A noite caiu pesada sobre Santa Marina.
A chuva havia cessado, mas o ar continuava denso, impregnado de um silêncio que incomodava.
Isadora estava na cozinha, mexendo distraidamente uma xícara de chá que já esfriara, enquanto Caio falava baixo ao telefone na sala.
— Não, nada hoje. — ele dizia.
— Mas fique atento.
Ele desligou e apoiou o celular na mesa, o olhar distante, carregado de preocupação.
Isadora percebeu imediatamente.
— Você sente, não sente? — ela perguntou.
Caio ergueu os olhos.
— Sinto.
Antes que pudesse explicar, três batidas ecoaram na porta.
Secas. Firmes. Calculadas.
O coração de Isadora disparou.
— Não estamos esperando ninguém. — ela sussurrou.
Caio se colocou à frente dela automaticamente, o corpo tenso, o olhar afiado.
Caminhou até a porta com passos silenciosos e espiou pelo olho mágico.
O maxilar dele se travou.
— Quem é? — Isadora perguntou, sentindo o medo se espalhar.
Caio não respondeu de imediato.
Abriu a porta apenas o suficiente para ver quem estava do outro lado.
Henrique.
Elegante demais para aquela hora, o sorriso tranquilo demais para alguém que não deveria estar ali.
Usava um casaco escuro, os cabelos perfeitamente arrumados, como se tivesse saído de um jantar não de uma ameaça.
— Boa noite, Caio. — disse com falsa cordialidade.
— Isadora.
Ela sentiu o estômago se revirar.
— O que você quer? — Caio perguntou, a voz fria.
Henrique inclinou levemente a cabeça, como quem respeita regras invisíveis.
— Conversar. Só isso.
— Aqui não. — Caio respondeu.
— Vá embora.
Henrique riu baixo.
— Ainda mandando? Alguns hábitos nunca morrem.
Isadora deu um passo à frente.
— Se tem algo a dizer, diga agora.
O sorriso de Henrique se alargou, satisfeito por ter a atenção dela.
— Vim prestar condolências. — disse.
— Pela sua avó… e pelo que vocês estão desenterrando.
O ar pareceu rarefeito.
— Não fale dela. — Isadora respondeu, firme.
— Ela era uma mulher inteligente. — Henrique continuou.
— Inteligente demais. Foi isso que a matou.
Caio avançou um passo.
— Cuidado com o que diz.
Henrique ergueu as mãos em rendição falsa.
— Não estou ameaçando. Estou avisando.
Ele tirou algo do bolso do casaco e estendeu lentamente.
Uma fotografia antiga.
Isadora sentiu as pernas fraquejarem ao reconhecer a imagem, a casa em chamas.
E, ao fundo, uma sombra masculina observando.
— Onde conseguiu isso? — ela perguntou, a voz trêmula.
— Sempre tive boa memória. — Henrique respondeu.
— E bons arquivos.
Caio arrancou a foto da mão dele.
— Você não devia estar vivo para mostrar isso.
O sorriso de Henrique endureceu.
— Ainda não chegou a minha hora.
Ele olhou diretamente para Isadora.
— Você está mexendo em coisas que não entende. O passado não quer ser lembrado.
— Ou talvez você não queira. — ela rebateu.
Henrique se aproximou um pouco mais, ignorando completamente Caio.
— Se continuar, vai acabar como sua avó. Sozinha. Silenciada.
Antes que Caio reagisse, Isadora falou:
— Se isso foi uma tentativa de me assustar, chegou tarde.
Os olhos de Henrique brilharam com algo perigoso.
— Corajosa. Igual ao pai.
O nome caiu como uma lâmina.
— Vá embora. — Caio rosnou.
Henrique deu um passo para trás, ajeitando o casaco.
— Pensem bem. Santa Marina é pequena. O mar guarda segredos, mas também sabe engolir corpos.
Ele se virou, caminhando calmamente até a escuridão da rua.
A porta se fechou com força.
O silêncio que ficou era ensurdecedor.
Isadora começou a tremer.
Caio a puxou para os braços, apertando-a com força, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro.
— Ele cruzou um limite. — ela sussurrou.
— Sim. — Caio respondeu, o olhar duro.
— E agora não tem mais volta.
Ela se afastou um pouco, encarando-o.
— Ele sabe mais do que imaginávamos.
— E mostrou isso de propósito. — Caio disse.
— Quer que você tenha medo. Quer que duvide.
Isadora respirou fundo.
— Não vou parar.
O olhar de Caio se fixou nela, intenso, quase feroz.
— Então você não sai mais daqui sozinha.
— Caio
— Não discute. — ele disse, firme.
— Isso não é controle. É guerra.
Ela assentiu lentamente.
Quando Caio foi guardar a foto na gaveta, Isadora sentiu uma tontura súbita.
Apoiou-se na cadeira, fechando os olhos por um instante.
— Isa? — Caio se virou rapidamente.
— É só cansaço. — ela respondeu, tentando sorrir.
Mas ele não se convenceu.
Caio a observou em silêncio, atento demais aos pequenos sinais, a palidez, a mão no ventre, a respiração curta.
Algo ali não se encaixava.
Enquanto a noite avançava e o mar rugia distante, ambos sabiam,
a visita inesperada não foi apenas uma ameaça.
Fora o começo do cerco.
E o passado agora estava dentro da casa.