REBECA
A porta bateu atrás dele com um estrondo que parecia explodir dentro da minha cabeça. Fiquei ali, sentada no chão da sala, com as lágrimas escorrendo devagar, misturadas com a dor que parecia me rasgar por dentro. O silêncio depois daquela despedida foi mais alto do que qualquer grito poderia ter sido.
Eu segurava a barriga, que já começava a aparecer, e sentia aquele pequeno ser mexendo como se soubesse do que estava acontecendo. Era como se ele ou ela tentasse me dar força, um motivo para continuar mesmo quando eu achava que tudo estava perdido.
As horas seguintes foram um turbilhão de pensamentos e emoções. A dor da rejeição, o medo do futuro, a solidão apertando como um nó na garganta. Mas, no meio disso tudo, também nasceu uma chama de determinação. Eu não podia me entregar, não podia me deixar vencer. Eu precisava ser forte. Pela gente.
Pensei na minha mãe, na minha irmã, no morro que, apesar de tudo, ainda era meu lar. Levantei-me com esforço, enxuguei o rosto e fui buscar ajuda. O amor da minha família, os olhares preocupados, as palavras de conforto foram como bálsamo para a minha alma machucada.
Cada dia passou lento, mas eu fui encontrando forças em pequenos gestos: preparar uma comida, sentir o bebê se mexer, conversar com amigas que estavam ali para escutar. Não foi fácil – a ausência dele era um vazio imenso que parecia querer me engolir.
Mas eu descobri algo que ele talvez nunca entendeu: a força que uma mulher carrega quando está sozinha, mas por dentro inteira.
Foi um caminho duro, cheio de dúvidas e lágrimas, mas eu nunca deixei de acreditar que a vida podia ser melhor. Que o futuro do meu filho, daquela vida que crescia dentro de mim, merecia mais do que o silêncio e o abandono.
E foi assim que comecei a reconstruir minha história no silêncio das noites difíceis, na coragem de um sorriso tímido, no amor que me fazia seguir mesmo quando o mundo parecia desabar.
(....)
Dias depois.....
Os dias se arrastavam como se cada minuto fosse um teste. Quando ele foi embora, deixando só a dor e aquelas palavras que ecoavam na minha cabeça – como se eu fosse o problema, como se tudo que a gente viveu não tivesse valido nada – eu achei que ia desabar.
Mas eu não desabei.
Acordei no dia seguinte com os olhos inchados e o travesseiro ainda molhado de choro. Fiquei alguns minutos olhando pro teto, com uma mão na barriga e a outra segurando o resto de mim. Lembrei das palavras dele, do tom frio, da forma como ele me mandou embora da vida dele. Aquilo me quebrou.
Mas meu filho... meu filho me segurava. Cada batida do coraçãozinho dele era um sussurro dizendo: vai, mãe, não para agora.
Desci pro café da manhã na casa da minha mãe, e ela já sabia – claro que sabia. As mães têm esse dom de adivinhar, de sentir sem a gente falar nada. Me abraçou em silêncio, um abraço forte, apertado, e sussurrou:
- Você é mais forte do que pensa, filha.
Eu precisava ouvir aquilo.
As vizinhas olhavam. Algumas com pena, outras com curiosidade, outras com aquele olhar que eu odiava: julgamento. No morro, todo mundo sabe da vida de todo mundo. E todo mundo sabia que eu era "a mulher do Veneno". Agora, eu era só "a grávida que foi largada".
Mas quer saber? Eu parei de me importar. Parei de tentar explicar. Quem queria entender, entenderia. Quem não quisesse... paciência.
Passei a ocupar meu tempo com coisas que me faziam bem. Comecei a ajudar minha mãe com as vendas que ela fazia pela internet, organizei o quartinho que antes seria nosso e agora seria só do bebê, e voltei a desenhar. Fazia anos que eu não rabiscava nada, mas de repente, os desenhos viraram meu refúgio.
Desenhava o que sentia. Desenhava meu filho. Desenhava a dor.
Teve dias em que a saudade dele me esmagava. Lembrava do cheiro, da voz, da forma como ele segurava minha mão quando eu tinha crise de ansiedade, dos planos que fizemos. E me perguntava: ele realmente me amou? Ou era tudo mentira?
Mas nessas horas, eu olhava pra minha barriga e lembrava que, independentemente de tudo, o que ele me deixou foi o maior presente da minha vida. E que, com ou sem ele, esse filho seria amado.
Um dia, voltando do pré-natal, parei na pracinha pra tomar um ar. Sentei no banco, cansada, segurando uma garrafinha d'água e minha agenda. E foi ali que encontrei o Tião. Um tiozão do morro, ex-parceiro do Veneno de outros tempos, que tinha virado pastor depois de perder o filho pro tráfico.
Ele sentou do meu lado, calado, me olhou e disse:
- O Veneno te ama, mas tem medo. Medo de perder. Medo de amar e se ferrar com isso. Homem criado no crime é assim, Rebeca... coração vira arma.
Fiquei em silêncio, tentando segurar o choro. Eu sabia que o Tião não tava falando aquilo por acaso.
Ele completou:
- Não tô defendendo ele, não. Só tô dizendo que você merece paz. E que a paz começa dentro de você.
Aquilo me acertou como uma flecha.
Voltei pra casa e, naquela noite, escrevi uma carta pro meu filho. Escrevi tudo que eu tava sentindo. Escrevi sobre o pai dele, sobre a dor, sobre o medo e sobre o amor. Disse que, quando ele crescesse, ia entender que às vezes a vida não segue o roteiro. E que, mesmo assim, ele foi gerado com amor.
Dobrei o papel, coloquei numa caixinha com os ultrassons e fechei. Era o meu jeito de não esquecer, mas também de não me perder naquela história que machucava tanto.
As semanas passaram, e a barriga crescia. O bebê chutava forte. Às vezes, eu acordava assustada de madrugada e punha a mão na barriga, e ele chutava como se dissesse: "tô aqui, mamãe." E isso me bastava.
Aos poucos, fui me reconstruindo.
Com lágrimas, com dor, mas também com fé. A fé de que tudo ia se acertar. De que o que fosse verdadeiro voltaria no tempo certo. Ou não.
Mas que, no fim, eu teria a mim mesma inteira.