Cláusulas Não Se Assinam com Amor

1685 Words
Eu não pedi o divórcio gritando. Não joguei coisas. Não fiz cena. A dor já tinha feito isso por mim. Arthur estava sentado à mesa quando falei. O mesmo lugar onde jantávamos todas as noites, como se ainda fôssemos um casal normal. O terno estava impecável, a gravata solta, o olhar atento demais para alguém que dizia me amar. — Eu quero sair desse casamento — disse, com a voz baixa. Ele ergueu os olhos devagar. Não parecia surpreso. Parecia preparado. — Não é assim que funciona — respondeu. Aquela frase foi o primeiro tapa. Não doeu de imediato. Doeu depois. — Eu não estou pedindo permissão — continuei. — Estou comunicando. Arthur apoiou os cotovelos na mesa, cruzou os dedos, inclinou o corpo para frente. O mesmo gesto que usava em reuniões quando alguém ousava contrariá-lo. — Damiana, você está emocionalmente abalada. Isso é compreensível. Mas decisões assim não se tomam nesse estado. — Eu estou lúcida — rebati. — Lúcida o suficiente para saber que não fico mais um dia ao seu lado. Ele sorriu. Não com ironia. Com pena. — Você fala como se tivesse escolha. Senti um frio subir pela espinha. — Sempre existe escolha. Arthur se levantou, foi até o aparador, serviu um copo de água. Bebeu com calma. Cada gesto dele era calculado para me desestabilizar. — Você assinou um contrato — disse, sem me olhar. — Um contrato de casamento — respondi. — Não uma sentença. Ele virou-se lentamente. — Você leu? A pergunta caiu como um peso. — Eu confiei. — Confiança não invalida cláusulas. Meu coração acelerou. Não por medo ainda. Por incredulidade. — Que cláusulas? Arthur puxou uma pasta da gaveta do aparador. Marrom. Grossa. Organizada demais para algo irrelevante. Colocou sobre a mesa, à minha frente, e abriu. — O acordo pré-nupcial — disse. — Registrado, validado, assinado por você, por mim e por dois advogados. Olhei os papéis. Reconheci minha assinatura. Cada curva. Cada traço. Mas não lembrava de ter lido aquilo daquela forma. — Você está dizendo que eu não posso sair? — Estou dizendo que sair tem consequências. — Financeiras? — perguntei. — Porque dinheiro não me prende. Arthur respirou fundo. Pela primeira vez parecia irritado. — Não seja ingênua. Ele virou algumas páginas e apontou um trecho. — Cláusula de permanência conjugal mínima. Você se comprometeu a manter o casamento por tempo determinado, salvo exceções específicas. — Traição não é exceção? — minha voz falhou. — Não quando há perdão tácito. — Eu nunca perdoei. — Continuou morando comigo. Dormindo na mesma casa. Isso é suficiente juridicamente. Senti o chão ceder. Não dramaticamente. Como quando o corpo entende antes da mente que caiu numa armadilha. — Você planejou isso — murmurei. Arthur fechou a pasta. — Eu protegi meus interesses. — À custa de mim. — À custa de tudo o que construímos. Ri. Um riso seco. — Você transou com minha irmã. — E você está grávida do meu filho. O silêncio se espalhou entre nós. — Isso não te dá o direito de me manter aqui — falei. — Dá responsabilidade — ele corrigiu. — E você sempre foi responsável. A raiva subiu, quente, urgente. — Você está me chantageando. Arthur se aproximou. Parou a poucos centímetros. — Estou te lembrando das consequências das suas escolhas. — Minhas? — apontei para ele. — Ou das suas? — Você escolheu ficar comigo depois de saber. — Porque estava destruída. — Ainda assim escolheu. O peso da manipulação começou a ficar claro. Não era apenas controle. Era narrativa. Ele estava reescrevendo tudo. — Eu não vou aceitar isso — falei. — Vou procurar meus advogados. Arthur sorriu de lado. — Eles também assinaram como testemunhas. Meu estômago revirou. — Quem mais sabe disso? — Minha mãe — respondeu. — E agora você. — Helena participou disso? — Helena entende que casamentos não são contos de fadas. Respirei fundo. Precisava manter a cabeça fria. — Então você vai me obrigar a ficar? — Eu vou te proteger de decisões impulsivas — disse ele. — Pelo bem do nosso filho. A palavra filho ecoou diferente. Não como amor. Como posse. — Não use meu corpo contra mim — falei. — Nosso corpo — ele corrigiu. — Nossa família. Afastei-me. — Eu não sou sua propriedade. Arthur voltou a sentar, como se a conversa estivesse encerrada. — Descanse — disse. — Amanhã conversamos melhor. — Não terminou — respondi. — Terminou por hoje. Saí da sala com as pernas trêmulas, mas a mente em alerta. Não era mais apenas traição. Era cárcere. No quarto, sentei na cama e encarei minhas mãos. Tremiam. Não de fraqueza. De contenção. Ele não me amava. Nunca amou do jeito que eu acreditei. Amava controle, imagem, domínio. E eu estava grávida. Coloquei a mão sobre o ventre, sentindo algo que ainda não era movimento, mas já era presença. — Eu não vou quebrar — sussurrei. — Ainda não. Do lado de fora, ouvi passos. Arthur parou diante da porta, mas não entrou. — Damiana — chamou, a voz mais suave. — Isso vai passar. Fechei os olhos. Não ia passar. Ia começar. E pela primeira vez desde a queda, entendi que sobreviver não seria fugir. Seria aprender a jogar. A pasta ficou sobre a mesa da sala o dia inteiro. Arthur não precisou dizer mais nada. O silêncio fez o trabalho por ele. Eu passei a manhã inteira fingindo normalidade. Tomei café, respondi e-mails do escritório, conversei com clientes por telefone. Tudo no automático. Por dentro, cada pensamento girava em torno da mesma pergunta: quando foi que ele deixou de ser meu marido e virou meu carcereiro? No início da tarde, Helena apareceu. Não avisou. Não perguntou. Simplesmente entrou, como sempre fez. Trazia a postura rígida de quem nunca se permite hesitar. O olhar avaliou a casa antes de pousar em mim. — Soube que vocês conversaram — disse, sentando-se. — Conversar não é a palavra — respondi. Ela cruzou as pernas com elegância ensaiada. — Arthur está tentando proteger a família. — A família ou o império? Helena sorriu de leve. — Para alguns homens, não há diferença. Arthur surgiu logo depois. A presença dele mudou o ar da sala. Sentou-se ao lado da mãe, como se aquela fosse uma reunião de negócios. — Damiana — começou —, precisamos esclarecer as coisas. — Já estão claras — rebati. — Vocês me prenderam num contrato. Helena inclinou-se para frente. — Você assinou por livre e espontânea vontade. — Eu tinha vinte e cinco anos — respondi. — Estava apaixonada. Não desconfiava que precisava de um advogado para casar. — Amor não exclui responsabilidade — ela disse. Arthur abriu a pasta novamente. — O acordo não é um castigo — afirmou. — É uma proteção mútua. — Proteção para quem traiu? — perguntei. — Proteção para o que construímos — ele insistiu. Peguei o papel das mãos dele. Li outra vez. Cada linha parecia mais c***l agora que eu entendia o alcance. — Se eu sair — falei devagar —, perco direitos financeiros, participação em projetos sociais, e qualquer apoio institucional da Alencar Group. — Exato — Arthur confirmou. — E não apenas isso. Levantei o olhar. — O que mais? — Há uma cláusula de confidencialidade — Helena explicou. — Você não pode expor assuntos internos da família ou da empresa. — Ou seja — concluí —, eu saio sem nada e calada. Arthur sustentou meu olhar. — Você sai se quiser. Mas não sai ilesa. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Vocês estão me forçando a ficar — falei. — Estamos te dando tempo — Arthur corrigiu. — Para pensar com clareza. — Pensar ou aceitar? Ele não respondeu. Senti o corpo cansar. Não era físico. Era a exaustão de lutar contra algo invisível. — E se eu me recusar? — perguntei. Arthur respirou fundo. — A disputa seria longa. Exposta. Dolorosa. E você está grávida. Helena assentiu. — Não é um ambiente saudável para uma criança. A palavra criança me atravessou. — Vocês usam meu filho como argumento — falei. — Isso é baixo. — Isso é realidade — Arthur rebateu. Levantei-me. — Eu preciso de ar. — Damiana — ele chamou. — Não encosta em mim. Saí da sala antes que ele dissesse mais alguma coisa. No quarto, fechei a porta e sentei no chão. A raiva veio em ondas. Depois o medo. Depois algo novo. Frio. Lúcido. Eu precisava entender aquele contrato melhor do que eles. Horas depois, Arthur bateu à porta. — Posso entrar? Não respondi. Ele entrou mesmo assim. — Eu não queria que fosse assim — disse. — Mas foi planejado — respondi. — Cada detalhe. — Eu queria segurança. — Você queria controle. Ele se aproximou devagar. — Damiana, eu sei que errei. Mas destruir tudo não vai te trazer paz. — Ficar também não. Ele ajoelhou à minha frente. — Nós podemos reorganizar as coisas. — Desde que eu obedeça. Arthur fechou os olhos por um instante. — Desde que você não fuja. — Fugir de você não é fuga — falei. — É sobrevivência. Ele se levantou, frustrado. — Você está emocional demais. — Não. — ergui o rosto. — Estou enxergando. Ele saiu sem dizer mais nada. Mais tarde, liguei para Miguel. — Você assinou como testemunha — falei assim que ele atendeu. Houve um silêncio do outro lado. — Damiana… — começou. — Eu não estou te acusando — interrompi. — Só preciso entender se existe saída. — Existe — ele respondeu. — Mas não rápida. Fechei os olhos. — Então eu vou precisar de tempo. — E estratégia — ele completou. Desliguei sentindo algo estranho. Não esperança. Consciência. Naquela noite, Arthur dormiu ao meu lado como se nada tivesse mudado. Eu permaneci imóvel, olhando o teto, sentindo o peso da escolha que não fiz. Ele acreditava que o contrato me segurava. Ainda não sabia que eu estava aprendendo a usá-lo contra ele. E, pela primeira vez desde que tudo ruiu, a ideia de esperar não me pareceu covardia. Pareceu inteligência.
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