os lábios com mais força que o necessário, sentindo o gosto metálico na boca. — Ele me irrita, de um jeito onde perco o controle de todas as minhas emoções e reações. — Você não pareceu surpreso quando o viu pela primeira vez. — Está imaginando coisas pai. — Pois bem, vou acreditar que sim. — Escutando um bater de porta do outro lado da linha, Henry suspirou aliviado ao ser tirado daquela conversa. — Preciso desligar, estão querendo conversar comigo. Mas meu filho, tenha paciência, ele é apenas um rapaz que está aprendendo a conviver com a nova vida, ele não estava preparado para isso, não o force demais. — Sim pai, eu entendi, vou fazer o meu melhor. — Ótimo, eu te amo filho, se cuide e cuide do nosso rapaz. Ele é família agora. — Henry sentiu seu coração pequeno dentro do peito. — Claro pai, eu também te amo. O mais velho sentiu um frio passar pelo seu corpo com o vento forte que o atingiu, ele nunca se sentiu de mãos atadas como naquele momento, não sabia o que fazer, que atitudes tomar, ele apenas sabia irritar mais e mais seu noivo, ele tinha que se controlar para que chegassem a ter uma conversa civilizado e então pudessem começar uma vida a dois. Henry acredita que aquilo seria uma tarefa árdua, fazer com que seu noivo quisesse pelo menos manter uma relação saudável para que aquele casamento pudesse dar certo. Suas mãos batem repetidas vezes sobre a pedra gelada da mesa, sua cabeça fervilha de pensamentos, ele realmente não sabe como agir na presença de seu dócil noivo. Era pouco mais das duas da manhã quando sentindo fome e sede, Isaak resolveu sair de seu quarto, vestia pijamas confortáveis na cor cinza e pantufas fofas e quentes, desceu as escadas e passou pela espaçosa sala, indo pelo corredor que o levaria a cozinha ele viu alguns quadros pendurados, obras que ele não entendeu muito mas as achou lindas, estava com seu fone no ouvido, a música que tocava era uma peça que ele tanto amava dos clássicos antigos, de Beethoven, apesar de seu jeito rebelde e louco de levar a vida ele gostava de músicas como aquelas, lhe davam uma sensação de paz e tranquilidade. Chegando ao seu destino final estava tudo parcialmente escuro já que algumas luzes da sala permaneciam acesas, chegando a ultrapassar pelo corredor e deixar a cozinha visível, Isaak acende a luz depois de alguns minutos para achar o receptor, ele retira os fones do ouvido deixando o celular sobre a bancada ele segue até a geladeira, abrindo a mesma ele procura por algo que possa saciar a fome que sente, logo nota um lindo bolo de chocolate, sua boca enche de água e ele o pega, colocando sobre a bancada onde deixou o celular. Quando ia em busca de pratos e talheres uma presença se fez visível em sua visão, a pessoa estava parada no corredor apenas o observando de longe. A respiração de Isaak acelerou, ele não sabia o que dizer naquele momento, os olhos dos dois se encontraram e o mais novo se sentiu nervoso. Henry vestia seu costumeiro pijama, calças de moletom e uma camisa branca um pouco folgada, deitado sobre sua cama lendo um livro ele escutou a porta ao lado da sua bater, então ele imaginou que seu noivo iria dar um passeio noturna pela casa, movido pela curiosidade ele se levantou e seguiu os passos do futuro marido. Henry não pensou muito, apenas seguiu o mais novo vendo-o descer as escadas e ir em direção a cozinha, o mais velho se recostou a parede no fim do corredor e observou o noivo deixar o celular sobre a bancada, indo direto para a geladeira e saindo de lá com um bolo o deixando sobre a bancada, quando o mais novo olhou em volta em busca dos talheres foi quando notou ele ali, Henry permaneceu no mesmo lugar, seus olhares conectados. — Roubando a geladeira a essa hora? — O mais velho não pode deixar de alfinetar, Isaak apenas revira seus olhos e continua em sua árdua tarefa de achar pratos e talheres. — Na porta acima da pia tem pratos e na segunda gaveta ao seu lado os talheres. — O mais velho informou. Isaak ficou alguns segundos parado no meio da cozinha, mas movido pela fome seguiu as instruções de seu noivo. — Quero também. — O mais novo morde os lábios e mesmo contra sua vontade ele traz dois pratos para o balcão, ele senta-se de um lado e o mais velho toma o lugar a sua frente, ele reparte o bolo e serve nos dois pratos colocando um em frente ao mais velho. Eles começam a comer em silencio, a princípio confortável, mas logo é quebrado quando Henry fala. — Você não lembra mesmo, não é? — Isaak o olha, pelo a expressão ansiosa e perdida, Henry percebe que realmente ele esqueceu tudo. — Se eu me lembrasse de algo que envolva nos dois por que eu esconderia isso? para mim não tem sentido. Você quer que tenhamos uma boa relação sendo que me esconder algo que claramente não faço a mínima ideia do que é. — Isaak finalmente coloca aquelas palavras que o vem perturbando a muito tempo, como o mais velha espera que haja confiança entre eles se o mesmo não falo esse tal segredo que ele não lembra. — Me fale a verdade, já nos conhecemos? — O olhar desesperado no rosto do mais novo faz Henry baixar a cabeça em derrota. Ele queria que ele se lembrasse, mas parecia impossível disso acontecer, devia logo abrir o jogo e falar tudo. Decidido, ele começa a falar. — Sim, nos conhecemos, tivemos algo, numa noite a quase um mês atrás. — Como assim? Do que está falando? — Encarando os olhos do mais novo, ele pode mostrar toda sua sinceridade ao contar tudo. — Você estava com uma mulher, mas acabou a dispensando e esbarrou em mim, começamos a beber juntos quando do nada parecíamos velhos conhecidos bebendo, você me chamou para estender a noite, já que estava quase na hora da boate fechar, nunca fiquei tanto tempo numa boate, mas com meu amigo estava chato, então esbarrei em você e começou um diálogo divertido e nada haver, fomo a um hotel e bebemos muito, ficamos até o amanhecer bebendo, não como aconteceu, mas nos beijamos e logo em seguida dormimos juntos, fizemos sexo. — O estomago de Isaak embrulhou ao terminar de ouvir aquele relato, ele não podia acreditar. Não podia ser verdade aquilo, ele nunca dormiria com alguém estando bêbado, muito menos esqueceria que o fez. Ele muito menos lembra de ter sentido suas partes intimas doer. — Você está mentindo! — Exclamou em choque. — Podemos pedir ao hotel as imagens, com toda certeza tem gravações de nós dois chegando juntos ao local. — Como isso é possível? Como fui dormir com meu futuro marido mesmo antes de nem saber que seria seu marido? Como dormi com você? Por que fiz isso? — Não posso lhe responder, estávamos os dois bêbados, apenas rolou. Isaak sentia como se pudesse desmaiar ali mesmo, como ele pode fazer aquilo? Ele sabia que gostava de ambos os sexos, mas nunca teve coragem de assumir para si mesmo isso, então seria impossível para ele dormi com um homem, nunca mais dormiu com uma mulher, quem dirá se deitar com um homem. Ele vira as costas para seu noivo e leva as mãos aos cabelos, seus olhos enchendo de lágrimas ao notar o quão i****a ele foi, ele corria sérios perigos ao beber daquele jeito, se fosse outra situação com outro tipo de homem? Que o tivesse forçado ou até mesmo lhe matado? Henry vendo os ombros do noivo tremerem, saiu de sua cadeira e deu a volta na bancada, parando atrás do mais novo, tocou seu ombro, mas Isaak se afastou com pressa, como se aquele toque lhe causasse nojo. Derrotado, Henry se sentiu culpado por ter se deixado levar, por ter ficado bêbado e ceder aos seus desejos, ele forçou Isaak a t*****r com ele? Se o mais novo se sentiu violado ao saber desse fato? Henry seria um mostro? — Me desculpe, me desculpe se eu lhe forcei a algo naquela noite, pensei que não lembrasse pela bebida, apesar de estar bêbado igual não devia ter feito nada a você. Antes que Isaak falasse algo, Henry sumiu da cozinha, o mais novo apenas assistiu ele desaparecer pelo corredor, de sua boca não saiu nada, ele ficou paralisado sem poder ter a chance de falar que não era nada daquilo que o mais velho estava pensando.
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