Capítulo 12: Mentiras

2095 Words
— Então, eu estou solteiro no momento. Tive alguns problemas e não quero nada agora. Não até encontrar a pessoa certa. — Por isso anda viajando por ilhas? Em busca da pessoa certa? — Eu não sei. Talvez. Ele quase disse, "já encontrei você". Mas depois dela ter falado do marido, aquilo poderia soar muito mal. Então, apenas se conteve. — Isso parece romântico, mas solitário. — As vezes é. — Lamento por você. Disse, com sinceridade. Não podia imaginar como um homem começava esse tipo de jornada. Não conseguia visualizar sua vida em prol de um relacionamento. No entanto, ela vivera os últimos anos mais casada com seu trabalho do que com o próprio marido. Eles ficaram em silêncio por algum tempo, olhando o mar calmo, com ondas tão pequenas que eram quase impossíveis de identificar. — Você encontrou? Ele indagou, sentindo uma curiosidade imensa lhe rondando. Talvez fosse sua consciência querendo trapacear. Afinal, havia alguma coisa nele que fazia pensar em Celine como alguém que merecia amor de verdade, não apenas o objeto de uma aposta traiçoeira, que certamente partiria seu coração. — Encontrei o quê? — A pessoa certa. — Eu amo meu marido. Estamos juntos há doze anos. — Entendi. Mas isso não responde a pergunta. Celine o encarou. Chase estava olhando para o mar, com os olhos quase brilhando. — Eu acho que vou voltar pro hotel. Não devia deixar o Victor sozinho. Celine levantou, com tranquilidade, mas começando a pensar que tinha falado demais sobre sua vida. Na verdade, ela estava tentando escapar de pensar sobre a pergunta. Aquilo poderia simplesmente acabar com suas férias. — Tem um pessoal que vai fazer um mergulho daqui a uma hora, em uma ilha próxima. Devia vir. — Não sei... — Se quiser chamar seu marido, pode ir. Mas acho que se ele quisesse estar aqui agora, ele estaria. Chase levantou, limpando a bermuda. Olhou para Celine, que parecia indecisa sobre o que fazer. Ele deu um sorriso curto e começou a caminhar. Não podia forçar, a menos que quisesse parecer um maníaco. E dar a ela a chance de decidir, era a estratégia mais segura. Celine ficou pensando nas palavras do estranho. Se seu marido realmente quisesse estar ali com ela, ele estaria. Era burrice não aproveitar cada segundo daqueles momentos por causa de Victor. Tinha certeza que no dia seguinte ele estaria menos irritante e talvez ela pudesse fazer novamente aquele passeio com ele. — Espera, eu vou com você. Ela recolheu a toalha e começou a segui-lo. Ele deu um sorriso vitorioso. — Preciso pegar algum traje? Eu não trouxe nada pra mergulho. — Relaxa, eles têm tudo aqui. Eles caminharam até o hotel mais próximo, que era o que Chase estava hospedado, parando na frente. — Por que estamos aqui? — Vamos de bicicleta. O local de acesso fica por dentro do hotel. Celine ficou parada, olhando pra ele, sem saber como dizer aquilo. — O que foi? Algum problema? — Eu... É que eu não sei andar de bicicleta. — Está falando sério? — É... Quer saber, eu vou voltar pro meu hotel. — Não, não. Olha, eu nem queria mergulhar mesmo. Podemos caminhar na praia ou... Ela o interrompeu, dando um passo a frente. O coração de Chase deu uma batida estranha. Ele ignorou aquilo, como vinha fazendo com todos os seus problemas. — Não pode deixar de ir por minha causa. — Bom, eu tô sozinho aqui e você é minha única companhia. — Mas... — A única que vale a pena. Desta vez ele tinha dito uma verdade. E não conseguiu evitar de sorrir com isso. Celine estava prestes a dizer que bastava cinco minutos caminhando pela praia ou pela ilha que ele rapidamente acharia companhias melhores, mas suas palavras lhe tocaram e fizeram-na se calar. — Então, o que faremos? — Vamos caminhando. — Não é muito longe? — Caminho nenhum fica muito longo tendo você como companhia. Ela quis dar outro sorriso, mas desta vez se conteve, mordendo os lábios. — Você é péssimo com cantadas, sabia? — Desculpa, eu tô enferrujado. Não costumo ficar muito perto de mulheres bonitas por tanto tempo sem acabar me tremendo todo. Ela deu outra mordida no lábio inferior, se contendo, ou acabaria dando muito na cara. — Quase conseguiu. — Me avisa se em algum momento eu consegui. Proferiu, com um tom mais sensual em sua voz, quase sussurrando. Celine abaixou um pouco a cabeça, pra esconder o sorriso. Depois a ergueu, olhando diretamente em seus olhos. — Pode apostar que sim. Mas vou logo avisando, não sou nenhum pouco fácil. — São essas que me conquistam. — Se eu fosse você, não ficaria contando com isso. — Eu sei que não vai me dar bola, só acho divertido flertar com o perigo. Ela inclinou a cabeça levemente para o lado, o encarando com curiosidade. Por que um homem como aquele parecia tão interessado em estar em sua companhia? — Com o perigo? — É. Você é perigosa pro meu coração, quase faz ele parar. Ela deu uma risada alta. Aquela tinha sido uma tentativa boba, mas divertida. Fazia muito tempo que ela não fazia qualquer coisa similar. — Você é legal, Steven. Me faz lembrar um amigo meu. Ele engoliu em seco e ajeitou o cabelo com as mãos, dando um passo em direção a trilha. Sabia que as chances dela lembrar de Alberto através dele eram existentes, mas não imaginava que ficasse óbvia em tão pouco tempo. — Então, vamos? Temos de ir pra não perder o horário. — Vamos. Ela sacudiu a toalha e a enrolou na cintura. Eles começaram a caminhar lado a lado em uma trilha de madeira, que daria acesso a área de algumas embarcações e a parte de dentro, onde poderia se inscrever e alugar os equipamentos. Enquanto isso, Victor estava saindo do elevador, em um local mais distante, e dando duas batidas na porta. Uma loira de olhos azuis, estatura mediana e pele branca, abriu a porta, já de biquíni, pronta para um passeio. — Meu amor! Ela se jogou em seus braços, esbravejando. — Oi linda, que saudades! Ele entrou na suíte com as pernas da amante entrelaçadas a sua cintura. — Estava ansiosa pra te ver! Temos tanto que aproveitar desse lugar! É tão lindo meu amor. Nem acredito que estamos aqui. Ela deu vários beijos em Victor, enquanto ele caminhava em direção a cama, devagar, com os braços em volta da cintura da mulher, a excitação latente. — Vamos visitar muitos lugares, mas antes... Ele a jogou na cama e tirou a camisa. — Vou visitar você. A essa altura, Celine estava chegando ao seu destino, e nem mesmo podia imaginar o que seu marido realmente estava fazendo. Enquanto ela sentia culpa por se divertir com ele, não havia qualquer pensamento de Victor sobre ela. — Já veio aqui antes, Steven? — Na verdade sim. Duas vezes antes. Uma delas em lua de mel... Aquela era uma verdade. Uma que ele quase nunca falava e que era difícil de lidar. E por nunca falar, não parecia que existia e, se não existia, não podia doer. — Você já foi casado? — Sim. Mas isso tem muito tempo. Não importa. Celine quis saber mais sobre aquele homem misterioso, mas seu semblante havia mudado quando ele falou sobre seu casamento anterior. De alguma forma, ela sentia que o que quer que tenha acontecido, ainda doía. Tanto que ele não conseguia falar. Chase tinha se casado aos 25 anos. Tinha tudo para ser um casamento feliz e duradouro. Ele era apaixonado por Verônica como nunca tinha acontecido antes. E ela o amava como se ele fosse a causa de sua existência. Mas uma fatalidade os separou. Aquele fardo era grande demais para Chase. Fora tanto, que ele jamais recuperou parte de sua memória. Como se tivesse ficado trancado a sete chaves. Uma memória que jamais poderia ser exposta. Um segredo que nunca deveria ser revelado. No dia em que sua mãe faleceu, Chase estava enlouquecido. Tinha ficado furioso com quem quer que tenha provocado aquilo. Com o Destino, as circunstâncias, a ciência e até o próprio Deus. Ele estava enfurecido por não ter mais a mulher mais importante de sua vida, que tinha criado ele e seus irmãos com muito amor, carinho e respeito. Chase não conseguia se conformar com a realidade. Por mais que a morte seja algo natural, não havia nada que pudesse fazer para convencê-lo de que o ciclo da vida era aquele. A noite, após o enterro, ele saiu pra beber. Naquela época, ele não era chegado a álcool. Na verdade, antes daquilo, Chase era o homem com um futuro promissor. Tinha feito faculdades, falava quatro línguas além da materna e conheceu as maiores capitais do mundo. Mas aos 27 anos, no dia que precisou dar adeus a sua mãe, ele não conseguiu ser mais o homem racional que era. Ele bebeu tanto naquela noite, que entrou em coma alcoólico. No dia seguinte, sua esposa foi ao seu encontro. Nervosa, pois nunca precisou lidar com nada parecido, ela acabou se envolvendo em uma acidente. Três dias depois, quando Chase acordou, soube que sua esposa tinha falecido. Mas o pior ainda estava por vir... — Sinto muito por você. Perdi meu pai há alguns anos, mas ainda sinto muita falta dele. — Acho que a pior morte é o que morre dentro de nós, enquanto ainda vivos. E isso acabou comigo e com as pessoas a minha volta. — É, concordo. Esse é um problema da morte, o sofrimento de quem fica. Chase respirou fundo, de cabeça baixa. Fazia anos que ele não conversava com ninguém sobre aquilo. Um tempo depois, seu pai o colocou em uma clínica de reabilitação, quando ele se afundou na bebida e nas drogas. Aos poucos, ele se recuperou. Mas ainda bebia de vez em quando. Não a ponto de se tornar dependente, felizmente, mas o suficiente para fazê-lo apagar por algumas horas com certeza. — Acho que é aqui. Ela comentou, quando chegaram. Ambos entraram pra fazer a inscrição. Teriam que ficar por mais uma hora ali, pois tinham de passar por um treinamento para saber como se comportar estando lá embaixo. Chase não precisava realizá-lo, pois tinha experiência em mergulho, mas fez questão de não sair do lado de Celine. Depois dos formulários preenchidos e tudo devidamente pago, coisa que Chase fez questão de fazer por ambos, apesar da insistência de Celine de que não precisava, eles foram conduzidos até uma salinha, onde um instrutor começou a falar sobre o comportamento que deveriam ter principalmente perto dos animais, como usar o equipamento e a forma de comunicação embaixo d'água, além de outras coisas. Quase uma hora depois, eles estavam embarcando em uma lancha que os levaria para o local de descida. No caminho, o instrutor foi reforçando tudo dito antes na aula, em especial a necessidade de obedecer aos seus comandos, ficarem atentos ao que fossem mexer e segui-lo sempre. Havia dois casais na lancha além deles, para dois instrutores. Por diversos momentos, Celine se pegou olhando para Chase, tentando reconhecê-lo e, ao mesmo tempo admirando-o. Ele tinha um jeito especial de passar a mão no cabelo, além da preocupação exagerada com o mesmo. Ele sempre baixava o dedo indicador, deixando na metade da altura dos outros dedos, enquanto a mão ia totalmente aberta de encontro aos fios. Quando o instrutor terminou de falar, ele fez isso novamente, e ela sorriu, quase que automaticamente. Depois ela ficou olhando para o músculo do braço, tão tensionado. E quando ele levantou para colocar o cilindro, ela encarou o peitoral definido. Ele não tinha músculos grandes, mas eram proporcionais ao seu porte mediano, cujo ela não conseguiu deixar de visualizar em volta do seu corpo, mesmo sabendo que não devia. Chase deu um sorriso quando olhou bem rapidamente pra Celine e viu que ela estava o encarando. Talvez até o analisando. Ele não sabia o que era, mas tinha algo no olhar dela que o atraía quase que instantaneamente. Pouco depois, ambos foram autorizados a descer, seguindo o instrutor. Ela pensou em Victor, quando o primeiro casal desceu até a água, com um ajudando o outro. Ele devia estar ali com ela, dividindo aquele momento. Mas ela decidiu que não ficaria gastando seu tempo se lamentando por uma escolha dele. Tinha apenas 14 dias de férias e precisava curtir. Seus planos era que ao final daquela viagem ela tivesse colecionado vários momentos incríveis e aquele com certeza seria o primeiro.
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