CAPÍTULO 15

797 Words
A noite caiu pesada sobre Santa Marina. A chuva havia cessado, mas o ar continuava denso, impregnado de um silêncio que incomodava. Isadora estava na cozinha, mexendo distraidamente uma xícara de chá que já esfriara, enquanto Caio falava baixo ao telefone na sala. — Não, nada hoje. — ele dizia. — Mas fique atento. Ele desligou e apoiou o celular na mesa, o olhar distante, carregado de preocupação. Isadora percebeu imediatamente. — Você sente, não sente? — ela perguntou. Caio ergueu os olhos. — Sinto. Antes que pudesse explicar, três batidas ecoaram na porta. Secas. Firmes. Calculadas. O coração de Isadora disparou. — Não estamos esperando ninguém. — ela sussurrou. Caio se colocou à frente dela automaticamente, o corpo tenso, o olhar afiado. Caminhou até a porta com passos silenciosos e espiou pelo olho mágico. O maxilar dele se travou. — Quem é? — Isadora perguntou, sentindo o medo se espalhar. Caio não respondeu de imediato. Abriu a porta apenas o suficiente para ver quem estava do outro lado. Henrique. Elegante demais para aquela hora, o sorriso tranquilo demais para alguém que não deveria estar ali. Usava um casaco escuro, os cabelos perfeitamente arrumados, como se tivesse saído de um jantar não de uma ameaça. — Boa noite, Caio. — disse com falsa cordialidade. — Isadora. Ela sentiu o estômago se revirar. — O que você quer? — Caio perguntou, a voz fria. Henrique inclinou levemente a cabeça, como quem respeita regras invisíveis. — Conversar. Só isso. — Aqui não. — Caio respondeu. — Vá embora. Henrique riu baixo. — Ainda mandando? Alguns hábitos nunca morrem. Isadora deu um passo à frente. — Se tem algo a dizer, diga agora. O sorriso de Henrique se alargou, satisfeito por ter a atenção dela. — Vim prestar condolências. — disse. — Pela sua avó… e pelo que vocês estão desenterrando. O ar pareceu rarefeito. — Não fale dela. — Isadora respondeu, firme. — Ela era uma mulher inteligente. — Henrique continuou. — Inteligente demais. Foi isso que a matou. Caio avançou um passo. — Cuidado com o que diz. Henrique ergueu as mãos em rendição falsa. — Não estou ameaçando. Estou avisando. Ele tirou algo do bolso do casaco e estendeu lentamente. Uma fotografia antiga. Isadora sentiu as pernas fraquejarem ao reconhecer a imagem, a casa em chamas. E, ao fundo, uma sombra masculina observando. — Onde conseguiu isso? — ela perguntou, a voz trêmula. — Sempre tive boa memória. — Henrique respondeu. — E bons arquivos. Caio arrancou a foto da mão dele. — Você não devia estar vivo para mostrar isso. O sorriso de Henrique endureceu. — Ainda não chegou a minha hora. Ele olhou diretamente para Isadora. — Você está mexendo em coisas que não entende. O passado não quer ser lembrado. — Ou talvez você não queira. — ela rebateu. Henrique se aproximou um pouco mais, ignorando completamente Caio. — Se continuar, vai acabar como sua avó. Sozinha. Silenciada. Antes que Caio reagisse, Isadora falou: — Se isso foi uma tentativa de me assustar, chegou tarde. Os olhos de Henrique brilharam com algo perigoso. — Corajosa. Igual ao pai. O nome caiu como uma lâmina. — Vá embora. — Caio rosnou. Henrique deu um passo para trás, ajeitando o casaco. — Pensem bem. Santa Marina é pequena. O mar guarda segredos, mas também sabe engolir corpos. Ele se virou, caminhando calmamente até a escuridão da rua. A porta se fechou com força. O silêncio que ficou era ensurdecedor. Isadora começou a tremer. Caio a puxou para os braços, apertando-a com força, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro. — Ele cruzou um limite. — ela sussurrou. — Sim. — Caio respondeu, o olhar duro. — E agora não tem mais volta. Ela se afastou um pouco, encarando-o. — Ele sabe mais do que imaginávamos. — E mostrou isso de propósito. — Caio disse. — Quer que você tenha medo. Quer que duvide. Isadora respirou fundo. — Não vou parar. O olhar de Caio se fixou nela, intenso, quase feroz. — Então você não sai mais daqui sozinha. — Caio — Não discute. — ele disse, firme. — Isso não é controle. É guerra. Ela assentiu lentamente. Quando Caio foi guardar a foto na gaveta, Isadora sentiu uma tontura súbita. Apoiou-se na cadeira, fechando os olhos por um instante. — Isa? — Caio se virou rapidamente. — É só cansaço. — ela respondeu, tentando sorrir. Mas ele não se convenceu. Caio a observou em silêncio, atento demais aos pequenos sinais, a palidez, a mão no ventre, a respiração curta. Algo ali não se encaixava. Enquanto a noite avançava e o mar rugia distante, ambos sabiam, a visita inesperada não foi apenas uma ameaça. Fora o começo do cerco. E o passado agora estava dentro da casa.
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