Capítulo 7. A namorada Imaginária

1128 Words
  Marcelo estava na sala de aula, quase vazia, caderno aberto, resolvendo rapidamente as questões. Esperava que o fato de estar estudando mantivesse as pessoas afastadas. Mas seu melhor amigo tinha outros planos. — Você está namorando? — Pergunta de Edgar fazia sentido. Ninguém falava em outra coisa na escola. E quase ninguém resistia a uma fofoca fresquinha. — Com uma prima sua. — Foi a resposta seca de Marcelo. — Paixão fulminante que escondi nos últimos meses. Confirme quando perguntarem. O gigante estava concentrado na tarefa que o professor do primeiro horário deixou.  Exatamente para evitar conversa profundas. Muitos acreditavam que ele usava o intervalo entre as aulas para fazer as tarefas para otimizar seu tempo no basquete. Besteira: ele entrou no time de basquete exatamente para ter o que fazer na escola. Muitas vezes, bastava ouvir a explicação do professor, ou fazer uma leitura rápida sobre o conteúdo, para aprender sobre o tema. De fato, Marcelo era autodidata e se havia uma distorção série/idade nos estudos, foi por que entrou na escola um pouco tarde: o menino começou a ter educação formal aos nove, diretamente na segunda série, porém, foi alfabetizado em casa, e ao entrar na turma, já lia e escrevia com fluência. Pela vontade das professoras e do próprio Marcelo, ele teria avançado algumas séries, mas o pai era contra. — Chegará o momento em que você, se quiser, poderá pular etapas, mas não agora. Não pense que na escola você vai aprender apenas o que está nos livros, não, isso você poderia fazer em casa. Lá você vai conhecer todos os tipos de pessoas e se for esperto, vai tirar proveito disso. E o pai, como sempre, estava coberto de razão. Na escola ele aprendeu como a maioria das pessoas valorizavam apenas o que você tinha e não quem você era. Apesar de saber que até havia algumas meninas que realmente gostavam dele, aceitava que só se tornou atraente para a maioria delas nos últimos anos. — Isso é coisa do Chaveiro, não é? — Edgar perguntou. Sabia que o pai do amigo não queria que ele namorasse com as moças da cidade. Mesmo sabendo que ele já havia ficado com metade da população feminina da cidadã, com idade entre os dezesseis e quarenta anos. — Ele acredita que agora que sou um bom partido, estou na mira de algumas princesinhas e de seus familiares. Ele não quer que eu comprometa. Você sabe que nos últimos dois anos, passamos a ser alvo do interesse de muita gente, alguns querem entrar na grana do meu pai de qualquer jeito. Claro que Edgar sabia. Ele assistiu de muito perto a forma como o amigo e seu pai eram tratados quando acreditavam que eram pobres. — Então agora você namora uma prima minha? Preciso de detalhes da história. Suas fãs me emboscaram no corredor do segundo andar e eu não soube o que dizer. Marcelo riu e olhou em volta antes de sussurrar. — Conheci nas férias do meio do ano e quero um compromisso sério com ela. Estamos namorando desde então. Então voltou a se concentrar na tarefa, mas Edgar não desistiria tão fácil. — Quer dizer que minha prima imaginária colocou uma coleira no Gigante? — Romântico, não? — Essa minha prima tem nome? — Camila. — Marcelo parou de escrever e olhou para o amigo. — Não fode, cara. — O outro fez uma careta. — Desculpe, mas quando a Vanessa me emboscou eu não tive muito tempo para pensar. Foi o nome que escapou. — Mas logo a Camila? — Ah, cara, ela nem é sua prima de verdade. Então pode parar. Mas Edgar não ia parar, ele estava muito incomodado com aquele namoro hipotético. — Você é afim da Camila? — Pelo amor de Deus, ela tem a idade da Beth. É uns quatro anos mais nova que eu. Não força. — Ela é muito bonita. — Ela é. Principalmente para você, que tem uma queda por ela, mas para mim, é só mais uma criança. —Ela tem quinze, quase dezesseis. — Eu não estou afim dela, ok? E essa história vai ser só mais uma história quando eu me mudar. — Acha que seu fã clube vai ser impedido por uma namorada? — Não, mas eu tenho uma desculpa perfeita para dizer não. — Poderia dizer apenas que não está afim. — Poderia, mas elas insistiriam em saber o motivo. Dou o motivo e esqueço o assunto. Estou apenas pulando etapas desagradáveis. Além do mais, já imaginou a confusão que vai ser se descobrirem que meu pai não quer que eu ande com as moças da cidade? — Acho que seria a lei do retorno. Por anos, essas pessoas proibiram seus filhos e filhas de andarem com você. — Isso é verdade, mas não há motivos para eu fazer inimigos desnecessariamente.  Principalmente inimigas. Deixe pensarem que eu encontrei alguém que balançou meu coração, assim ninguém sai com o ego ferido. — A Camila. — Esquece esse assunto.   Naquele fim de tarde, quando Marcelo saía da quadra, algumas meninas o aguardavam. Era tarde, o colégio já estava fechado e ele não esperava como um ataque em bando. — Boa tarde, meninas. — Soube que você foi fisgado. — Jessica, uma paquera ocasional do Gigante foi a primeira a atacar. Na verdade, aparentemente, diversas garotas estavam irritadas com o fato de estar em um namoro sério. Era engraçado principalmente por que no começo, elas que queriam esconder o rolo que tinha com ele. Houve um tempo em que ninguém queria ser vista namorando o filho de um Chaveiro. — Pois é. Todo mundo um dia se apaixona. Chegou a minha vez. — Uma prima do Edgar? — Uma outra perguntou. — É. Uma garota muito doce. A gente ficava quando eu ia visitar o pai dele. Meio que todo mundo sabia e aprovava. Agora que decidimos assumir, a família está muito feliz. — O que ela tem de tão especial que ninguém mais tem? — Tudo. Nada. As coisas não são tão simples. A gente sempre se gostou. Ela nunca teve vergonha de estar ao meu lado, mesmo quando todos pensavam que meu pai era muito pobre. Foi um golpe bem dado. O rapaz podia sentir o constrangimento que seus comentários promoveram. — Enfim, fiquem feliz por que ter encontrado uma pessoa que me ama por mim mesmo. — Isso é algum tipo de vingança? — Jéssica perguntou, do grupo, era a mais ousada. — Vingança? Eu não motivo para me vingar por nada. Estou apenas apaixonado e decidir ser fiel. A Camila merece isso. — Você nunca quis namorar sério. — Errado, eu deixei de querer namorar quando percebi que a maioria das garotas tinha vergonha de falar comigo em público.        
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