Eu não pedi o divórcio gritando.
Não joguei coisas.
Não fiz cena.
A dor já tinha feito isso por mim.
Arthur estava sentado à mesa quando falei. O mesmo lugar onde jantávamos todas as noites, como se ainda fôssemos um casal normal. O terno estava impecável, a gravata solta, o olhar atento demais para alguém que dizia me amar.
— Eu quero sair desse casamento — disse, com a voz baixa.
Ele ergueu os olhos devagar. Não parecia surpreso. Parecia preparado.
— Não é assim que funciona — respondeu.
Aquela frase foi o primeiro tapa. Não doeu de imediato. Doeu depois.
— Eu não estou pedindo permissão — continuei. — Estou comunicando.
Arthur apoiou os cotovelos na mesa, cruzou os dedos, inclinou o corpo para frente. O mesmo gesto que usava em reuniões quando alguém ousava contrariá-lo.
— Damiana, você está emocionalmente abalada. Isso é compreensível. Mas decisões assim não se tomam nesse estado.
— Eu estou lúcida — rebati. — Lúcida o suficiente para saber que não fico mais um dia ao seu lado.
Ele sorriu. Não com ironia. Com pena.
— Você fala como se tivesse escolha.
Senti um frio subir pela espinha.
— Sempre existe escolha.
Arthur se levantou, foi até o aparador, serviu um copo de água. Bebeu com calma. Cada gesto dele era calculado para me desestabilizar.
— Você assinou um contrato — disse, sem me olhar.
— Um contrato de casamento — respondi. — Não uma sentença.
Ele virou-se lentamente.
— Você leu?
A pergunta caiu como um peso.
— Eu confiei.
— Confiança não invalida cláusulas.
Meu coração acelerou. Não por medo ainda. Por incredulidade.
— Que cláusulas?
Arthur puxou uma pasta da gaveta do aparador. Marrom. Grossa. Organizada demais para algo irrelevante. Colocou sobre a mesa, à minha frente, e abriu.
— O acordo pré-nupcial — disse. — Registrado, validado, assinado por você, por mim e por dois advogados.
Olhei os papéis. Reconheci minha assinatura. Cada curva. Cada traço. Mas não lembrava de ter lido aquilo daquela forma.
— Você está dizendo que eu não posso sair?
— Estou dizendo que sair tem consequências.
— Financeiras? — perguntei. — Porque dinheiro não me prende.
Arthur respirou fundo. Pela primeira vez parecia irritado.
— Não seja ingênua.
Ele virou algumas páginas e apontou um trecho.
— Cláusula de permanência conjugal mínima. Você se comprometeu a manter o casamento por tempo determinado, salvo exceções específicas.
— Traição não é exceção? — minha voz falhou.
— Não quando há perdão tácito.
— Eu nunca perdoei.
— Continuou morando comigo. Dormindo na mesma casa. Isso é suficiente juridicamente.
Senti o chão ceder. Não dramaticamente. Como quando o corpo entende antes da mente que caiu numa armadilha.
— Você planejou isso — murmurei.
Arthur fechou a pasta.
— Eu protegi meus interesses.
— À custa de mim.
— À custa de tudo o que construímos.
Ri. Um riso seco.
— Você transou com minha irmã.
— E você está grávida do meu filho.
O silêncio se espalhou entre nós.
— Isso não te dá o direito de me manter aqui — falei.
— Dá responsabilidade — ele corrigiu. — E você sempre foi responsável.
A raiva subiu, quente, urgente.
— Você está me chantageando.
Arthur se aproximou. Parou a poucos centímetros.
— Estou te lembrando das consequências das suas escolhas.
— Minhas? — apontei para ele. — Ou das suas?
— Você escolheu ficar comigo depois de saber.
— Porque estava destruída.
— Ainda assim escolheu.
O peso da manipulação começou a ficar claro. Não era apenas controle. Era narrativa. Ele estava reescrevendo tudo.
— Eu não vou aceitar isso — falei. — Vou procurar meus advogados.
Arthur sorriu de lado.
— Eles também assinaram como testemunhas.
Meu estômago revirou.
— Quem mais sabe disso?
— Minha mãe — respondeu. — E agora você.
— Helena participou disso?
— Helena entende que casamentos não são contos de fadas.
Respirei fundo. Precisava manter a cabeça fria.
— Então você vai me obrigar a ficar?
— Eu vou te proteger de decisões impulsivas — disse ele. — Pelo bem do nosso filho.
A palavra filho ecoou diferente. Não como amor. Como posse.
— Não use meu corpo contra mim — falei.
— Nosso corpo — ele corrigiu. — Nossa família.
Afastei-me.
— Eu não sou sua propriedade.
Arthur voltou a sentar, como se a conversa estivesse encerrada.
— Descanse — disse. — Amanhã conversamos melhor.
— Não terminou — respondi.
— Terminou por hoje.
Saí da sala com as pernas trêmulas, mas a mente em alerta. Não era mais apenas traição. Era cárcere.
No quarto, sentei na cama e encarei minhas mãos. Tremiam. Não de fraqueza. De contenção.
Ele não me amava. Nunca amou do jeito que eu acreditei. Amava controle, imagem, domínio.
E eu estava grávida.
Coloquei a mão sobre o ventre, sentindo algo que ainda não era movimento, mas já era presença.
— Eu não vou quebrar — sussurrei. — Ainda não.
Do lado de fora, ouvi passos. Arthur parou diante da porta, mas não entrou.
— Damiana — chamou, a voz mais suave. — Isso vai passar.
Fechei os olhos.
Não ia passar.
Ia começar.
E pela primeira vez desde a queda, entendi que sobreviver não seria fugir.
Seria aprender a jogar.
A pasta ficou sobre a mesa da sala o dia inteiro.
Arthur não precisou dizer mais nada. O silêncio fez o trabalho por ele.
Eu passei a manhã inteira fingindo normalidade. Tomei café, respondi e-mails do escritório, conversei com clientes por telefone. Tudo no automático. Por dentro, cada pensamento girava em torno da mesma pergunta: quando foi que ele deixou de ser meu marido e virou meu carcereiro?
No início da tarde, Helena apareceu.
Não avisou. Não perguntou. Simplesmente entrou, como sempre fez. Trazia a postura rígida de quem nunca se permite hesitar. O olhar avaliou a casa antes de pousar em mim.
— Soube que vocês conversaram — disse, sentando-se.
— Conversar não é a palavra — respondi.
Ela cruzou as pernas com elegância ensaiada.
— Arthur está tentando proteger a família.
— A família ou o império?
Helena sorriu de leve.
— Para alguns homens, não há diferença.
Arthur surgiu logo depois. A presença dele mudou o ar da sala. Sentou-se ao lado da mãe, como se aquela fosse uma reunião de negócios.
— Damiana — começou —, precisamos esclarecer as coisas.
— Já estão claras — rebati. — Vocês me prenderam num contrato.
Helena inclinou-se para frente.
— Você assinou por livre e espontânea vontade.
— Eu tinha vinte e cinco anos — respondi. — Estava apaixonada. Não desconfiava que precisava de um advogado para casar.
— Amor não exclui responsabilidade — ela disse.
Arthur abriu a pasta novamente.
— O acordo não é um castigo — afirmou. — É uma proteção mútua.
— Proteção para quem traiu? — perguntei.
— Proteção para o que construímos — ele insistiu.
Peguei o papel das mãos dele. Li outra vez. Cada linha parecia mais c***l agora que eu entendia o alcance.
— Se eu sair — falei devagar —, perco direitos financeiros, participação em projetos sociais, e qualquer apoio institucional da Alencar Group.
— Exato — Arthur confirmou. — E não apenas isso.
Levantei o olhar.
— O que mais?
— Há uma cláusula de confidencialidade — Helena explicou. — Você não pode expor assuntos internos da família ou da empresa.
— Ou seja — concluí —, eu saio sem nada e calada.
Arthur sustentou meu olhar.
— Você sai se quiser. Mas não sai ilesa.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Vocês estão me forçando a ficar — falei.
— Estamos te dando tempo — Arthur corrigiu. — Para pensar com clareza.
— Pensar ou aceitar?
Ele não respondeu.
Senti o corpo cansar. Não era físico. Era a exaustão de lutar contra algo invisível.
— E se eu me recusar? — perguntei.
Arthur respirou fundo.
— A disputa seria longa. Exposta. Dolorosa. E você está grávida.
Helena assentiu.
— Não é um ambiente saudável para uma criança.
A palavra criança me atravessou.
— Vocês usam meu filho como argumento — falei. — Isso é baixo.
— Isso é realidade — Arthur rebateu.
Levantei-me.
— Eu preciso de ar.
— Damiana — ele chamou.
— Não encosta em mim.
Saí da sala antes que ele dissesse mais alguma coisa. No quarto, fechei a porta e sentei no chão. A raiva veio em ondas. Depois o medo. Depois algo novo. Frio. Lúcido.
Eu precisava entender aquele contrato melhor do que eles.
Horas depois, Arthur bateu à porta.
— Posso entrar?
Não respondi. Ele entrou mesmo assim.
— Eu não queria que fosse assim — disse.
— Mas foi planejado — respondi. — Cada detalhe.
— Eu queria segurança.
— Você queria controle.
Ele se aproximou devagar.
— Damiana, eu sei que errei. Mas destruir tudo não vai te trazer paz.
— Ficar também não.
Ele ajoelhou à minha frente.
— Nós podemos reorganizar as coisas.
— Desde que eu obedeça.
Arthur fechou os olhos por um instante.
— Desde que você não fuja.
— Fugir de você não é fuga — falei. — É sobrevivência.
Ele se levantou, frustrado.
— Você está emocional demais.
— Não. — ergui o rosto. — Estou enxergando.
Ele saiu sem dizer mais nada.
Mais tarde, liguei para Miguel.
— Você assinou como testemunha — falei assim que ele atendeu.
Houve um silêncio do outro lado.
— Damiana… — começou.
— Eu não estou te acusando — interrompi. — Só preciso entender se existe saída.
— Existe — ele respondeu. — Mas não rápida.
Fechei os olhos.
— Então eu vou precisar de tempo.
— E estratégia — ele completou.
Desliguei sentindo algo estranho. Não esperança. Consciência.
Naquela noite, Arthur dormiu ao meu lado como se nada tivesse mudado. Eu permaneci imóvel, olhando o teto, sentindo o peso da escolha que não fiz.
Ele acreditava que o contrato me segurava.
Ainda não sabia que eu estava aprendendo a usá-lo contra ele.
E, pela primeira vez desde que tudo ruiu, a ideia de esperar não me pareceu covardia.
Pareceu inteligência.