Capítulo 14: Senhora

1688 Words
Alguns segundos depois, quando todos já tinham parado de aplaudir para voltar pra suas refeições, ela ainda se sentia como uma adolescente descobrindo os prazeres da vida, atrás de algum colégio, pegando um dos caras mais cobiçados do ensino médio. — Você não existe. — Esse título é seu. É uma mulher e tanto, senhora Whitney, não esqueça disso. Alguma coisa no modo como ele dizia aquelas palavras a aquecia por dentro e ao mesmo tempo criava um quebra-cabeça na sua mente, na tentativa de se recordar quando tinha escutado aquilo antes. Dito quase que da mesma maneira. Mas o que a deixava mais impressionada, era que não sentia qualquer incômodo ao ouvir o "Senhora Whitney", como de costume. — Você é inacreditável, sério. Não entendo como está sozinho aqui. — Coisas da vida. Algumas simplesmente não tem explicação. Mas sabe, eu acho que era isso que o destino queria. — Você sozinho? — Só assim eu poderia conhecer você. Ela deu outro sorriso. Nunca tinha imaginado que no seu primeiro dia de uma segunda "lua de mel" ela estaria ali, pós mergulho, com um completo desconhecido, enquanto ele flertava com ela descaradamente. Parando pra pensar, era bom demais pra ser verdade. Talvez ela não devesse permitir tal aproximação. Mesmo sabendo que não cederia, por mais interessante que Steven/Chase fosse, ela jamais faria qualquer coisa para magoar o marido, mesmo que ele não pensasse duas vezes em fazer o mesmo, a destratando no primeiro café da manhã deles. Sem contar todas as vezes em que era acusada de ser uma péssima mãe antes mesmo de se tornar uma. Chase deu um tempo das cantadas. Não queria parecer muito persistente, então ambos pediram seus pratos e conversaram um pouco sobre arte, música e filmes, enquanto aguardavam. Ela amava bons filmes de comédia, aventura e terror. Já Chase preferia os clássicos, carregados de drama e alguns científicos e também com heróis. O gosto para música era similar e, enquanto esperavam, Chase colocou uma música no telefone, bem baixinho, onde os dois puderam escutar pertinho um do outro. Ao som de Adele, Sia e Lewis Capaldi, eles degustaram de vieras grelhadas na entrada. Depois seguiram para risoto de gamas e ameijoas, no prato principal. Finalizando com uma sobremesa crocante de nouggat e uma sobremesa de caramelo. Todos pratos típicos da região. Durante o almoço, eles discutiram amigavelmente sobre os assuntos mais interessantes. Chase tentou não mentir enquanto falava sobre seu gosto pessoal, do mesmo modo que não mentiu sobre como estava se sentindo em relação a ela. Havia um conflito muito grande em seu peito, que estava lhe trazendo uma angústia enorme e que só parava quando olhava para Celine. Durante as semanas trabalhando, ela era uma pessoa muito diferente. Fechada, rígida, séria. E ainda sim, ele tinha pego uma feição por ela que não era capaz de explicar. Mas ali, parecia que tudo tinha fluido como uma rosa desabrochando. Aquelas semanas trabalhando ao lado dela, passando a maior parte do tempo em sua sala trancafiado ou simplesmente observando ela trabalhar em silêncio, sentado no sofá segurando um pequeno caderno de anotações, tinham ajudado a germinar o que estava nascendo naquele momento. O problema era que ele não era capaz de enxergar e, muito menos, admitir que qualquer coisa fora do seu objetivo pudesse existir. No final daquela tarde deliciosa, Chase a acompanhou até seu hotel. Ele nem mesmo tinha percebido o tempo passar. E apesar de querer ficar mais tempo, Celine achava que tinha ficado muito tempo longe do marido. Tanto, a ponto de começar a fantasiar além do normal com sua nova companhia. — Obrigada, Steven. O dia foi incrível. — Estou ansioso pra encontrá-la novamente. — Eu não posso prometer nada. Talvez o Victor... — Ah, claro. Tem razão. Mas sabe, adoraria conhecê-lo. — Sério? — É, por que não? Seria divertido. Tem tanta coisa pra ver e fazer por aqui. Muitos lugares lindos. Ilhas próximas. — É, isso! Vou convencê-lo a sairmos amanhã. Chase abriu a boca para dizer que estaria no mesmo lugar no dia seguinte, mas então lembrou da aposta e da ideia que tivera pra não estragar todo seu plano, que seu irmão já havia arruinado parcialmente. — Sim, faça isso! Ah, eu preciso fazer uma ligação. Nos vemos depois, então? Ele saiu quase que correndo, sem dar a oportunidade a ela para confirmar horário ou local. Seu hotel era ao lado, mas ele não deixaria que ela o visse entrar. Teria que torcer para alguma coisa dar errado no dia seguinte. Ou ela não encontrar seu irmão ou ela realmente levar o marido, o que não permitiria nenhuma abertura para Aiden. Celine ficou um pouco confusa, quando o viu caminhar para trás tão rápido, de repente. Ela pensou que ele devia ter realmente se lembrado dessa ligação e provavelmente era importante, já que nem tinha dito onde ele estava hospedado ou onde poderiam se encontrar. Nem mesmo um horário. Ela deu de ombros. Se ele realmente quisesse falar com ela novamente, pelo menos sabia onde ela estava. Obviamente que sua mente estava se martirizando por decidir retornar tão cedo para o hotel e nem mesmo ter pego o número do rapaz, no entanto, aquilo poderia parecer um pouco estranho e talvez seu marido não gostasse muito. — Se bem que ele não está ligando muito pra mim mesmo. Comentou consigo mesma, entrando no elevador. Ela encostou o corpo na parede do elevador e soltou o suspiro lentamente. Tinha feito um amigo e Victor não podia reclamar disso, já que a tinha abandonado ali. Ela ficou resmungando, se condenando por tantos sorrisos, por tantas risadas e por falar tanto de si mesma para um completo estranho. Mas ao abrir a porta do quarto, ela repensou tudo aquilo que tinha dito para si mesma do corredor até o quarto, mudando de ideia sobre as reclamações contra si mesma, já que parecia que a única pessoa que se importava consigo era ela. Ela buscou por seu marido em todo o quarto e não encontrou. Por fim, ela sentou na cama, sem saber o que pensar ou fazer. Cruzou os braços e ficou encarando o vazio do cômodo, que tinha espaço para morar uma família enorme. Depois de alguns segundos em estado de melancolia e arrependimento, ela levantou e foi até o banheiro. Tinha uma banheira enorme lá, cujo ela encheu com algumas especiarias que encontrou no box. Em seguida ela tirou a roupa por completo e entrou na água devagar, se permitindo relaxar. Sua mente, no entanto, não deixava. Durante os primeiros minutos, ela começou a pensar que seu marido poderia ter saído para procurá-la. Preocupado, ele teria partido em sua busca, sem saber exatamente onde ela estava, ficou perdido e ainda não havia conseguido retornar. Ou ele tinha se cansado de ficar no quarto e resolveu sair para distrair a mente, talvez tenha feito amizades como ela e se empolgou na bebida, como de costume. Ele também podia estar resolvendo alguma pendência do trabalho, um pouco longe do quarto para que ela não visse e se irritasse com isso. Existia dezenas de possibilidades e, finalmente, depois de muito tempo, ela resolveu que não se importaria com nenhuma delas. Celine aproveitou a água perfumada e macia que hidratava sua pele. A mulher que tinha sonhado com sua segunda lua de mel e ansiado por isso, apesar de todos os comentários, avisos e medo, e toda magoa contra seu próprio marido, havia ficado flutuando pela água da banheira, logo após sua saída. Ela curtiu aquele momento sozinha como nunca havia feito antes. Depois de secar a pele com toalhas tão macias quanto seu próprio toque, ela passou alguns cremes de pele em seu corpo, que apesar do pouco tempo no sol, ficara com um bronzeamento natural. Em seguida, se perfurmou e iniciou uma leitura, sentada em uma cama de casal que tinha na sacada, enquanto a própria luz do sol se pondo a iluminava. Usando apenas um roupão tão confortável quanto os lençóis que se deitava, ela passou algum tempo ali, até as pequenas estrelas serem vistas no anoitecer. Fora quando seu marido resolveu aparecer. — Ah, oi meu bem. Você está muito tempo aí? Ela o ignorou, presa na leitura. Victor não quis insistir, indo direto para o banho, a fim de tirar o cheiro do mar e do perfume que Evie usava. Por muito tempo, Celine ignorou aquele e outros sinais. Deixou pra lá cada comentário que escutou antes e manteve sua mente ocupada severamente no trabalho. Talvez fosse isso. Talvez ela simplesmente não quisesse ver a verdade. Talvez ela não estivesse pronta para recebê-la. Não importava qual fosse o real motivo, quando ele caminhou para o banheiro, ela reconheceu um cheiro diferente de qualquer perfume que ela ou Victor usasse. Além do cheiro característico de água salgada, o que indicava que realmente estivera em uma praia. Os olhos de Celine se ergueram ao ouvir as portas duplas do banheiro se fechando. Seu extinto pulsava tanto quanto um coração podia bater em velocidades absurdas, embora não permitidas. Havia alguma coisa no ar e isso tinha deixado uma pulga atrás da sua orelha. Provavelmente não estar enlouquecendo com o acúmulo de trabalho a tinha mantido desocupada o suficiente para pensar em outras coisas e, a maioria torcia, principalmente sobre as escapadas estranhas do marido. Como uma boa esposa, ela decidiu que não questionaria mais sobre aquele assunto. Ela faria melhor. Victor tomou seu banho sem contratempos e nenhuma palavra de sua esposa. Por mais que adorasse o silêncio, ele podia sentir uma energia diferente no ar. Ela parecia estar escondendo alguma coisa. Porém, mesmo preocupado, ele não queria perder seu tempo buscando respostas para o que quer que fosse. No final da noite, ambos pediram uma pizza para o jantar. Celine não deu a mínima para qualquer comentário dele sobre o que passava na TV. Ela permaneceu concentrada em seu livro. Pausou apenas para comer e ver um pouco das redes sociais. Depois permitiu que o corpo relaxasse e adormecesse, sem mais preocupações. Victor, porém, dormiu apenas um bom tempo depois, severamente incomodado com o silêncio.
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