Capítulo 8

2066 Words
Acordei cedo na manhã seguinte, com várias ligações de números desconhecidos no celular e três de Caitlyn. Alyssa respondera que tudo estava bem e queria saber onde estava. Eu não diria. Se ela falasse a Josh, ele contaria a Tomas. Os dois estavam juntos no estacionamento da boate e com certeza eram amigos. Estava com a mesma roupa do dia anterior e não havia muito que eu pudesse fazer no momento. Precisava ir para casa e avisar Caitlyn sobre o que aconteceu comigo e Tomas. Seria melhor. E quem sabe, poderíamos mudar de cidade e viver em outra parte. Com minha bolsa no ombro, desci as escadas em caracol e procurei Kaelus pela casa, mas não o encontrei. Tentei acessar a outra parte da casa, mas as portas não abriam. Então, o que me restava era a sala e o andar de cima. Subi as escadas novamente e havia oito quartos. Fora o meu, nenhuma abria. Cansada de procura-lo, desci as escadas para o térreo e sai da casa. O dia estava nublado e o frio era intenso. Por ter chegado à noite na casa de Kaelus, não consegui ver o quintal da casa. O terreno era enorme e arborizado. Um gramado cobria o terreno e havia uma estrada de pedras que ia até o portão de ferro, na cor preta. Os muros eram cobertos de heras e eram altos. Desci as escadas da varanda e vi o gato preto sentado no balanço, parecendo ter um sono tranquilo. E não havia nenhum sinal de Kaelus naquela parte da casa. Meu carro continuava no mesmo lugar e resolvi que era hora de ir embora. Eu só precisava abrir o portão. Segui para lá e percebi que havia um cadeado enrolado nele. Pensei no que poderia fazer e a única ideia que tive foram ver se havia mais alguma parte desconhecida do terreno e Kaelus poderia talvez estivesse em algum lugar por ali. Contornei a casa e vi uma estufa, a quinhentos metros da casa. Aquele lugar não parecia ter fim. As árvores rodeavam a distancia e eu não via o muro se estendendo, delimitando espaço do lugar. A estufa era inteira de vidro e conforme eu andava pelo caminho de pedras, podia vê-la melhor e pude um vulto lá dentro. A porta estava aberta e entrei. Havia plantas de todos os tipos em vasos no chão, ou em bancadas e estantes. Kaelus estava plantando uma planta e impôs a mão sobre ela.  E tinha certeza que um brilho saiu de suas mãos, quase imperceptível. Até o ar estava diferente. Ele parou e levantou os olhos para mim. Seus olhos eram tão escuros e serenos, como se estivesse vendo algo maravilhoso. Ele não olhava para mim, diretamente, parecia perdido em pensamentos. Eu queria saber o que tanto ele guardava dentro de si. E por que estava vendo coisas estranhas de novo. Voltei a olhar para a planta. Antes, ela apenas com as folhas verdes e agora havia uma orquídea roxa. Pisquei algumas vezes, tentando entender se realmente era a mesma planta. Não tinha certeza demais nada. - Kaelus - eu disse, interrompendo ele. Kaleus piscou algumas vezes e percebeu que eu estava ali. Seu rosto que estava mergulhado em contemplação se tornou uma mascara impassível. - Sim? - ele disse. - Eu preciso ir embora. Poderia abrir o portão para mim? - pedi. Ele parecia em conflito. A boca franziu e ele olhou para o lado, pensativo. - Você não deveria ir - ele disse, respirando fundo - Eu realmente gostaria que você ficasse. Mas, o olhar dele era tudo, menos convidativo. Eu parecia estar o torturando por estar ali em sua casa. - Escuta, Kaelus, quero ir embora. E está óbvio que você não quer ir aqui. Sendo assim, poderia abrir o portão? Ele assentiu e passou por mim. O segui pelo caminho de pedra e ele parou em frente ao meu carro, quando abri a porta o veículo. - Você deveria sair da cidade - ele disse, com a mão em cima do capô - E parar de tomar esses remédios. Respirei fundo, entrando no carro. Aquele cara era irritante. - Isso não é problema seu. Agradeço pela hospitalidade. Ele assentiu e se afastou do carro. Pelo retrovisor, vi ele se afastar e abrir o portão. Dei a ré e endireitei o carro para sair de frente. Passei por ele, no portão e de relance podia ver o seu olhar triste. Não dei atenção àquilo. Não queria mais ter contato com Kaelus e suas esquisitices. Segui pela estrada de terra e pude ver que estava em um lugar que parecia uma floresta. Havia tanta diversidades de plantas e tantas árvores ao redor que pensei que um urso poderia sair dali. Quando consegui achar o trecho que saia daquele lugar, para a estrada asfaltada, nunca fiquei tão feliz nada vida. Passei pelo mesmo caminho que havia encontrado o gato no caminho e derrapado na pista. O que era estranho era ter encontrado Kaelus tão distante da sua propriedade. O que ele fazia naquele dia eu não saberia dizer e não iria buscar respostas. Quando cheguei em casa, ainda consegui encontrar Caitlyn antes de sair do trabalho. Ela me olhou com estranheza. - O que faz aqui? Não deveria ter ido para faculdade? - ela perguntou, vendo eu sair do carro. - Caitlyn, precisamos conversar. Ela me fitou com lábio franzido e parecia desconfiada. Por que ela era tão diferente de Katherine? Entramos na casa e pedi para ela se sentar no sofá. Expliquei a situação com Tomas e que seria necessário sairmos da cidade, procurar outro lugar. Ela não parecia inclinada a fazer isso. Parecia furiosa. - Nós não vamos a parte alguma - ela disse - Você vai. Já estou cansada dos seus problemas e não quero saber desse rapaz aqui, me ameaçando. Eu bem que achei estranho ele procurar você hoje de manhã. Parecia bêbado e estava com um cara estranho com ele. - O quê? Você vai me expulsar? - perguntei, incrédula, apertando os punhos - Eu não tenho para onde ir. - Pois, trate de achar. Não vou ficar com você, sendo que é uma ameaça para mim. Saia dessa casa. Fiquei pasma com a atitude dela. Simplesmente se livrou de mim como se eu fosse um peso. Um incomodo para ela. Subi para meu quarto e arrumei tudo que podia em uma mala de viagem. Só iria conseguir levar as roupas e meu notebook. Tentei ligar para Alyssa, mas só dava caixa postal. Respirei fundo, tentando pensar no que fazer. Troquei de roupas, colocando um jeans e uma blusa confortável e tenis. Desci com a mala para a sala e iria tentar conversar com Caitlyn, mas ela não estava mais lá. Senti as lágrimas despontarem de meus olhos e pensei o que mais poderia acontecer na minha vida. Por que tudo parecia pior a cada instante? Levei a mala para o carro e rumei para a faculdade. Tentei assistir as aulas, mas não tinha animo para isso. Sentia como se o mundo inteiro fosse ruir de repente. Senti uma bolinha de papel acertar minha cabeça e procurei o maldito que fez isso, enquanto o professor de História do Teatro falava no tablado. Estávamos no auditório e havia pelo menos cem alunos ali. Não dava para saber quem era. De repente, vi Artie vir em minha direção. Abri meu caderno, fingindo anotar o que o professor estava falando. Ele se sentou ao meu lado e deu um suspiro entediado. - Essas aulas são tão monótonas – ele murmurou, um pouco próximo demais. - Quer que eu enfie a caneta na sua traqueia ou vai se afastar devagar? – eu perguntei, de forma irritada, segurando fortemente a caneta. - Acho que vale o risco – ele provocou. Virei minha cabeça para o lado e pude ver um enorme sorriso plantado em seu rosto belo. Ele parecia uma escultura, pois não havia falhas. Como alguém pode ser tão bonito assim? Me senti miserável, tão humana e defeituosa. - O que você quer? – sibilei. - Só um aviso para você, minha querida – ele sussurrou, perto do meu ouvido. Sua voz era suave demais – Cuidado com o feiticeiro. - O que? – exclamei. Olhei para os lados, para ver se alguém nos observava, mas ninguém parecia prestar a atenção em nós, muito menos o professor. - O cara das tatuagens. Sabe de quem estou falando. O Kae é muito ardiloso – ele disse, com um sorrisinho prepotente – Gosto dele, mas não gosto dele perto de você. - E você não gosta por que está apaixonado por mim? Ou por ele? – zombei. Estava sendo muito sarcástica naquele instante. O sorriso dele aumentou ainda mais. - Hum, nenhuma das alternativas – ele respondeu, em um tom amistoso. Parecia ser imune aos meus insultos. Ele pegou minha mão e a beijou. Afastei, com raiva – Calminha, isso é por você ser muito especial. Espero que escute o que digo e ande com as pessoas certas, Agnes querida. - Você é preconceituoso com caras com tatuagem, é isso? É da Ku Klux Klan? – eu havia passado dos limites daquela vez, mas queria deixa-lo chocado tanto quanto eu estava com seu atrevimento de vir me dizer com quem eu poderia andar ou não. Não que eu gostasse do cara misterioso das tatuagens. Kaelus não era meu tipo, no caso. Só isso. - Ku Klu...que? – ele perguntou, sem entender – Tanto faz – ele fez com a mão – Eu não tenho preconceito com nada. Sou da paz, Agne – Ah, não, agora eu tinha um apelido, isso tinha que parar já – Só quero que tenha cuidado. Você é importante para nós. - É Agnes – corrigi, irritada – E importante para quem, além de você? Ele parecia que iria responder, mas o professor estava olhando diretamente para nós. - Gostariam de dividir conosco sua explanação tão entusiasmada? – ele perguntou, em tom seco. d***a, todo mundo estava olhando e eu quero me esconder de baixo da terra. - Não, professor. Pedimos desculpas – eu disse, muito envergonhada. Ele assentiu, com um olhar de que: estou de olho em vocês. Algumas risadinhas ecoaram pelo auditório. Olhei para o lado e Artie parecia me pedir desculpas com o olhar. Que cara mais estranho. ** Fiquei na biblioteca, lendo e procurando me acalmar. Liguei para Alyssa algumas vezes, mas ela não atendia o telefone. Kaelus sentou do meu lado na mesa em que estava, depois do meio dia. Eu estava dormindo na cadeira e despertei com o baque do seu livro na mesa. - Está encrencada? - ele perguntou. - Talvez - eu disse - Como sabe que estou? - Palpite, não sei. Você parece tensa. Respirei fundo, olhando para os olhos escuros dele. Não havia nada que parecia abala-lo. - Caitlyn não quer ir embora comigo - eu disse, fechando os olhos e colocando as mãos no queixo. - Quem é Caitlyn? - ele perguntou. - Minha mãe adotiva - respondi. - Ah... e você está aqui porque não tem para onde ir? - Exatamente - confirmei, abrindo os olhos mais uma vez - Ela me expulsou de casa. E não quero ir ao meu trabalho e dar de cara com Tomas. - Poderia ficar na minha casa - ele sugeriu - Você poderia ficar segura lá. - Eu não acho que isso seja uma boa ideia. - E vai para onde, se não tiver dinheiro, nem um lugar seguro para ficar? Ele tinha razão quanto a isso. Apertei as mãos em punhos, tentando achar outra solução que não fosse ficar na casa de um estranho. E havia as alucinações que estava tendo. Na estrada, jurava ter visto uma fada, se escondendo entre as árvores. Aquilo não estava fazendo sentindo algum para mim. Os remédios deviam para com as visões. - Agnes? - senti a mão quente de Kaelus sobre a minha - Ele não vai te achar lá. Eu prometo. Eu o fitei, procurando algo, alguma coisa que me fizesse confiar nele. Eu não sei, mas algo me dizia para me afastar e não estar perto. E o que eu poderia fazer agora? Mesmo que Alyssa me deixasse morar com ela em sua casa, ela morava com sua mãe e Tomas iria me achar rapidamente. - Ok, eu ficarei na sua casa - eu disse.
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