Dante
A noite estava quieta demais. No mundo em que vivo, o silêncio raramente significa paz. Ao contrário, é o prelúdio do caos. Eu estava no terraço da Villa Rossi, olhando para as luzes de Palermo, a cidade que meu pai governou com mãos de ferro e carisma até sua morte. Agora, aquele peso estava sobre mim. Don Dante Rossi. O título ainda era novo, mas o poder, esse sempre esteve em minhas veias.
Giuseppe, meu consigliere e o homem mais confiável ao meu lado, surgiu na porta com passos silenciosos. Ele carregava um olhar preocupado, o que nunca era bom.
— Dante, temos um problema, — ele disse, direto como sempre.
— Diga, Giuseppe. — Virei-me para ele, acendendo um cigarro com calma. A fumaça sempre ajudava a mascarar a tempestade dentro de mim.
— Informações de última hora. Os Caruso estão se movendo. Parece que planejam algo grande.
Caruso. O nome me fez ranger os dentes. Eles sempre foram um espinho no lado da nossa família, mas desde a morte de meu pai, tinham se tornado mais ousados.
— Movendo-se onde? — perguntei, soltando uma lufada de fumaça no ar.
Giuseppe hesitou por um momento, o que não era de seu feitio.
— Temos indícios de que querem atacar aqui, na villa.
O riso escapou de mim antes que eu pudesse evitar. Não um riso de humor, mas de incredulidade.
— Eles têm coragem de atacar a casa dos Rossi? Acham que podem me intimidar com isso?
Giuseppe aproximou-se, a expressão grave.
— Dante, não subestime o desespero deles. Desde que assumiu, você os enfraqueceu. Isso é um ato de desespero, mas homens desesperados são os mais perigosos.
Assenti lentamente, ponderando suas palavras. Ele tinha razão. No xadrez, um rei encurralado ainda pode causar estragos antes de cair.
— Chame os homens. Quero a villa protegida. Ninguém entra ou sai sem minha ordem.
— Já está sendo feito. Mas, Dante... e se isso for uma distração?
Olhei para ele, os olhos estreitos.
— Explique.
— Se eles nos fizerem concentrar aqui, podem atacar em outro lugar. Nossos armazéns no porto, talvez.
Giuseppe sempre pensava além do óbvio. Era isso que o tornava indispensável.
— Envie homens para o porto também. Mas quero atenção redobrada aqui. Se os Caruso vierem para a villa, quero que saiam em sacos plásticos. Entendido?
Ele assentiu e saiu para executar as ordens. Eu permaneci ali, encarando a cidade. A fumaça do cigarro se dissipava no ar noturno, mas a tensão não.
***
Pouco depois da meia-noite, ouvi o som. Primeiro, foi um estalo distante, algo que só alguém acostumado à violência reconheceria. Depois, gritos e o eco de tiros.
— Estão aqui! — um dos homens gritou ao invadir o salão onde eu estava.
Levantei-me imediatamente, pegando a pistola que sempre estava ao alcance da mão. Giuseppe apareceu logo atrás dele, com uma escopeta nas mãos.
— Eles vieram mesmo. Mais de uma dúzia, pelo menos, cercando a propriedade.
— Cretinos, — murmurei. — Acham que podem entrar na casa dos Rossi como ratos? Vamos mostrar a eles o erro.
Fomos para o corredor principal, onde nossos homens já estavam em posição. Os Caruso não tinham sutileza, mas vinham com força. Estavam tentando quebrar as janelas e forçar a entrada pelas portas laterais.
— Segurem a linha! Não deixem nenhum bastardo passar! — gritei, enquanto tiros ecoavam pelo salão.
Giuseppe posicionou-se ao meu lado, disparando com precisão. Cada movimento dele era calculado, eficaz.
— Dante, estão tentando flanquear pela esquerda!
— Leve quatro homens e proteja aquele lado! Eu cuido daqui.
Giuseppe hesitou por um momento.
— Tem certeza?
— Você me conhece, Giuseppe. Não sou tão fácil de derrubar. Vá.
Ele assentiu e saiu correndo, levando os homens com ele.
A luta era feroz. Os Caruso haviam trazido bons atiradores, mas os Rossi eram leais e bem treinados. Cada centímetro da villa era defendido como se fosse o próprio coração da família.
No meio do caos, vi um homem tentando invadir pelo salão principal. Ele parecia ser um dos líderes do ataque, gritando ordens aos outros. Mirei nele e puxei o gatilho sem hesitar. O som seco do disparo foi seguido por seu corpo caindo pesadamente.
— Alguém mais quer brincar? — gritei, a voz cheia de desafio.
Os Caruso hesitaram, mas apenas por um momento. Eles eram muitos e estavam determinados.
— Don Rossi!
Virei-me para ver Giuseppe voltando, com sangue no rosto, mas sem ferimentos graves.
— A ala esquerda está segura. Mas eles trouxeram reforços. Precisamos reagrupar.
— Então vamos dar um fim a isso, Giuseppe. Vamos mostrar que quem desafia os Rossi paga o preço.
Ele sorriu, um sorriso frio e cheio de determinação.
— Sempre ao seu lado, Dante. Sempre.
A batalha continuou por quase uma hora, mas lentamente, a vantagem começou a virar para o nosso lado. Os Caruso, percebendo que não poderiam nos derrotar, começaram a recuar.
Enquanto eu caminhava pelo salão principal, agora cheio de marcas de tiros e sangue, vi um dos homens deles ainda vivo, ferido no chão. Aproximei-me, a arma em mãos, e ajoelhei ao lado dele.
— Quem enviou você? — perguntei, minha voz baixa, mas cheia de ameaça.
Ele cuspiu no chão, o olhar cheio de ódio.
— Você sabe quem. Don Caruso vai acabar com você.
Sorri, mas não havia humor naquele gesto.
— Diga a ele que estou esperando. E que, da próxima vez, traga mais homens. Vai precisar.
Levantei-me e, sem hesitar, puxei o gatilho.
Giuseppe veio até mim, limpando a escopeta.
— O que fazemos agora?
Olhei ao redor, para o estrago, para os homens que haviam lutado e morrido por mim naquela noite.
— Reforce a segurança. Quero mais homens aqui e no porto. E mande uma mensagem para os Caruso. Quero que saibam que hoje foi apenas o começo. Eles atacaram meu lar, Giuseppe. Agora, eu vou destruir o deles.
Giuseppe assentiu, mas havia algo nos olhos dele, uma mistura de orgulho e preocupação.
— Você está pronto para a guerra, Dante? Porque é isso que vai acontecer.
Olhei para ele, a determinação queimando em meu peito.
— Giuseppe, meu pai sempre disse que o poder tem um preço. Hoje, nós começamos a cobrar.