Marília Narrando
Tudo parecia mil maravilhas no início. Luiz era o homem ideal. Ele sabia como me envolver, me fazia sentir especial, única. Por um tempo, eu acreditei que era a mulher perfeita pra ele, o complemento que ele precisava. Mas com o tempo, as coisas começaram a mudar, e eu me via cada vez mais sufocada.
Enquanto ele me carregava correndo para o pronto-socorro, minha mente parecia um turbilhão. Pensava no nosso bebê, na minha barriga de seis meses, e no quanto ainda tínhamos pela frente. Será que ela estava bem? Será que eu ia perder minha pequena? Não conseguia parar de me culpar, de pensar que talvez eu estivesse forçando demais. Ao mesmo tempo, não conseguia ignorar o peso de tudo o que Luiz fazia e dizia. Era amor ou posse?
O hospital estava movimentado, mas o mundo ao meu redor parecia mudo. As luzes brancas, os sons abafados, o cheiro de álcool... tudo me deixava ainda mais tonta. Quando acordei, já estava deitada em uma cama, e Luiz não estava mais ali. Talvez fosse melhor assim. Precisava de um momento para respirar.
A porta se abriu, e uma médica entrou no quarto. Ela era uma mulher baixa, cabelos presos em um coque apertado, e usava um olhar que misturava profissionalismo e empatia.
– Marília, como você está se sentindo? – perguntou ela, com uma voz tranquila.
– Melhor, eu acho – respondi, embora ainda me sentisse fraca. Minha mão foi automaticamente para a barriga. – E o bebê?
A médica puxou uma cadeira e se sentou ao lado da cama, pegando minha mão.
Médica – O bebê está bem, por enquanto, mas precisamos conversar. Ela ainda é muito frágil. Com 26 semanas, muitos dos órgãos ainda não estão totalmente formados. A pele ainda é bem fina, os olhos não estão completamente desenvolvidos, e ela ainda não tem cílios ou sobrancelhas. Os pulmões estão em fase crítica de formação. Por isso, então teremos uma bela jornada pela frente..
Meu coração apertou.
– Eu… eu machuquei ela?
A médica balançou a cabeça suavemente.
Médica – Não diretamente. Mas a pressão arterial alta e o estresse que você sofreu poderiam ter causado algo grave. Você teve sorte de chegar a tempo. Agora, precisamos garantir que isso não prejudique a criança..
Engoli seco, sentindo as lágrimas ameaçando cair.
– E o que eu preciso fazer?
Ela apertou minha mão com firmeza.
Médica – Primeiro, ela vai precisar ficar aqui no hospital por pelo menos um mês, para monitorarmos a saúde da bebê. Vamos administrar medicamentos para ajudar no desenvolvimento dos pulmões dela, . Depois disso, será essencial que você reduza drasticamente qualquer tipo de estresse. – concordei com a cabeça, embora meu coração estivesse pesado.
– E depois da alta?
Médica – Você precisará de repouso absoluto, Marília. Evite esforço físico e, principalmente, evite situações que possam te deixar emocionalmente abalada. O bem-estar do bebê depende diretamente do seu estado emocional e físico, da mãe. – Eu sabia o que ela estava dizendo sem precisar usar muitas palavras.
A situação em casa, as brigas com Luiz... eu precisava escolher. Era ela ou o caos. E naquele momento, a única coisa que importava era minha filha.
Médica – Marília – disse ela, fazendo uma pausa, como quem escolhe bem as palavras. – Ela vai precisar de muito tratamento. Só posso te dizer uma coisa: ela vai precisar muito de você. – Foi como se o chão tivesse se aberto, e eu tivesse caído de cabeça em um abismo sem fim.
– Mas... ela vai sobreviver? – perguntei, já com as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Médica – Se ela sobreviver, Marília, será o seu milagre.
A médica percebeu o olhar tenso entre mim e Luiz. Respirou fundo, como quem tentava aliviar o peso da situação, e segurou a minha mão, com firmeza e empatia. Era como se ela soubesse do conflito que estava dentro de mim.
Fechei os já sabendo que eu tinha uma grande batalha pela frente.
1 Ano Depois....
O dia m*l tinha começado, e lá estavamos , eu e Amanda, já na cozinha do restaurante, com o avental amarrado na cintura e o fogo aceso. O cheiro do tempero fresco começava a tomar conta do ar, enquanto ela mexia em panelas e cortava legumes como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu, por outro lado, estava jogada na cadeira, com a cabeça apoiada na mão e os olhos pesados de sono.
Amanda parou o que estava fazendo e me olhou de canto, com aquele jeito dela, sempre direta.
Amanda – Tá, e você? Que cara é essa? Parece que não dormiu uma hora sequer. – Tentei rir, mas só saiu um som fraco, quase uma tentativa frustrada de disfarçar.
– Só uma noite r**m, nada demais. – Ela bufou, enxugando as mãos no pano de prato e se virando pra mim com as sobrancelhas arqueadas.
Amanda – Sei. Porque você nunca tem "noites ruins", né? Vai me dizer o que tá acontecendo ou vou ter que adivinhar? – Suspirei, mexendo na xícara de café que estava à minha frente, tentando parecer mais tranquila do que realmente estava.
– É só cansaço, Amanda. Não tem nada acontecendo.
Amanda – Marília, pelo amor de Deus. Você tá com essa cara de quem carregou um caminhão de madrugada. Não vem com essa de cansaço, que eu não sou boba. – Levantei o olhar pra ela, mas fiquei em silêncio.
Amanda era boa nisso. Sabia arrancar as coisas de mim com uma insistência que só ela tinha.
Amanda – É o Luiz, né? – Meu coração acelerou na hora, mas tentei fingir que não era nada.
– Amanda, por que você sempre pensa nele?
Amanda – Porque você não para de pensar nele, é por isso. Desde aquele dia você chegou em casa e nem ele e nem a Ludmila estava, que você tá assim, diferente. Fala a verdade, Marília, o que tá acontecendo? – Ela cruzou os braços, esperando uma resposta, e eu senti peso do olhar dela em mim.
Amanda era minha amiga, minha confidente, mas falar sobre o que estava me incomodando era mais difícil do que eu esperava.
– Eu não sei, Amanda. Eu realmente não sei. Ele não fez nada, Ludmila também não falou nada. Mas desde aquele dia, eu me sinto... como se tivesse algo pairando sobre agente. – Ela franziu o cenho, intrigada, mas não disse nada de imediato.
Amanda – Algo como o quê? – Balancei a cabeça, sem saber como colocar aquilo em palavras.
Amanda ficou me olhando por alguns segundos, e depois se aproximou, puxando uma cadeira ao meu lado.
Amanda – Escuta, Marília... Você sabe que eu não sou de tampar o soco à peneira, Você pode até ser mais velha que eu, mas chega você não tá dando mete o pé – Desviei o olhar, mordendo o lábio.
– E se ele realmente estiver me traindo? O que eu faço? – Ela colocou a mão no meu ombro, séria, mas com aquele tom firme que só ela sabia usar.
Amanda – Eu não sei o que falar amiga. E lembra que ele tem aquela cara de anjo, mas ele não é um anjo. – O silêncio tomou conta da cozinha, interrompido apenas pelo som da panela borbulhando no fogão.
Eu sabia que Amanda estava certa. Assim como o Alexandre, um que eu esbarrei por aqui também, mesmo não sendo lado formiga, criamos uma amizade linda, mesmo sem intrometer ele está todo preocupado comigo e com Ludmila .
— Preciso ir, amiga. Amanhã a Clarinha tem consulta logo cedo. É isso que tem me dado forças para seguir em frente: ocupar a mente com os tratamentos dela — falei, enquanto ela me olhava de lado, terminando de lavar a louça, enquanto eu finalizava a limpeza de todos os eletrodomésticos da cozinha.
— Está bem, mas fica bem, amiga. E, se precisar de alguma coisa, me avisa. Eu não tenho muito, mas tenho um bom coração e estou sempre disponível para te ajudar — disse Amanda, me abraçando.
Saí dali com uma sensação estranha, o coração apertado. A voz do Alexandre ecoava na minha cabeça depois da conversa que tivemos ontem, quando ele me mandou abrir os olhos com o Luiz e com a Ludmila.
Não sei por quê, mas aquelas palavras me atingiram de um jeito diferente. Não era só a minha cabeça que estava tomada por elas; era também o meu coração. Era como se algo estivesse prestes a acontecer, e eu precisava chegar em casa....