Carina
O tribunal estava lotado naquela manhã, um palco montado para o espetáculo que se desenrolava. Eu ajustei a gola da camisa branca sob o terno cinza enquanto atravessava o corredor central. Os olhares se voltavam para mim como se eu fosse uma intrusa, alguém que ousava desafiar o sistema que todos ali temiam ou respeitavam. Não era a primeira vez que eu encarava homens como Dante Rossi, mas algo nele era diferente. Ele não era apenas um líder; ele era um símbolo. E eu estava ali para confrontá-lo.
Quando me sentei na mesa de defesa, os murmúrios aumentaram. Havia uma tensão no ar, algo palpável. O caso girava em torno de um porto recentemente adquirido pelos Rossi. Uma compra envolta em suspeitas de coerção, ameaças e até assassinato. Era meu trabalho provar isso e desmantelar a fachada de legalidade que eles haviam construído.
— Doutora Carina De Luca, presumo?
A voz masculina veio de trás, profunda e controlada. Virei-me para encarar Dante Rossi pela primeira vez. Ele estava impecável em um terno preto, a gravata ajustada perfeitamente. Seus olhos eram de um castanho tão escuro que pareciam quase pretos, penetrantes e avaliadores. Ele não era o tipo de homem que se intimidava com facilidade, mas tampouco parecia subestimá-la.
— Sr. Rossi. — respondi, mantendo meu tom firme, mesmo sentindo o peso de sua presença. — Espero que esteja preparado para perder hoje.
Ele inclinou levemente a cabeça, um sorriso quase imperceptível nos lábios.
— Advogada confiante. Gosto disso. Mas cuidado, confiança em excesso pode ser perigosa.
A tensão no ar parecia aumentar, mas não desviei o olhar. Não podia me permitir isso.
— Só perigosa para quem tem algo a esconder. — retruquei, virando-me novamente para meus papéis, encerrando a conversa.
Quando o juiz entrou na sala, o burburinho cessou. O caso era grande, e todos sabiam disso. Eu havia passado meses investigando, coletando provas, reunindo testemunhos. Os Rossi haviam operado com uma arrogância que eu considerava inaceitável, e agora era hora de expor isso.
— A promotoria chama como testemunha inicial o Sr. Matteo Bernardi. — anunciou o promotor, e o murmúrio voltou brevemente.
Matteo era um dos ex-funcionários do porto, alguém que havia denunciado coerção direta por parte dos homens de Rossi. Quando ele tomou o banco das testemunhas, parecia nervoso, mas determinado.
— Sr. Bernardi, pode nos contar o que aconteceu na noite em que foi forçado a assinar os papéis de venda?
Matteo engoliu em seco, lançando um olhar furtivo para a mesa de Rossi antes de falar.
— Eu... Eles apareceram no meu apartamento. Disseram que, se eu não assinasse, algo r**m aconteceria com minha família.
Senti uma onda de orgulho silencioso por Matteo. Sua coragem em testemunhar contra uma organização como a de Rossi era rara, quase suicida.
Enquanto o promotor fazia suas perguntas, observei Dante. Ele estava sentado calmamente, as mãos entrelaçadas sobre a mesa. Não havia nenhum sinal de nervosismo ou preocupação. Era como se estivesse assistindo a um jogo cujo resultado já conhecia.
Quando chegou minha vez de interrogar Matteo, levantei-me e caminhei até ele, mantendo meu tom gentil, mas direto.
— Sr. Bernardi, você pode confirmar que reconhece os homens que estavam em seu apartamento naquela noite?
Ele hesitou, e senti a sala prender a respiração.
— Sim, reconheço.
— E eles estavam trabalhando sob ordens diretas de Dante Rossi?
Matteo apertou as mãos no colo, a tensão visível.
— Sim. Eles disseram que estavam lá para garantir que eu não tivesse dúvidas sobre o que precisava ser feito.
— Obrigado, Sr. Bernardi. Sem mais perguntas.
Quando voltei para minha mesa, Dante finalmente mostrou alguma reação, um leve arquear de sobrancelhas, como se algo o tivesse intrigado.
Durante o intervalo, fui para o pátio do tribunal, tentando clarear a mente. O vento fresco de Palermo era bem-vindo depois do calor sufocante da sala de audiências. Não demorou muito para que Dante aparecesse.
— Doutora De Luca, gosta de confrontos diretos, não é?
Virei-me para encará-lo, cruzando os braços.
— Estou apenas fazendo meu trabalho, Sr. Rossi. Alguém tem que responsabilizá-lo.
Ele deu um passo à frente, mas manteve a distância respeitosa.
— E você acredita que pode ganhar? Que pode enfrentar tudo o que eu represento e sair vitoriosa?
Sorri levemente, mesmo sentindo o peso de suas palavras.
— Ganhar ou perder não é o ponto, Sr. Rossi. O ponto é que alguém tem que tentar. E hoje, esse alguém sou eu.
Por um momento, ele me observou em silêncio, como se estivesse tentando entender quem eu era e por que estava tão determinada.
— Você tem coragem, Carina. Mas coragem sem cautela pode ser sua ruína. Cuidado com as batalhas que escolhe lutar. Nem sempre os justos saem vencedores.
Ele se virou, deixando-me com minhas reflexões e a sensação de que esse confronto era apenas o começo.
Quando a audiência foi retomada, a defesa tentou desqualificar Matteo, alegando que ele tinha motivos pessoais para incriminar os Rossi. Era uma jogada esperada, mas já tínhamos previsto isso.
Apresentei um documento que havia conseguido com muito esforço: um contrato antigo que mostrava a aquisição inicial do porto com evidências de fraude.
— Este documento prova que os Rossi forçaram a venda desde o início, manipulando registros e ameaçando testemunhas. A verdade está aqui, Sr. Juiz, e é inegável.
O silêncio tomou conta da sala, e pela primeira vez, vi algo diferente no rosto de Dante. Não era medo, mas talvez respeito.
Quando a sessão foi encerrada, o juiz anunciou que precisaria de mais tempo para revisar as evidências. Isso significava que o caso estava longe de acabar.
Ao sair do tribunal, cruzei novamente com Dante no corredor. Ele parou, como se estivesse esperando por mim.
— Parabéns, doutora. Hoje você conseguiu me impressionar.
— Acredite, Rossi, isso é só o começo.
Ele sorriu, um sorriso que não revelava nada, mas prometia muito.
— Cuidado, Carina. No mundo em que você está entrando, a verdade é apenas uma moeda. E nem todos jogam limpo.
Enquanto ele se afastava, senti um misto de adrenalina e apreensão. Eu sabia que Dante Rossi não era apenas um adversário comum. Ele era o tipo de homem que transformava cada movimento em um jogo de xadrez, onde cada peça tinha seu valor e cada erro custava caro.
Mas eu não recuaria. Não enquanto houvesse uma chance de justiça, mesmo que pequena. Esse era o meu juramento, minha luta. E, agora, meu jogo contra Dante Rossi estava apenas começando.