Capítulo Três

2180 Words
Carolina estava ansiosa. Mal conseguiu dormir de nervosismo na noite de domingo para segunda-feira. Ela tinha passado o final de semana à base de chá para se acalmar. Não era como se tivesse mentido sobre como sabia cuidar e adorava crianças, mas sim o medo de qualquer experiência nova a deixava apreensiva. Ela tinha plena convicção de que se sairia bem e, mesmo assim, a ansiedade a deixava com os cabelos em pé. No entanto, sabia que as coisas iam mudar a partir dali. Ela conheceria de fato um pouco da rotina do seu chefe, sua família — esposa e filhos —, era uma intromissão um tanto desconfortável para Carolina. Ela só esperava que fosse algo bom que surgisse dali. O que menos precisava era situações complicadas em sua vida. Mas ela não sabia a montanha russa que seria dali em diante. Ninguém poderia prever. Eram seis e duas da manhã e ela já tinha tomado banho e se arrumado. Estava devidamente pronta, a mochila com seus livros da aula da noite e o que precisaria para o trabalho na parte da tarde. Não era muita coisa, se pensar nas três ou quatros bolsas que sua mãe usava para sair em um dia normal. Carolina calculou o tempo que demoraria para chegar na Vila Olímpia de metrô. Romeu tinha falado que morava perto da estação, então levaria cinco minutos para caminhar — de acordo com seu chefe. E mais uns quinze minutos de uma estação a outra. Ela não queria chegar atrasada, mas também não queria ser muito adiantada, atrapalhando a dinâmica do seu chefe e a esposa de antes de trabalhar. Podia muito bem parar em alguma padaria no caminho e tomar um café na rua. A padaria — que também era uma confeitaria — perto da estação Campo Belo era a sua preferida, então era para lá que iria matar o tempo livre até chegar o horário de pegar metrô. Pensando no que iria comer, sonhando com a deliciosa rosquinha de leite condensado, Carolina quase saltitava para a padaria e com um sorriso enorme no rosto. Muitos poderiam julgá-la por essa felicidade em plena seis e meia da manhã, mas ela não ligava. Hoje era um dia especial: começaria em um novo emprego e teria a tão maravilhosa rosquinha. Seu café esfriava lentamente enquanto Pereira mexia no celular, tentando fazer com que os minutos passassem mais rápido, contudo, mais parecia que tinham parado no tempo. Uma mensagem brilhou no aparelho, piscando em azul a nova notificação que tinha chegado. Era Brenda lhe dando bom dia e desejando uma ótima manhã no novo emprego. Ela era uma fofa, Carolina amava aquela amizade. E Roger também não ficou para trás, mandando bom dia e sucesso no primeiro dia do novo emprego, junto com um monte de figurinhas — ele era doido por elas e muitas vezes só se comunicava por meio delas. O grupo de mensagens dos três era muito movimentado em vários momentos do dia, até mesmo de madrugada, às vezes — Brenda ficava até tarde trabalhando em seu portfólio. Então respondê-los por lá era mais fácil. Depois de algumas mensagens trocadas e muita risada interna, Carolina viu que os minutos que precisava tinham passado e que estava na hora de finalmente ir. Ela então terminou de tomar o café que também já tinha esfriado. Só demorou um pouco para pagar, o fluxo de pessoas que tiveram a mesma ideia que ela — comer antes de ir para o trabalho — era constante. E com a playlist mais ouvida em seu celular, Carolina entrou no metrô rumo a casa do seu chefe. Ao chegar no grande e estiloso prédio do endereço que Romeu tinha lhe passado por mensagem, Carolina mordeu os lábios — era um baita condomínio de gente rica. Era claro que estaria fora da sua zona de conforto por algumas semanas, até se acostumar cem por cento. No entanto, valia a pena entrar de cabeça nessa nova etapa de sua vida — sem contar que era mais do que necessário estar ali. Pereira ergueu a mão para tocar o interfone do portão de fora, era uma técnica de segurança em praticamente todos os prédios de São Paulo. Uma empresa ficava responsável por identificar e abrir os portões. Era extremamente seguro dessa forma. Até seu prédio tinha essa mecânica. Ela esperou que alguém respondesse, uma pequena onda de ansiedade subindo por sua garganta. — Como posso ajudar? — uma voz se pronunciou do interfone. — Oi! Gostaria de ir ao apartamento 12B — disse a loira, atrapalhando-se com as palavras. — Qual o seu nome? — Carolina Pereira. — Só um momento. — A linha ficou muda por alguns segundos enquanto a moça analisava os nomes liberados a subir para aquele apartamento. — Certo, senhora Pereira, está liberada. Um alívio surgiu em seus ombros, relaxando-a imediatamente. O medo de que talvez seu chefe tivesse esquecido que iria aparecer às sete e meia da manhã em sua casa para cuidar de seus filhos a inundou por um momento. Ia ser uma vergonha e tanto e nunca que Carolina iria ligar tão cedo para Romeu para lhe avisar que estava parada no portão do seu prédio. Ela preferia voltar para casa com o rabinho entre as pernas e fingir que nada tinha acontecido, era mais seguro. — Ah, muito obrigada — ela disse feliz, um sorriso enorme em seus lábios. Pereira abriu a primeira porta assim que o click apitou, liberando sua entrada e fez a mesma coisa com a segunda porta. Mas antes que fosse até o elevador, pegou seu celular para avisar o chefe que tinha chegado. E antes que pudesse guardá-lo na mochila, a resposta chegou em segundos. Certo! Estamos te esperando. Simples assim. Carolina seguiu para dentro, procurando os elevadores — e não foi surpresa nenhuma que eles fossem super tecnológicos. Haviam quatro, só permitindo que entrasse nele se digitasse o número do andar em um teclado na frente do primeiro elevador. Era igual ao que tinha na Culta, então não foi problema nenhum descobrir como aquilo funcionava. Subir até o andar certo foi mais demorado do que Carolina gostaria, aumentando um pouco o nervosismo. Ela queria muito que isso desse certo. Precisava desse dinheiro. Quando finalmente a porta do elevador abriu, não foi difícil achar o apartamento. Só tinham dois por andar. O apartamento 12B ficava na esquerda e com um suspiro, Carolina bateu na porta. Mas ninguém ouviu. Carolina tinha batido umas cinco vezes, na quinta vez mais forte do que as outras. Ela se recusava a apertar a campainha, já que a possibilidade dos gêmeos estarem dormindo era grande. Improvável, mas ainda assim não queria correr o risco. Ou eles se arrumando no quarto, que devia ser bem longe da porta de entrada, dando aquele apartamento enorme. Ou eles já tinham saído — o que não fazia sentido, Romeu tinha lhe respondido que estavam a esperando. A loira estava prestes a ligar para seu chefe, assim teria mais sucesso em sua chegada do que somente ficar parada igual uma pateta olhando para a porta. Engolindo a vergonha que a acometia, Carolina discou os números, apertando para ligar em seguida. Só tinha chamado três vezes quando a porta da frente se abriu, iluminando o corredor que já tinha ficado escuro devido a imobilidade dela e ao redor. — Merda! — A voz de quem tinha lhe descoberto soou alta e inesperada. — Vai assustar quem tem coragem. Carolina estava imóvel, os olhos arregalados de pavor com a aparição. Ela analisou o sujeito. Não era seu chefe, isso era um fato. Pereira nunca tinha ouvido seu chefe xingar daquela forma, nem mesmo uma palavra tão normal quanto merda. O cara a sua frente tinha os cabelos negros e lisos, olhos verdes escuros e covinhas nas bochechas. Ele lembrava bem Romeu, então devia ser seu filho mais velho. Usava uma camisa de banda de rock, calça jeans preta — combinando com a blusa — e nos pés um vans, também, preto. Nas costas, carregava uma mochila surrada — O que está fazendo aqui? — a pergunta tirou a loira de sua mente para prestar atenção no presente. — Está aqui para vender alguma coisa? Não acha que é muito cedo para isso? Eram tantas perguntas que Carolina se viu perdida e sem conseguir falar nada. — O gato comeu sua língua? Isso pareceu despertar por completo a loira. Uma certa raiva subindo por sua garganta. No entanto, ao invés de responder como queria aquele sujeito implicante, pensou bem antes de falar qualquer coisa. Estava ali para impressionar aquela família. Lembrando que realmente precisava daquele dinheiro. — Sou Carolina, vim cuid- — Pai! — ele gritou, cortando-a de imediato. — A babá chegou!! Carolina, educada até demais, engoliu a raiva, esperando que Romeu chegasse logo para interromper esse contato com seu filho. Ainda bem que não seria dele que cuidaria ou já tinha saído dali, nem todo o dinheiro do mundo a faria ficar ali — ela poderia arranjar qualquer outro emprego. O sujeito, que a loira ainda não sabia o nome, devido a raiva tinha esquecido como aquilo se chamava. E ele voltou a falar, já que o pai não dava sinais de que chegaria a qualquer segundo. — Dá próxima vez, não fique aí no escuro. Isso assusta as pessoas. Carolina piscou os olhos, aturdida. A verdade era que ela m*l tinha percebido que a luz tinha se apagado. Estava tão entretida em como faria para avisar ao chefe que tinha chegado que o menor de seus problemas era fazer com que a luz se acendesse de novo. E então o sujeito passou por si, indo em direção aos elevadores. A loira respirou aliviada, ele estava indo embora. A ideia de ter que suportar aquela criatura enquanto estivesse cuidando dos gêmeos lhe dava calafrios. Seria difícil trabalhar com um ser desse perturbando-a. Carolina olhou para dentro do apartamento, tentando ver se Romeu aparecia. Ela tinha chegado sete minutos adiantada, o que lhe dava certo conforto de que, caso algo acontecesse — como aconteceu —, ainda estaria no horário. O apito do elevador, avisando que tinha chegado, fez com que Pereira olhasse para lá, vendo o sujeito pronto para ir embora. — Até mais tarde, Carol. E se foi. — É Carolina. Mas aí ela se viu falando sozinha, pois a porta do elevador já tinha se fechado. Respirando aliviada mais uma vez, voltou sua atenção para o apartamento aberto à sua frente, permitindo-se observar o que podia dali de fora. A sala tinha dois sofás amarelos — uma grande e outro pequeno, sem contar as poltronas — que pareciam ser tão macios quanto um travesseiro bem fofinho. Tinha uma TV enorme no painel no meio da parede, com vídeo game, aparelho de DVD e outras coisas que dali onde estava não dava para identificar. Um corredor comprido tinha algumas portas. Dava até para ver a espaçosa varanda depois da sala. Dizer que seu chefe era rico era eufemismo, não era atoa que Romeu era o CEO da empresa onde trabalhava como estagiária. Ela só não sabia o que sua esposa fazia, mas devia ser algo do tipo. — Carolina! Pereira ouviu seu nome ser chamado, mas não tinha ninguém à vista. Tinha vindo de algum cômodo do apartamento e como ainda estava do lado de fora, foi difícil identificar de onde tinha vindo. Eram poucas as vezes que Carolina via seu chefe sem o seu famoso terno preto, que combinava tão bem com seu cabelo cacheado e ali estava ele com uma camisa branca, jeans azul escuro e descalço. Sem contar que seu cabelo ainda estava molhado, alguns pingos d' água caindo em sua camisa. Se a loira fosse tão descarada, seu queixo teria caído na hora, mas ela controlada, deixando apenas um arquejo saindo de sua boca, encantada com a imagem que via. — Bom dia! — ele disse, sorrindo. Quando chegou perto o suficiente, Carolina viu a barba por fazer e alguns fios brancos. O conjunto perfeito — Desculpe pela demora, eu estava na academia quando mandou a mensagem. Subi para tomar um banho rápido. Carolina ouviu o que ele falava, sem parar, muito comum do seu chefe e achou engraçado ele contando de sua rotina da manhã. Onde se não tomasse um banho gelado não funcionaria o restante do dia. Ela não entendia essa necessidade de água gelada, se dependesse dela, só tomaria banho com a água pelando de tão quente. — Sem problema, cheguei a pouco tempo — ela mentiu, não havia necessidade de contar que ficou há mais de cinco minutos parada em frente a sua porta. Romeu ergueu a sobrancelha e abriu um meio sorriso, como se não acreditasse naquilo, no entanto, não disse mais nada. Ele sabia que tinha demorado, não propositalmente, ainda assim, não julgava a loira por distorcer um pouco a verdade. Paiva sabia muito bem como fazer isso, fazia o tempo todo para agradar seus chefes quando era mais novo. — Perfeito — disse animado. — Venha, vou te mostrar a casa.
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