Capítulo 11

2139 Words
Corria de um corredor ao outro, buscando uma saída para o labirinto em que estava. Sentia-me sufocar e a respiração parecia entrecortada. Encontrei mais uma vez os campos de lírios brancos. Desci as escadas do palácio e pude ver uma criatura com um tom de pele azul e orelhas pontudas. Seus cabelos negros batiam nas costas e ele carregava um cetro de ouro na mão direita. Vestia um tipo de túnica, da cor branca, com um cinto de couro amarrado a cintura. Ao seu lado, uma mulher de cabelos pretos, parecida com ele, estava segurando sua mão livre. Vestia um vestido em um tom dourado , com mangas longas e abertas. Seus cabelos estavam trançados para o lado. Eles caminhavam e pareciam tristes. Ela colocou a mão na barriga e falava com ele. Parecia ser seu esposo. Senti algo estranho, como se algo terrível fosse acontecer. Um cavaleiro com armadura e elmo aberto chegou até eles e se ajoelhou, afundando sua espada no chão e apoiando as mãos no cabo dela. Aproximei-me o máximo que pude, para entender a conversa deles. - Majestade, nossas fronteiras estão enfraquecendo. Várias aldeias estão sendo queimadas ao redor de Monte Ble. O exército vermelho esta avançando a cada dia mais. Eles já tomaram o reino vizinho, Centarium. Precisamos entrar em um acordo com o rei Caronte. Iremos morrer meu rei, não temos treinamento adequado para combatê-los, muito menos soldados suficientes para enfrenta-los. O rei parecia pensativo e não olhava o soldado. - Norian, precisamos fazer algo. Nossa filha...- a rainha, eu presumi, tentou falar com ele e colocou a mão sobre o ventre, de forma protetora. - Sim, vamos conversar com meu tio, Caelum – o rei concordou - Prepare a carruagem e os guardas. Vamos falar com Caronte. ** Acordei me sentindo desorientada e percebi que estava no quarto da casa de Kaelus. Um frio intenso parecia entrar pelo quarto. a corrente de ar vinha até a cama e mesmo com cobertores, me sentia enregelar. Respirei fundo e me levantei. Talvez, a janela estivesse aberta. Sai da cama e tentava entender o que sonhara fazia poucos segundos. Queria entender o que aquele sonho significava. Não fazia sentido, não para mim. Ainda era noite e pude ver a janela do quarto aberta. Tive a estranha sensação de estar sendo observada, como se algo ou alguém estivesse no quarto comigo. Os pelos do meu corpo se arrepiaram pela constatação. O quarto estava mergulhado em escuridão, mas pude ver um par de olhos vermelhos. Não sabia o que era e gritei. Uma sombra avançou sobre meu corpo, sem forma corporea e me agarrou pelo pescoço. Lutei para respirar e tentei gritar, mas me faltava ar. Só via os olhos vermelhos estranhos, me encarando com uma fúria assassina. A porta do quarto se abriu em um estrondo e a sombra me soltou e saiu pela janela. Alguém acendeu a luz do cômodo, iluminando o ambiente. Fui até o parapeito, procurando pela criatura que me atacara, tentando entender o que era tudo aquilo. Senti o braço de Kaelus sobre meu ombro e me puxando para fora do alcance da janela. Ele a fechou e me encarou, com a respiração entrecortada. Seus olhos estavam estranhos, com um brilho dourado daquela vez, não negros como sempre. - O que era...o que...- eu balbuciei, sem entender, ainda com a respiração acelerada e desorientada para pensar em algo. Nunca minhas alucinações foram tão fortes – Eu...você viu? Não... Caminhei até a cama, sentando com as mãos entre a cabeça. Eu queria entender o que estava acontecendo, mas sabia que aquilo não tinha acontecido. Não poderia. Ele não deve ter visto nada, assim como todo mundo que disse que eu estava inventando as coisas. - Eu vi – ele disse, interrompendo o silêncio. Sua voz estava séria demais – Sinceramente eu...não sei como ajuda-la. Eu levantei a cabeça, para encara-lo. Ele não sabia como me ajudar? O que ele queria dizer com isso? Ele havia visto a sombra? Ou viu outra coisa? - O que você viu? – perguntei, lentamente. - O espectro, Agnes. Era impossível não vê-la tentando m***r você – ele respondeu, andando de um lado a outro, perto da janela. Parecia pensar em algo que o preocupava muito – Alguém disse a ela sobre você...não estamos mais seguros aqui...eu não deveria te ajudar... Ele parou e parecia muito estranho. Parecia cogitar algo que estava além da minha capacidade de discernimento. Eu queria poder ler seus pensamentos e entende-lo. E queria que alguém me explicasse o que estava havendo. Sombras ou qualquer coisa que tivesse me agarrado não existiam. Mas, se ele viu, será que estávamos alucinando juntos? Levantei da cama e me aproximei dele. Ele estava muito quieto, muito diferente do normal. Seu olhar me encontrou e ele parecia estar vendo além de mim, com o maxilar retesado. As mãos fechada em punho contra o corpo. Seus olhos estavam amarelo ouro, muito vivo. O que me fez pensar que ele devia estar usando uma lente de contato. - O que quer dizer como não pode me ajudar? – perguntei, receosa – Quer que eu vá embora? Eu irei se quiser. Eu não queria ir. Mas, havia a possibilidade de ficar com Dasha. Talvez, ela me ajudasse. Devia ter pensando nisso antes. Kaelus se aproximou de mim e parecia muito quieto, como se estivesse dividido com alguma decisão. Sua expressão era de espanto e medo. Sua mão voou para meu pescoço e me vi mais uma vez lutando por ar. - Kae...lus...es...tá – tentei dizer, mas não conseguia pensar. O aperto se intensificou, machucando de verdade, muito mais do que a sombra quando tentou me sufocar até a morte.Vi o rosto de Kaelus com uma expressão dolorida, como se não quisesse fazer isso. Tentei chuta-lo, empurra-lo, mas nada o afastava de mim. Estava vendo pontinhos pretos e iria mergulhar na inconsciência, quando ele me soltar. Cai de joelhos, diante dele e me senti humilhada. Ferida e traída. Lágrimas varreram minha visão e comecei a soluçar e forcei a respiração, tomando golfadas de ar, sentindo a garganta dolorida. O ar era tão precioso para mim naquele instante que não notei no primeiro instante que Kaelus caiu no chão e me abraçou. Senti sua mão acariciar meus cabelos e sussurrar palavras estranhas, em uma língua diferente. - Eu sinto muito – era a única frase que conseguia entender. Comecei a voltar a mim, me sentindo um pouco melhor e empurrei ele com máximo de força que consegui. Ele se afastou de mim, ainda ajoelhado, com uma expressão mortificada. Arrastei-me pelo chão, recostando na parede, sentindo meu corpo fraco e sem forças para fugir. Ele iria me m***r, assim como a sombra tinha tentado fazer. Assim, como havia acontecido no colégio, quando incendiaram a sala de música. Eu sabia que não era eu a fazer aquilo. Havia alguém, lá, uma sombra que passou rapidamente e alastrou o fogo. Ou era eu? Não conseguia me lembrar bem. Eu sei que nunca teria feito isso. Eu sabia, eu sabia que não havia feito nada de errado. Espasmos percorreram meu corpo e me sentia entorpecida por dentro, olhando para nenhum ponto fixo. Kaelus se levantou do chão e veio até mim, sentando-se ao meu lado. Me esquivei dele, o máximo que pude. - Você vai me m***r? – eu perguntei, sem emoção, sem fitá-lo. - Não, Agnes. Mas, eu deveria – ele disse, com pesar e suspirou alto. - Por que quer minha morte? – perguntei. Eu queria saber, queria entender por que queriam me ver morta. O que eu havia feito de errado? - Não sou eu que quero sua morte. Eu sou apenas uma das pessoas designadas a isso – ele respondeu, de forma irônica dessa vez. Parecia achar que aquilo era uma grande piada. Eu achava, pelo menos – Eu deveria saber que não seria o único. Se eu falhar, alguém tomara minha tarefa. E agora, eu também serei morto por ter falhado. Eu me virei para ele, o encarando. Ele parecia pedir desculpas com o olhar e engolia seco. Apertava e fechava os punhos tatuados. Eu não sabia se poderia confiar nele. Mas, queria respostas. E saber com o que ou quem estava lidando. Logo percebi que sua pele não tinha um tom branco de sempre, mas azulado. Pisquei algumas vezes, mas aquilo não parecia mudar. - Por que não me matou? – Eu deveria perguntar quem me queria morta e por que, mas primeiro, queria saber por que ele havia falhado. Depois, eu pensaria na cor da sua pele. Era muito para processar em minha cabeça. - Eu nunca quis fazer isso – ele confessou – Eu não firo pessoas nem criaturas inocentes. Eu posso ferir em campo de batalha inimigos, mas nunca uma pessoa que não merece isso. Você não tem culpa pelo que é e eu não deveria ter aceitado isso, mas sou um covarde. - Não deveria se m***r ninguém, não importa o motivo – disse, de forma estridente. Nunca fui a favor de qualquer tipo de violência. Apenas me defendi como pude, mas nunca quis machucar ninguém ao meu redor. - Se soubesse que não há escolha, Agnes, que é necessário defender e atacar primeiro – ele disse, sem me olhar, com a cabeça recostada na parede e as mãos sobre os joelhos dobrados. Parecia tão solitário e machucado – Não há como não escolher a guerra, de onde venho. Eu sabia que um tratado de paz nunca iria fazer a guerra sair de lá. É uma maldição, é como se ela fosse um câncer que corrói cada órgão vital, então, destruindo tudo, sem ao menos uma chance de cura – ele se virou para mim, com um olhar ensandecido – Em seu mundo também há guerras todos os dias, das pequenas as de maior proporção. Você deveria saber que é preciso atacar para se defender. Defender um país, defender seu povo, sua honra. Eu neguei com a cabeça. - Os homens podem fazer isso com certeza, mas nunca concordei com essas bobagens – respondi, com convicção – Isso tudo é para manter aqueles que tem poder e querem continuar a ter. Então, se precisarem, vão agir dessa maneira, para ter aquilo que desejam. É assim com os países que ainda buscam a guerra, ao invés de solucionar os conflitos com diplomacia, sem m***r o povo de outro país ou m***r o seu, com a fome e desespero. Ele riu, sarcasticamente. - Tente negociar com um rei louco, então saberá que não há negociação. Não há diplomacia, apenas derramamento de sangue e submissão do reino que ele deseja. Ou você luta para manter aquilo que tem, ou você irá perder o controle, Agnes. Ou um golpe de estado, assassinando o rei louco. Mas, se ele é muito mais forte, todos irão perecer. Suas palavras eram estranhas e sem sentido para meu tempo. Eu sei que havia guerras em todos os lugares, mas o ser humano estava mundado agora. Acreditávamos na diplomacia entre os países, solução de conflitos sem levantar as armas. Bem, meu país tentava levar a paz, através das armas e isso não contava muito. Parecia diplomático, mas não era de fato. Além disso, havia ainda guerras, tanto em escalas menores, quanto em escalas maiores. Mas, estávamos caminhando para a mudança. Eu sei que nem todos pensam como eu, na solução pacifica dos problemas, mas eu sabia que muitos desejam lutar por isso. Para que esse horror acabe, antes que acabe conosco. - Por que fala dessa maneira, como se vivesse em uma monarquia? – perguntei. Era estranho ele falar como se vivesse em mundo a parte do meu. - Porquê de onde venho, há reinos e estamos em um grande conflito nesse momento, que já dura cem anos – ele respondeu, com a voz dolorida – Meus amigos estão morrendo. Só quero manter minha família e... Ele se calou, com uma expressão dolorida. Eu não deveria ter dó dele, pelo fato do que me fez passar instantes atrás. Mas, eu me aproximei dele, sentindo compaixão e tomei sua mão, que repousava em seu joelho. Entrelacei nossos dedos e ele me fitou com surpresa. - Você não faz nenhum sentido, Kaelus. Mas, seja o que for, quero ajudá-lo. Ele começou a rir, fracamente e repousou a cabeça na parede, com os olhos fechados. Parecia muito cansado. - Agnes, me disseram que teria grande nobreza. É ótimo poder saber que vossa alteza será muito boa com seus súditos. O que ele falava não fazia o menor sentido. Vossa alteza? Do que diabos estávamos falando? - Kaelus, acho que você não está bem. Por que me fala essas coisas? Vossa alteza? - Um dia você vai entender isso, Agnes. Por enquanto, precisamos saber o que fazer a seguir. Ficar aqui por mais tempo não é seguro para nós.
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