O tempo passou tão rápido, e estava tudo tão bom, que quando eu fui ver já estava na hora de eu ir buscar a Júlia no colégio.
- Nossa, eu esqueci de buscar a minha irmã na aula.
- Posso ir com você? – Perguntou Roberto.
- Acho melhor não, a Ju morre de ciúmes dos meus amigos, mas algum dia, quem sabe.
Pude perceber que Roberto havia ficado um pouco chateado.
- Ah não fica assim, não. Um dia eu deixo você ir comigo.
- Olha que eu vou cobrar. – Ele disse.
- Ok!
Dei um beijo no rosto do Roberto, e ele foi para a sua casa, e eu para o colégio buscar a Ju, que já havia soltado a uns dez minutos e estava na pracinha brincando com as suas novas amigas. Chamei ela, e ela veio correndo, foi o caminho todo me contando como o seu dia na nova escola havia sido maravilhoso, e estava super empolgada que havia aprendido a tabuada de multiplicação do dois, e ainda foi me falando.
Chegando em casa, dei um café para a Ju, e em seguida ela foi ver desenho, e eu fiquei conversando pelo celular com o Roberto. Adorava ouvir a sua voz, adorava o jeito dele falar comigo, de me tratar, de fazer eu me sentir especial, e principalmente adorava o jeito dele ser.
- Posso ir aí brincar com você e a sua irmã? – Ele me perguntou.
Percebi naquele momento, que eu não conseguiria esconder por muito tempo a Ju dele.
- Ah, ela está vendo desenho agora.
- Por favor, Tamires. Eu estou começando a achar que o problema sou eu, o que foi? Tem vergonha de me apresentar pra sua família? – Roberto me perguntou.
- Ok, você pode vir, mas vem daqui uns dez, quinze minutos.
- Está bem, como você quiser.
Desliguei, e comecei a criar coragem para contar tudo a Ju. Ela era muito pequena, e acho que não entenderia muito bem o que estava acontecendo, mas torcia muito para que ela compreendesse e não falasse nada para o Roberto.
Ju estava vendo Monster Higth quando eu cheguei perguntando se ela sabia guardar segredo.
- Claro! – Disse Ju desligando a TV.
Expliquei que ninguém poderia saber daquilo, e muito menos papai, mamãe e o Roberto. Ju me prometeu que não contaria nada pra ninguém, e queria saber qual era o segredo tão misterioso que eu tinha.
- Lembra daquele meu amigo, o Roberto? – Eu perguntei.
- Claro, o que tem ele?
- Antes de eu ficar amigo dele, eu percebi que ele só andava com as garotas, e não tinha amigos meninos.
- E o que tem isso? – Me perguntou Julia.
- E aí quando eu passei a ficar amigo dele, eu me passei por garota.
- O quê? Você ficou maluco?
- Acho que sim. Agora o Roberto quer vir aqui em casa brincar com a gente, por isso resolvi te contar a verdade.
- E como você disse que se chamava?
- Tamires. Então na frente dele você deve me chamar assim, ou de mana, pode ser? – Eu perguntei.
Será que Ju iria me ajudar nessa? Será que ela havia entendido tudo direitinho ? Agora era esperar o Roberto chegar e torcer muito para dar tudo certo.
- Posso contar com você, então? – Eu perguntei.
- Claro, deixa comigo. – Disse Ju sorrindo
E de repente a campainha tocou, meu coração quase saiu pela boca só de pensar que algo poderia dar errado.
- Deve ser ele, eu vou abrir a porta, e você já sabe, perto do Roberto eu me chamo Tamires e sou tua irmã, capiche?
- Capiche. – Disse Julia.
Dei um beijo na testa dela, e fui abrir a porta. Era o Roberto mesmo, estava todo estiloso, bem arrumado como sempre, e ele sorriu ao me ver, com o mesmo sorriso de sempre, um sorriso impossível de não se apaixonar.
- Oi. Entre! – Eu disse.
Roberto entrou, e aguardou eu fechar a porta. Nisso chegou a Ju.
- Deixa eu tentar adivinhar, você é o Roberto, amigo da minha irmã, acertei? – Perguntou Ju para o Roberto.
- Bingo! – Ele respondeu brincando.
- Eu me chamo Julia, tenho oito anos e amo essa minha irmã, linda ela, né? Ai eu também acho. O que você gosta de fazer? Ai eu gosto de ver desenho, ir pro colégio, ah a minha matéria preferida é português, adoro fazer historinha, e também gosto muito de brincar de boneca com a minha mana. Você tem irmãos? Eu tenho só ela de irmã, mas por mim tá ótimo, porque ela é a melhor irmã do mundo, e a gente se dá muito bem, sabia?
Roberto ficou todo sem graça, Ju não calava a boca, e fazia algumas perguntas sem dar tempo dele responder, fiquei até sem jeito por ele também.
- Deu Ju. – Eu disse interrompendo ela.
- Ai deixa eu conversar com o seu amigo, eu gostei dele, e aproveita que não é sempre que isso acontece.
- Que fofa a sua irmã! – Disse Roberto.
- Ai, obrigada. Você é muito bonito, sabia?
- Obrigado, você também é muito bonita, uma verdadeira princesinha. – Disse Roberto ficando da altura da Ju.
- Fico feliz que vocês tenham se dado bem. – Eu disse.
Fomos então para o quarto da Ju e ficamos brincando ali mesmo. Jogamos vídeo game, brincamos também que o Roberto era o papai, eu a mamãe, e Ju a filhinha, e por sinal foi muito divertido. Vimos um filme, o nome parece que era Ponte Para Terabítia, o filme preferido da Ju (que não era desenho). Já estava anoitecendo, resolvi então fazer uma lasanha que a minha mãe havia deixado. Depois de nós três jantar, Roberto ficou mais um pouco conosco. Ju e ele já estavam bem amigos, o que me deixava bem feliz, e para minha alegria, ela não deu nenhuma mancada, fez tudo conforme o combinado.
Alguns minutos depois, Roberto se despediu de mim e da Ju, e foi embora. Fechei a porta de casa, e fui agradecer a Ju por ela não ter contado a verdade. Cheguei no quarto dela, e ela já estava deitada. Deitei ao seu lado, e ela deitou sua cabeça sobre o meu braço esticado.
- Ele é legal. Porque você está mentindo pra ele? Você não é menina. – Disse Ju.
- Eu sei.
- Então porque não conta a verdade pra ele?
- Eu não posso. Não consigo. Sabe antes de eu ficar amigo dele, eu pude perceber que o Roberto só anda com as garotas. Fiquei com medo dele não querer ser meu amigo se soubesse a verdade. – Eu disse.
- Ele é gente boa. Aposto que entenderia, e continuaria sendo teu amigo.
- Ju, eu prometo que um dia eu contarei a verdade a ele, mas no momento certo. Enquanto isso você pode brincar com a gente, mas só se souber guardar esse segredo, e não falar a verdade pra ele, e pros nossos pais.
- Eu prometo! – Ela disse.
Acho que a Ju não tinha entendido muito bem o que estava acontecendo, nem eu não entendia muito, quanto mais ela que era menor. Não estava gostando muito de ter que colocar a minha irmãzinha nessa mentira que eu havia inventado, mas foi o jeito que eu havia encontrado.