Capítulo 93

1050 Words
A Manhã do Cuidado A luz da manhã entrou devagar pela janela, filtrada pela cortina clara que Lúcia escolhera com tanto carinho quando a casa ainda cheirava a tinta nova. Não era uma luz invasiva, mas suave, como se respeitasse o que tinha acontecido ali na noite anterior. A casa parecia respirar em outro ritmo. Adrian acordou primeiro. Ficou alguns segundos parado, olhando o teto, sentindo o peso bom da responsabilidade e da felicidade juntas. O corpo estava cansado, mas a mente estava desperta. Virou o rosto com cuidado e viu Lúcia dormindo ao seu lado. O cabelo espalhado pelo travesseiro, o rosto sereno, como se finalmente tivesse encontrado um lugar seguro até nos sonhos. Ele sorriu sozinho. Levantou devagar, com o cuidado de quem não quer acordar alguém precioso. Pegou a camisa no encosto da cadeira, vestiu-se em silêncio e saiu do quarto fechando a porta com delicadeza. A primeira coisa que fez foi ir até o quarto de Samuel. O pequeno dormia tranquilo, o peito subindo e descendo num ritmo calmo. Adrian se aproximou do berço e ficou ali alguns instantes, observando. Ainda se emocionava ao pensar que aquele menino tinha mudado tudo. Ajustou a mantinha, passou a mão de leve na cabecinha e conferiu a fralda. Estava seca. Ainda assim, trocou, por garantia, como já tinha aprendido a fazer com segurança. — Bom dia, campeão — sussurrou. — Papai já está cuidando de tudo. Samuel mexeu a boquinha, como se respondesse, e voltou a dormir. Na cozinha, Adrian começou a preparar o café da manhã. Não era nada sofisticado, mas era feito com atenção. Colocou água para esquentar, separou o pão, a manteiga, frutas cortadas com cuidado. Preparou um chá mais leve e também o café, porque sabia que Lúcia gostava de sentir o cheiro pela casa, mesmo que não tomasse naquele momento. Antes de levar a bandeja, foi até o armário do banheiro e pegou o remédio que o médico havia orientado. Ele sabia que, mesmo com todo o cuidado, Lúcia poderia sentir dores. Não era algo que ele encarava com naturalidade — ele levava a sério. Colocou o comprimido ao lado de um copo de água e respirou fundo. Quando voltou ao quarto, abriu a porta com suavidade. Lúcia já estava acordada, sentada na cama, os cabelos presos de qualquer jeito, o lençol puxado até o peito. Olhou para ele com um sorriso tímido, ainda carregado de emoções. — Bom dia — disse ela, com a voz baixa. Adrian sorriu daquele jeito que só ela conhecia. Aproximou-se e beijou-lhe a testa. — Bom dia, princesa. Ela respirou fundo, como se estivesse se ajustando ao novo dia. — Você acordou cedo… — comentou. — Eu sempre acordo cedo — respondeu ele, brincando. — Mas hoje eu tinha missões importantes. Ele colocou a bandeja sobre a mesinha ao lado da cama. — Café pra você — disse. — E antes que reclame, não aceito devolução. Lúcia riu, um riso leve, mas logo fez uma careta discreta quando tentou se mexer um pouco mais. Adrian percebeu na mesma hora. — Está doendo? — perguntou, já se sentando ao lado dela. — Um pouco… — respondeu, sem drama, mas sincera. Ele pegou o copo com água e o remédio. — Eu imaginei. O médico disse que era normal. Toma isso primeiro, depois come. Lúcia pegou o copo da mão dele. — Você pensou em tudo… — Eu pensei em você — corrigiu, sério. Ela tomou o remédio e devolveu o copo. Adrian ajeitou os travesseiros atrás dela, ajudando-a a ficar mais confortável. — Não precisa levantar hoje — disse ele. — Nada de heroísmo. — Eu não sou heroína — respondeu ela, sorrindo. — Só teimosa. — Eu sei — ele riu. — Mas hoje você vai obedecer. Enquanto ela comia um pouco, Adrian ficou ali, observando, como se quisesse memorizar aquele momento. Não havia pressa, não havia cobrança. Apenas presença. De repente, o choro de Samuel ecoou pelo corredor. Lúcia fez menção de se levantar, mas Adrian foi mais rápido. — Nem pensar — disse, já se levantando. — Eu cuido. — Adrian… — ela começou. — Lúcia — ele interrompeu, com firmeza suave. — Hoje é meu turno. Ele foi até o quarto do bebê e voltou pouco depois com Samuel no colo. O pequeno estava acordado, os olhos claros atentos ao movimento. — Olha só — disse Adrian, aproximando-se da cama. — Ele já quer saber por que a mamãe ainda está na cama. Lúcia estendeu os braços, mas Adrian balançou a cabeça. — Só um pouquinho — disse. — Primeiro a mamãe termina o café. Samuel parecia calmo nos braços do pai. Adrian trocou a fralda, preparou a mamadeira com a precisão de quem já tinha prática, testou a temperatura e começou a alimentá-lo, sentado na poltrona do quarto. Lúcia observava tudo em silêncio, os olhos marejados. — O que foi? — Adrian perguntou, percebendo o olhar. — Nada… — respondeu ela. — É só que… eu nunca imaginei alguém cuidando assim de mim. De nós. Ele levantou os olhos para ela, sério. — Eu imaginei — disse. — Desde o dia em que você entrou na minha vida. Depois que Samuel terminou de mamar e voltou a dormir, Adrian o colocou no berço novamente. Voltou para o quarto e sentou-se ao lado de Lúcia. — Como está agora? — perguntou. — Melhor — respondeu ela. — O remédio já está ajudando. Ele segurou a mão dela, entrelaçando os dedos. — Se doer mais, você me fala. Se ficar triste, você me fala. Se tiver medo… — ele parou por um instante. — Você me fala. Lúcia assentiu. — Eu confio em você — disse, com firmeza. — Eu sei — respondeu ele, beijando-lhe a mão. — E eu honro isso todos os dias. A manhã seguiu tranquila. A casa acordou aos poucos, como se respeitasse o novo equilíbrio daquela família. Adrian cuidou de tudo: do café, do bebê, de Lúcia. Não como obrigação, mas como escolha. E enquanto o sol subia no céu de Formosura, Lúcia tinha certeza de uma coisa: aquela manhã, simples e silenciosa, era a prova de que a noite anterior não tinha sido apenas um momento — tinha sido o começo de uma vida construída com cuidado, amor e presença.
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