O nervosismo de repente tinha passado.
Romeu era tão carismático e alegre que qualquer conversa era animada.
Ele mostrou cada cômodo do apartamento, até mesmo sua suíte — rapidamente, onde sua esposa ainda se arrumava. Carolina ficou sem graça com a intromissão surpresa. Sorte que ela já estava vestida, estava apenas se maquiando.
— Desculpa — disse ela envergonhada.
— Não se preocupe, querida. Estou quase pronta. — Ela sorriu, passando blush nas bochechas.
A casa era extremamente grande, mais do que tinha imaginado. E o quarto dos gêmeos era uma gracinha. O tema do cômodo era um safári com animais nas paredes, animais de pelúcia, estampados nas cobertas, travesseiros e em quase tudo. Carolina achou tudo muito fofo.
Eles não eram recém nascidos, tinham um ano e oito meses. A melhor idade, na humilde opinião da loira. Eles ainda não falavam muita coisa, pelo que Romeu disse, mas estavam quase lá. Eles já falavam mama e papa, o que era bastante coisa na concepção da loira.
Quando Carolina chegou no quarto dos gêmeos, um cochilava e o outro olhava com aqueles grandes para o móbile no alto do berço. Ele tinha o pézinho esquerdo para cima, quase alcançando a boca.
— Eles são muito fofos.
— Não são? Ficam ainda mais quando estão dormindo. — Romeu ri baixinho para não acordar o outro que dormia suavemente. — O João é mais ativo, não é atoa que está quase comendo seu dedão e o Bernardo é mais quietinho.
Ainda bem que ele tinha identificado os dois, porque Carolina não tinha ideia de quem era quem. Agora que sabia, não teria mais problemas. João tinha o cabelo preto cacheado em grandes cachos definidos e o do Bernardo era mais liso e mais castanho, o que deixava claro que tinha puxado mais a mãe.
Carolina observava o gêmeo que dormia, parecendo um anjinho que tinha vindo direto do céu. E depois foi verificar o outro, que ainda se mantinha entretido com o móbile e seu pé. De alguma forma, saindo do transe, João se virou para a loira, que sorriu para o pequeno. Seu coração palpitou com o sorriso de dentinhos dele.
— Ele gostou de você — disse o chefe, colocando a mão no ombro da loira. — Já conquistou o coração dele. E olha que não é fácil ele gostar das pessoas assim não, hein.
Pereira se achou com essa afirmação, pelo menos seu trabalho tinha ficado dez vezes mais fácil agora.
— Venha, vou te mostrar onde ficam as coisas que vai precisar.
Carolina estava fascinada com os gêmeos.
E era apenas o primeiro dia com eles. João, o agitado, gostava de ficar no chão brincando com blocos ou engatinhando para todos os lados. Já Bernardo era mais manhoso, gostando de um colo sempre que podia.
Ela tinha duas tarefas agora pela manhã: alimentá-los com frutas amassadas e banho. O dia não estava frio, o sol brilhava lá fora, então não seria muita judiação banhá-los logo pela manhã.
Eram oito horas, o horário perfeito para começar a dar um café da manhã não muito pesado para eles, já que almoçariam antes dela ir embora, esperando fielmente que o filho insuportável mais velho do seu chefe chegasse no horário marcado. Não podia se dar o luxo de chegar atrasada no trabalho.
Mas antes tinha que dar banho nos dois. Então ela pegou os bebês, levando-os direto para o banheiro deles — sim, eles tinham o próprio banheiro. Quando ela criança tinha que dividir o banheiro com todo mundo da casa, isso era quase injustiça. Mas enfim, pegou João e Bernardo em cada braço e seguiu para a banheira — que facilitaria seu trabalho.
Eles tinham até mesmo boia de banho, que era claramente uma ajuda para quem tinha gêmeos. Por mais que eles já ficassem sentados, Carolina não podia arriscar, já que era a primeira vez que cuidava de gêmeos. Ela teve experiência suficiente com os primos pequenos, mas não eram dois de uma vez só, ainda mais da mesma idade.
Enquanto a banheira enchia, João brincava com o leãozinho e o porquinho de plástico, jogando água para todos os lados. E como ele se entretinha com os brinquedos, Carolina aproveitou para começar o banho com Bernardo. Ele brincava com o patinho, também de plástico.
Passar água nos cachos do Bernardo era como uma terapia e Carolina descobriu que ele tinha os olhos do pai. Além de ter o cabelo, os olhos e as covinhas eram completamente do Romeu. Já João tinha a energia do progenitor. Como a loira não conhecia a mãe deles, não poderia dizer o que eles tinham puxado dela — Pereira esperava conhecer Dona Roberta.
Com o João, foi um pouco mais difícil dar banho, por ele ser mais agitado, ele jogava água para todos os lados — muito mais do que Bernardo — e ria o tempo todo, o que era uma gracinha, se Carolina fosse analisar. O cabelo mais claro e liso era um charme todo para trás.
O melhor de tudo era passar e sentir o perfume de bebê. E em dose dupla? Perfeito! Não tinha como melhorar seu dia. Essas crianças eram tranquilas, comparado com seus primos — Deus me livre! —, divertidas e conversadeiras.
Com o banho tomado, roupa colocada e cabelo penteado, eles estavam prontos para comer.
Carolina colocou os gêmeos nos caldeirões, indo preparar as frutas amassadas. Seria um desafio dar comida aos dois ao mesmo tempo, por isso, decidiu dar para um de cada vez. Primeiro João, que era mais agitado e se entediava com facilidade e depois para Bernardo, que se entretia com um vídeo no tablet deles até chegar o seu momento.
— Olha que coisa mais gostosa, né, neném? — disse Carolina, a voz quase de criança. — Essa maçã tá tão docinha.
João pareceu entender o que ela falava e se juntou à conversa. Seus barulhos eram às vezes gritos, mas eram fofos.
— Você acredita que hoje é o meu primeiro dia com vocês e já estou amando?
A resposta que João deu foi a melhor impossível. Ele juntou os lábios e soprou o ar, rindo logo em seguida.
A vontade de ser mãe cresceu ainda mais. Ao pensar nisso, uma tristeza bateu porque estava ficando velha e sem vista de quando teria um relacionamento para isso acontecer. Se bem que nem precisava estar namorando para ter um filho, só que seria bem mais fácil, né?
Deixando esse pensamento de lado, Carolina focou em dar comida para Bernardo e, com ele ainda assistindo A Pequena Sereia — a Pereira se recusava a passar Galinha Pintadinha para os pequenos, era muito melhor passar Disney para eles — foi mamão com açúcar colocar as colheradas na boquinha dele.
E algo ocorreu a Carolina. Algo que devia ter pensado antes de ter dado banho nos dois. Eles tinham sujado a roupa praticamente toda.
— A tia fez besteira — disse ela fazendo careta para o Bernardo, que olhou para ela sem entender muito bem, já que estava vendo o filme. — Ela devia ter dado comida antes de banhar vocês.
João, que se entreteu no filme também, estava quieto e Carolina percebeu que passar Disney para eles tinha sido um sucesso. Mas quem é que gosta da Disney, não é mesmo? A Pereira riu, assustando Bernardo levemente.
— Desculpa, anjinho. — Ela se inclinou para dar um beijinho nele e para não deixar João com ciúmes, deu-lhe um beijinho também.
Depois de bem alimentados, estavam prontos para uma sonequinha.
Carolina teve que trocar a roupa deles, não podia deixá-los sujos como estavam e foi bom ter percebido isso, pois serviu de lição: banho só depois de comer.
— Quem quer dormir primeiro? — ela perguntou, olhando de um para o outro. — Bê? João?
João a olhou com os olhos verdes grandes, com o dedo na boca cheia de baba. Ela riu, voltando sua atenção para o outro, que já estava sonolento. Então, enquanto deixava João brincando no tapete, Carolina pegou Bernardo no colo para fazê-lo dormir.
Bastou apenas duas voltinhas para que Bernardo chegasse ao mundo dos sonhos. Carolina o levou para o quarto, colocando-o no berço. Verificou se ele continuaria dormindo por alguns segundos e voltou para a sala — era a vez do mais agitado.
— Você vai me dar trabalho, Joãozinho? — perguntou, pegando-o no colo. — Quer uma musiquinha?
João balbuciou alguma coisa que Carolina não entendeu, mas achou que ele concordou com a última pergunta. Ela o ajeitou no colo, coisa que ele não quis de início, então a loira se adequou ao empecilho: ele não queria ficar deitado. Deixou-o em pé, aconchegando-o perto do seu pescoço e começou a cantar baixinho uma música da Disney.
Aproveitou que eles estavam vendo A Pequena Sereia e foi dela mesmo que colocou suas cordas vocais em ação. Sorte a dele que ela cantava bem ou seria uma tortura para João.
Como Carolina tinha imaginado, com ele foi mais complicado para fazê-lo dormir. João toda hora levantava a cabeça, querendo ver ao redor, balançava os pés querendo sair do colo, mas ela não desistiu. Iria vencer essa fera.
Então Carolina começou a se balançar enquanto andava de um lado para o outro. Todo o repertório de música dos filme tinham acabado e nada dele dormir. Teve que apelar para outros filmes e as músicas que sabia de cor. Até que, depois de quinze minutos, João dormia com a boquinha aberta em seu colo.
Carolina ficou com medo de mexer qualquer músculo e ele acordar do nada, então continuou com ele no colo por mais cinco minutos para depois colocá-lo no berço.
Uma vez que eles dormiram, Carolina se voltou para a cozinha para arrumar a bagunça que estava nos pratos usados e para começar a fazer o almoço deles.
Na porta da geladeira tinha as refeições das crianças de cada dia. Segunda-feira era o dia de comer arroz com purê de abóbora e carne refogada. Para a sorte da loira, a carne e o arroz já estavam prontos, facilitando seu trabalho — e sua energia, porque não era uma boa cozinheira. Seus amigos que sabiam bem disso. Carolina vivia de Ifood ou das comidas do Roger, que cursava culinária — nada melhor para ele treinar suas receitas — e, bom, Brenda... cozinhava um pouquinho mais que a amiga, também sendo uma negação.
Então Carolina cozinhou as abóboras e fez um purê, terminando no exato momento em que o filho insuportável mais velho do seu chefe chegou.
— Isso é cheiro de almoço? — anunciou ele, deixando sua mochila em cima da bancada americana que dividia a cozinha da sala de jantar. — Não sabia que você também estaria encarregada disso.
Carolina revirou os olhos, sentindo uma certa raiva do que ele insinuava. Ainda bem que só seria paga para cuidar dos bebês de colo e não do bebezão mais velho. Ou pensaria em pedir um aumento, o que seria melhor.
Bom, não seria não, era melhor receber menos e ficar só com o Bernardo e o João.
— Se você fosse um bebê, teria um almoço pra você.
— Uh, ela morde — disse ele, colocando a mão no peito como modo de defesa. — Não quer ser minha babá também não, Carol?
— É Carolina! — ela resmungou, focada em amassar as abóboras que estavam na sua frente. — E nem se me pagassem cem milhões de reais.
— Nossa! — o moreno se sentiu ofendido. O que tinha feito para receber uma resposta dessas? Ele não sabia. — O que eu te fiz?
A resposta que Carolina queria dar estava na ponta da língua, mas não disse. Ela precisava desse emprego, então ficou quieta, apenas na missão de fazer um purê. No entanto, Eduardo não ficou satisfeito com o silêncio dela.
— O gato comeu sua língua? — perguntou, sorrindo com malícia. — De novo.
Carolina continuou quieta, concentrada no que fazia. Um certo desespero se acometeu nela quando foi se virar para ir até o outro lado da cozinha e encontrou o peito musculoso do seu chefe mais novo.
Eduardo estava parado de frente para a loira, notando a diferença de altura entre eles. Carolina, como ela dizia ser seu nome, ficava na altura do seu peito e, por mais que ele quisesse muito, ela não olhou para cima em nenhum momento.
Eles não se tocavam em nenhum lugar, a respiração dela estava irregular, mas não pelo motivo que Eduardo achava, ela estava tentando segurar sua raiva para socar o rosto perfeito daquele ser insuportável.
— Com licença — pediu educadamente, ainda sem olhar para ele. — Por favor!
Eduardo riu, saindo de fininho da frente dela, as mãos erguidas. E Carolina pôde respirar normalmente de novo. Ela seguiu para a geladeira, pegando o arroz e a carne. Estava pronta para montar o prato de almoço dos gêmeos quando se lembrou do que Romeu tinha lhe dito:
— Você está liberada quando o Eduardo chegar, ele tomará conta dos irmãos assim que tiver em casa.
E isso foi o suficiente.
Ela colocou o prato com o purê de abóbora na bancada, virando-se para ele com um sorriso no rosto.
— Que bom que você chegou, Edu — Carolina disse na maior falsidade, com um sorriso também falso nos lábios. E ela conseguiu ver a mudança na expressão do rosto dele, algo parecido com o deleite. — Agora que está aqui, posso ir embora.
Eduardo piscou os olhos algumas vezes, aturdido com o final inesperado da frase dela. No entanto, ele riu, achando graça da simpatia forçada dela. Ela seria divertida de ter por perto, disso ele teve certeza.
Ele a observou sair do raio de visão dele e esperou que ela voltasse. Carolina tinha ido ver como estavam os bebês e ao verificar que continuavam dormindo, despediu-se deles com um beijinho na cabeça de cada um — tomando o maior cuidado para não acordá-los.
Ao pisar na sala, viu que Eduardo ainda estava no mesmo lugar e, sem dizer mais nada, pegou sua mochila e saiu, fechando a porta atrás de si.
— Tchau, Carol!
É Carolina!
Carolina estava cansada.
E olha que ela não feito nenhum esforço físico, não daqueles que se fazem em academias, mas cuidar de gêmeos tinha lá seus esforços.
Ela constatou que já sentia falta do cheirinho de bebê deles e quase voltou para o apartamento do chefe. Porém, o insuportável ainda estaria lá e isso era algo que ela não queria ter que lidar, não no momento — ou em qualquer outro de sua vida.
Carolina olhou no relógio, constatando que já era meio dia e quarenta e cinco, um horário um tanto apertado para chegar na editora. E ela nem tinha almoçado ainda.
Mas também não teria tempo para isso, apenas um lanche da padaria ao lado da estação de metrô.
Por incrível que pareça, ela tinha esquecido que tinha que almoçar entre sair do apartamento do chefe e chegar na editora ou, no mínimo, comer algo na casa dele. No entanto, o insuportável apareceu e tirou qualquer chance de comer alguma coisa antes de sair. Não aguentaria mais nenhum minuto com ele lhe enchendo a paciência.
Agora seria responsabilidade dele dar comida para Bernardo e João. Tadinhos...
Com sorte, o caminho até a empresa foi silencioso e rápido. O salgado que comeu antes de entrar já tinha lhe enchido a barriga e de forma nada agradável. Ela tinha que se lembrar de embalar alguma salada antes de sair de casa ou teria sérios problemas ao comer sempre um salgado daqueles.
— O que aconteceu, querida? Chegou tarde hoje — Dona Regina perguntou, encontrando com ela no meio do caminho até sua mesa no meio do escritório. — Também não te vi na cozinha...
— Ela está cuidando dos gêmeos — uma voz grossa se pronunciou antes que Carolina pudesse abrir os lábios. — Como foi o primeiro dia?
Dona Regina ofegou, batendo palminhas de alegria.
— Que coisa boa!
— Foi tranquilo. Eles são umas gracinhas — ela disse, olhando para o chefe. — Não deram trabalho nenhum.
— Isso é bom demais, querida — a mais murmurou, apertando o seu ombro. — Eles são realmente uns docinhos.
— Espera até o final da semana, quero ver se sua fala continuará a mesma. — Romeu gargalhou, fazendo com que as duas também rissem. — 'Tô brincando.
— Tenho certeza que não será diferente, eles são bem tranquilos.
— O João tranquilo? Tem certeza de que estamos falando do mesmo bebê?
Carolina assentiu, convicta do que disse. Ela não falaria dos quinze minutos em que ficou andando de lá para cá, cantando quase todo o seu repertório de músicas da Disney, com ele até que dormisse. Isso, com certeza, não foi nada demais. No entanto, seus braços estavam praticamente dormentes de uma dor leve.
— Tudo bem, vou acreditar em você.
— O senhor devia mesmo! — disse ela, confiante. — Se tivesse conhecido meus primos quando eram bebês o senhor iria ter uma opinião totalmente diferente.
— Senhor? — ele praticamente não prestou atenção no que ela dizia, focando apenas na palavra "senhor". Olhando-a com os olhos semicerrados. — Já disse que pode me chamar de você.
— Vo-cê — Carolina falou em sílabas, tentando fazer com que isso se fixasse em sua mente. — Desculpa.
Romeu se desfez do pedido de desculpas com as mãos, como se não se importasse com isso, o que de fato não se importava.
— Vem, quero conversar com você antes do seu expediente começar — ele falou, quase a puxando pela mão até o seu escritório. — Vamos falar sobre seu salário.