A n***a continua encarando a ruiva, que enxugava as mãos com o pano de prato. Os olhos negros encaram os amarelados de Luana, que fica séria, não por estar com raiva ou zangada, mas porque aquele é seu jeito, sempre sério, com sorrisos de lado que Anita começa a perceber que serão sua perdição naqueles dois meses.
- Não, ela não sabe.
- Interessante. Porque ainda não contou?
- Olha, não me olhe assim. Sinceramente, estou muito surpresa por ter uma pessoa como você aqui dentro de casa, morando com ela, e ela está agindo com tanta tranquilidade. Eu tinha uma amiga na escola, da qual tínhamos um caso, e se escutasse os comentários dela, claro que nada tão f**o, mas ainda assim eu podia notar o teor de julgamento. Cresci com isso em mente, me assumir era como decepcioná-la. E porque diabos estou te falando tudo isso? _ Anita respirou fundo e passou a mão no cabelo, saindo da frente da ruiva e caminhando para perto da geladeira onde pega a garrafa com água.
- Eu não estou te julgando, só é estanho pensar na tia Angel agindo dessa forma.
- Acredite, ela é de fato um anjo, mas tem lá suas crises.
- Posso imaginar, meu pai deu duro para conquistar aquele coraçãozinho.
Ambas sorriram e então a conversa se tornou leve, calma. O assunto se assumir não voltou, pelo menos não por parte de Anita, pois Luana falou de como sempre teve aquele jeito machinho, o que proporcionou a menor a encarar seu corpo mais uma vez, agora ela usa um short de moletom, deixando as pernas expostas.
- Se você continuar me olhando assim com certeza não será mais um segredo.
- Desculpa, mas eu realmente quero correr o risco.
- Ah, é? _ Luana olha para o lado, para confirmar que os dois mais velhos estão longe, então se aproxima e chega o rosto perto do ouvido da outra, curvando um pouco seu corpo para alcançar, pois Anita é menor. – Está mesmo disposta a correr o risco?
- Unhum...
Anita morde o lábio inferior, sentir a outra tão perto é arriscado e bom, ah, sim, é bom. O corpo é grande como se a n***a pudesse sentir os músculos de Luana contra seus dedos. Ela poderia esperar muitas coisas nesse natal, mas esse com certeza é um belo presente.
- Perigosa, mas... _ A mais nova morde a pontinha da orelha da outra, essa que solta um suspiro, quase um gemido. – Não vai rolar. _ Então se afasta.
- O que? _ Anita está ofegante e confusa.
- Olha... Não vou mentir, te achei gata para c****e, mas você é a filha da tia Angel, eu não vou fazer isso na casa dela.
- Esse é o problema? Podemos sair daqui. _ Luana sorri da rapidez da n***a em falar.
- Até depois, Anita.
Então sai, deixando a menor de boca aberta e mais confusa ainda. Era apenas aquele motivo? Respeito à sua mãe? Nesse momento Anita nem pensou nisso, pois transou muito em seu quarto em dias que sua mãe viajava por algum motivo, ou que tinha oportunidade em desculpas de estudar, não importa, o que ela sabe é que não está mesmo pensando em respeitar a casa da sua mãe, essa que ela já usou e abusou.
- Ah, esse natal será maravilhoso.
Sorri ao dizer, observando a ruiva virar o corredor para os quartos. Suspira e resolve fazer um cronograma para essas férias, e no seu topo estava: provocar Luana.
..........*****..........
Luana chega até seu quarto e se encosta na porta. Isso só deveria ser brincadeira com ela. Não bastasse a garota ser a querida da sua tia, da qual tinha que tratar bem e com respeito, também tinha que ser aquela baita gata.
- Oh, m***a.
Vai para perto da cama e senta, passa a mão pelos fios curtos da cabeça e suspira. Desde os seus doze anos Luana já entendia bem sua essência. Sua mãe, quando notou as tendências da menina, não tardou em mandá-la morar com o pai aos treze anos, desde então ela não larga do homem, apesar de sempre viajar para onde a mãe, mesmo que sempre soubesse da sua oposição ao seu jeito.
Sônia sempre teve um jeito autoritário, um dos motivos pelo casamento com Gustavo não ter dado certo. A mulher de quarenta e cinco anos, advogada, queria também mandar nos passos do ex marido, ela não gostava de morar em Goiânia, sempre almejou muitas coisas maiores, o que conseguiu ao passar no concurso público, agora ela está muito acima do que sempre sonhou, ela é juíza em uma cidade pequena do Estado do Rio, mas nem essa satisfação profissional foi suficiente pra entender o jeito diferente que a filha tem.
Orgulha-se por Luana ter passado na faculdade Federal de Goiás para Engenharia mecânica, o que aliviou um pouco o clima estranho que elas ficavam quando se viam. Com o tempo Sônia ia tentando lidar com sua menina, está sendo lento, mas agora elas têm um bom convívio, tanto que todo ano Luana vai visitar sua mãe no mês de julho ou às vezes em dezembro, onde a mulher tem férias, mas mesmo que as coisas estejam bem, Luana nem pensa em morar de novo com a juíza.
Agora, mais do que uma mulher bonita lhe dando mole, ela tem uma mulher bonita que parece muito com sua mãe no jeito mandão e até visionário. Admira Anita por ter arriscado tudo e ido para outro Estado fazer o que queria. O que difere ela de Sônia é a vontade da n***a em voltar para casa, já a juíza nem pensa em retornar para o lugar.
- Eu estou ferrada.
Joga-se para trás e passa a mão na testa. Ao fazer isso lembra-se do sorriso de Anita, de como seu corpo pequeno se encaixaria em seus braços, em como poderia segurá-la, levantá-la, carregá-la, dominá-la, manuseá-la com delicadeza com suas mãos firmes...
- Ah, inferno.
Ela estava respirando com dificuldade, porque a verdade é que pensar naquelas coisas a estava excitando. Gosta de mulher, não, mais que isso, ela admira, ama, cuida, idolatra as mulheres. Ama suas curvas, suas forças, determinação, independência, talvez por isso, apesar de seus pais não estarem juntos, ela não consegue sentir remorso da mãe, pois Sônia tinha todas essas características.
Fecha os olhos para dissipar os pensamentos, mas ela não consegue parar de pensar em Anita e em como se sentiu atraída assim que viu a mulher pela primeira vez. O fato de ela ser mais velha a torna mais sexy. Estava quase caindo novamente na armadilha da sua mente quanto escuta batidas em sua porta.
- Entra. _ Ela diz ao controlar sua respiração e sentar, então ver seu pai adentrar no cômodo.
- Você vai para a oficina?
- Não, tenho a última aula hoje. A galera está querendo ir a um barzinho para comemorar as férias de vez.
- Você poderia levar Anita, quer dizer, se ela quiser, afinal a viagem foi longa, mas faça o convite, tem algumas pessoas da faculdade que estudou com ela antes.
- Ah... Claro, vou convidar. _ A ruiva sorri forçadamente.
Gustavo assente e então sai. Luana que já estava achando difícil se manter firme em ficar longe de Anita, percebe que será muito complicado tendo a garota evidentemente interessada nela, com aquele sorriso s****o e que deixava claro sua vontade em se entregar, apesar de parecer querer muito o controle.
- E ela ainda tinha que ser lésbica. Ai, meu Deus.
Diz ao se jogar de novo contra o colchão. E aquele ainda era o primeiro dia.
..........*****..........
Anita mandou mensagem para Samuel assim que chegou ao quarto. Não mentiu quando disse que estava mesmo com saudade do amigo e do lago da fazendo de seus pais. Passou grande parte da sua adolescência naquele lugar, de onde desfrutou de muito prazer com garotas. Seu primeiro beijo com uma foi na margem do lago, Bárbara... A linda loira que lhe mostrou muitas coisas novas na vida.
Sente saudade dos seus antigos amigos, das suas aventuras, de como os mais íntimos acobertavam suas loucuras, inclusive Samuel que sempre sorria de Angélica quando a mulher questionava se eles namoravam tamanho era o grude dos dois.
Assim que deita na cama e se encosta na cabeceira, recebe resposta do amigo, sorri ao ver a foto do seu perfil. Ele de braços abertos em frente ao lago, usando apenas sunga.
- Bela b***a. _ Diz para si mesma antes de ler a sua resposta.
“Não acredito que já está na cidade e não me avisou! Sua ingrata, eu te proíbo de entrar em minha casa agora”
A garota sorri, mas logo responde.
“Proibi nada, quem manda aí é a tia Ana Júlia. Mas então, como estão todos?
“Muito bem, A mesma vida pacata de sempre. E você, agora garota da cidade grande”
“Que nada, ainda sou a mesma garota de sempre. Mas fico feliz que estão todos bem! Eu cheguei hoje cedo, estou me adaptando novamente, vou ficar dois meses, teremos tempo”
“Cara, isso é muito bom. Mas agora me fala, você já viu sua irmã?”
A mensagem chegou junto de muitos emojis sorrindo. Anita faz uma careta e revira os olhos.
“Ah, seu canalha, você não me disse nada. Ela é gostosa demais, cara, todos aqueles músculos, aquele jeito durão, aquelas vestimentas largas, e aquele sorriso misturado à pele morena e o cabelo vermelho. p***a, Samuca, eu tô ferrada, eu quero tanto dar para ela”
O garoto do outro lado, sentado no sofá da casa, gargalha, pois sabe exatamente o que sua amiga está sentindo, até ele fica afetado pelo jeito de Luana, e olha que ele é muito hétero.
“Eu sabia que você ia pirar. Quando a vi pela primeira vez pensei logo em tu. Faz completamente o teu gosto. Queria muito ter visto tua cara quando chegou em casa. E você já viu a moto? Imagina só você nela com essa b***a enorme para cima e agarrada à cintura dela? Ai, até fiquei e******o agora”
Anita não pode deixar de imaginar a cena. Agora ela passou a ter outra prioridade, realizar aquela vontade que passou por sua mente, de preferência com Luana usando aquela jaqueta de couro marrom que a viu naquela manhã.
“Eu vou dar para essa garota, não tem jeito. Mas acredita que ela me deu um fora?”
“Olha, vou te dar um conselho. Pelo pouco que conheço dela e pelo que falam, Luana é muito na dela, não gosta de multidão, bebe pouco, tem total atenção na faculdade e oficina, ela sabe tudo sobre carros e motos. E mais... Ela respeita demais o pai e tia Angélica. Então, vai com calma. Ela tem esse jeitão, mas é uma garota calma, para falar a verdade nunca nem a vi com alguém, apesar de sua sexualidade ser bem evidente.
Anita pensou no que o amigo disse. Ela também já percebeu isso. Luana é o tipo de garota certinha, que agrada os pais e faz de tudo para andar na linha, e d***a, aquilo para ela é terrivelmente atrativo.
“Pode deixar, mas não posso negar, estou atraída demais por ela”
“Você vai deixar a coitada doidinha. (Emojis sorrindo) Mas sério, vamos marcar para vir aqui”
Depois disso a conversa se passou para a possibilidade da visita e de como suas vidas mudaram. O rapaz começou a estudar administração, Anita sabe que é mais por seu pai, que o quer no comando dos negócios em breve, mas Samuel não liga, desde que continue tendo suas mordomias. Ela estava concentrada na conversa quando escutou batidas em sua porta, autoriza a entrada e logo ver o lindo corpo da garota entrar no cômodo, o que lhe faz entrar em total alerta.
- Oi, hum... Alguns amigos meus vão sair hoje, gostaria de saber se quer ir? _ Luana pergunta meio sem jeito devido o que aconteceu antes, mas logo recebe um sorriso s****o da outra, com certeza serão dois longos meses resistindo a essa tentação.
- Você está me convidando para sair?
- O que? _ Anita se aproxima, fazendo a outra ficar inquieta.
- Você sabe que não vai resistir por muito tempo. Eu também sei jogar esse jogo. _ Então a mais velha se afasta. – Mas sim, eu gostaria de sair com você. Aproveito para ir ao centro e ver se encontro alguns amigos.
- Ah... Claro. E... O Samuel...
- Estava falando com ele agora.
- Ele também vai.
- Ótimo, assim você pode curtir sua noite sem se preocupar comigo. Que horas?
- As vinte e uma eu venho te buscar.
- Perfeito. E obrigada pelo convite.
Luana assente e sai o mais rápido possível. Ela não sabe onde está se metendo, mas vai fazer de tudo para evitar. Além de ter as muitas complicações já citadas, Anita vai ficar apenas dois meses. Quer voltar, mas pelo que já escutou da madrasta, ela também tem propostas de emprego para continuar em São Paulo, e Luana com certeza não é uma mulher de aventuras.
Já a menor sorri ao ver a outra saindo rapidamente. Já sabe como jogar com Luana, vai vencê-la pelo cansaço, e a melhor parte vai ser cansá-la. Porém agora mais que nunca ela está pensando em outra coisa.
- Será que vamos de moto?
Esse era o seu maior desejo no momento.