- Desculpa! Desculpa! Desculpa! – Eu disse.
Não conseguia parar de repetir aquilo, e quando eu percebi já estava chorando de tanto soluçar. E de repente uma lágrima minha caiu no rosto dele, e como um passe de mágica, ele abriu os olhos sem eu perceber.
- Hey, está chorando ? - Ele me perguntou meio surpreso em me ver.
Ao ouvir aquilo, meu coração novamente se encheu de alegria, então eu sorri, e disse:
- Desculpa, é que você é o meu melhor amigo.
Ele sorriu, e disse que de todas as amigas dele, eu era a que ele mais gostava, e ao ouvir aquilo, eu percebi que mesmo querendo eu não conseguiria ficar mais tempo longe dele.
- Pensei que você não falaria mais comigo, já que você agora tem uma nova amiga. - Disse o garoto meio chateado.
- Me desculpa, prometo que eu nunca mais faço isso. Sabe, a Alice é legal, mas é uma garota, e você é menino, e sabe eu ainda sim prefiro você.
Ele sorriu como se estivesse surpreso, e ainda disse que ficou com muito medo de perder a minha amizade, é, acho que isso não seria possível.
- Você nunca vai me perder, seu b****a. - Eu disse brincando.
Ele apenas deu um leve sorriso, e eu fiz o mesmo. Então eu perguntei se ele estava melhor, e ele disse que havia melhorado ao me ver.
No dia seguinte, Roberto saiu do hospital, e tudo voltou a ser como antes. Passamos a brincar novamente como antigamente. Fui em sua casa e vi o vídeo game que ele quis me mostrar outro dia quando recusei seu convite para sair com a Alícia. Ficamos jogando um pouco, eu, ele, e o Guilherme, o irmão dele, que por sinal comigo ele foi bem legal, embora não se desse muito bem com o Beto.
Algumas horas depois, o Guilherme acabou saindo com a sua namorada, e o pai e a madrasta do Beto estavam trabalhando, e assim ficamos com a casa só pra nós, jogamos mais um pouco de videogame, e depois ele chamou uma tele pizza, comemos algumas pizzas deliciosas, e jogamos muita conversa fora, estava tudo incrível, eu amei cada segundo.
Então ele pediu pra eu dormir na sua casa, liguei rapidamente para a minha mãe e pedi permissão para ela, que acabou deixando. Fui para minha casa, peguei alguns pertences meus, e voltei para casa dele. Vimos um filme de terror super legal, e depois um de comédia, comemos pipoca com refrigerante, e demos altas risadas, até cairmos no sono.
Lá pelas tantas da madrugada, chegou a madrasta e o pai do Beto, eles nos acordaram, mandando a gente ir dormir no quarto.
- Onde eu vou dormir, Beto? - Perguntei.
- No meu quarto, é claro. - Ele me respondeu.
- No seu quarto? - Eu perguntei.
- É, ou vai dizer que está com vergonha por a caso? Não se preocupe que eu não mordo. - Ele me disse.
Eu sorri, e fui até o banheiro trocar de roupa e escovar os dentes. Dalí fui direto para o quarto dele, e lá estava ele sentado em sua cama com perna de índio, e apenas de bermuda.
- Nossa, você sempre dorme assim? - Eu perguntei.
- Não, só quando está muito quente, mas se você se incomoda, eu posso colocar uma camisa. - Ele disse gentilmente.
- Não, você está na sua casa, se é assim que você dorme... - Eu disse dando de ombros.
Ele sorriu, e foi para a cama que eu iria dormir, sentou do meu lado, e começou a me contar que ele sofria constantes maus tratos por meio da sua madrasta.
- Ela me odeia, sabe? Nunca aceitou o fato deu ser filho da ''outra'' como ela sempre diz, isso sem falar que a Margarida já chegou a me dizer que quer que eu morra.
- Ai que horror! Ela me parecia ser tão legal. E você nunca contou para o seu pai? - Perguntei.
- Não, ele ama muito ela, e meu pai sofreu tanto com a morte da minha mãe, que eu não teria coragem de dar mais essa decepção a ele, mas é h******l viver aqui com ela. - Ele disse cabisbaixo.
- E você nunca pensou em ir embora daqui?
- Mas ir pra onde? Essa é minha única família, eu não tenho mais para onde ir.
- Se você quiser, a gente podia fugir juntos.
- Você fugiria comigo? - Ele perguntou meio surpreso.
- Claro. - Eu respondi com um leve sorriso.
Estava decidido, iríamos fugir na madrugada seguinte. Confesso que eu estava com um pouco de medo, não queria deixar os meus pais e a minha irmã, mas eu estava louco por uma aventura, e ainda mais junto do Roberto.
Ele ficou me observando durante algum tempo, parecia estar pensando em algo, ou talvez estivesse. Ai meu Deus! E se ele descobrisse a verdade? E se ele percebesse que na verdade eu era um garoto? Pensei mais uma vez, e resolvi tirar essa ideia da minha cabeça. Ficou um silêncio no ar, e pouco tempo depois, ele me disse
- Você é linda!
- Obrigado! - Eu disse meio nervoso.
Estava morrendo de medo de que ele tentasse me beijar, eu nunca tinha beijado ninguém antes, nem menina, e muito menos menino, e pelo jeito que ele me olhava.... E se de fato ele tentasse me beijar? Será que eu aceitaria ou não? Éramos crianças, eu tinha apenas dez anos, e ele onze, eu não entendia disso, e creio que ele também não, mas como sempre tem a primeira vez pra tudo, o medo tomou conta de mim.