- Quer sair ou não? – Alyssa perguntou, tirando o avental de trabalho.
Aquela semana fora a mais difícil. Conciliar o trabalho com meu estudo parecia ser algo complicado demais. Eu estava cansada e não queria sair em uma sexta a noite.
- Vamos, por favor – ela implorou.
Tirei meu avental e guardei no armário. Voltamos para frente do café e o cara da minha faculdade não estava mais lá. Ele parecia ter descoberto onde eu trabalhava e eu não sabia nem seu nome. E também, não havia perguntado, pois queria manter a distância dele.
Naquela semana, ele viera todos os dias e pedia um café puro. E ficou por um longo tempo sentado, com o seu notebook aberto e aquele livro estranho, de capa de couro preta. Não falava uma palavra e Alyssa parecia ter gostado dele.
- Ele está olhando para você – ela me dissera, algumas horas antes de fecharmos a loja – Ele é muito bonito, apesar das tatuagens e do cabelo longo. Você deveria dar uma chance.
- Nem pensar. Ele age de forma estranha. Não troca uma palavra comigo. Não estou interessada.
Mas, apesar disso, eu me sentia atraída por seu silêncio. Queria entende-lo, mas refreava o impulso de conhecê-lo. Ele era como as criaturas estranhas que eu via quando criança. Exótico, mas perigoso. As criaturas eram alucinações, é claro. E ele, bem, eu ainda não me decidi que perigo ele representa para mim.
Resolvi aceitar o convite para sair e fomos até a casa dela, trocar de roupas. Ela queria ir a uma boate no centro e queria que vestisse algo que fosse digno. Eu não gosto desses lugares, mas não queria deixa-la sozinha. Coloquei um vestido preto justo no corpo, botas de cano alto e um casaco longo que ia até os joelhos. Deixou os meus cabelos escuros soltos dessa vez e passei um pouco de maquiagem. Ela estava parecida comigo, só que com seu vestido vermelho, muito decotado.
Com meu Chevy, chegamos à boate e deixei o carro na garagem do lugar. Meu estomago estava embrulhado. Eu não queria estar ali. Parecia que algo estranho iria acontecer, mas eu não sabia exatamente o que.
As luzes em neon e o ambiente m*l iluminado me davam calafrios. Alyssa me puxou pela mão e conseguimos um lugar vip. Havia uma mesa e ela pediu dois martínis para nós.
- O cara que me convidou deve estar chegando – ela disse, com um sorriso e bebendo seu martíni. Eu não queria tocar no meu, não ainda – Ele é muito bonito.
Assenti, sem prestar a atenção. Algumas pessoas dançavam na pista e a música eletrônica era envolvente. Cada batida parecia hipnótica. Mas, eu me sentia fora de sintonia, como se aquele lugar não fosse para mim. Na verdade, eu quase nunca saia. Caitlyn me pedia para chegar cedo em casa, então, nunca tive costume de ir a festas ou a boates. Essa era minha primeira vez em uma.
- Eu queria ir para casa – eu disse, sem pensar.
- Sério Agnes? Você é maior de idade. Aproveite o momento para relaxar.
Eu não conseguia relaxar. E quando o cara dela chegou, eu não iria mesmo. Ele me fitou de uma maneira estranha. Era alto, atlético e com cabelos escuros, em um corte curto. Ele beijou Alyssa e me cumprimentou.
- Josh, olha só, você não trouxe nenhum amigo? – ela perguntou, fazendo beicinho – Para minha amiga aqui.
Queria protestar, mas ele respondeu primeiro:
- Claro, ele já está vindo – ele disse, com um sorriso estranho.
Os dois saíram para dançar e fiquei sozinha no sofá, sem tocar na bebida. Tudo ali parecia estranho e esquisito. As luzes na boate eram em tom neon, de verde, amarelo, vermelho e azul. Pareciam hipnotizar os dançarinos a dançar de maneira estranha e exótica. Era quase contagiante a felicidade deles, como se estivessem mergulhados em uma alegria a parte do mundo. E tinha relação com o prazer e êxtase do momento, dos corpos girando e se colidindo. Entrei na pista, sem pensar muito. Me sentia guiada, como algo tomasse meu corpo, ou me chamasse.
Deixei que a música me levasse, mesmo não sendo meu estilo. A batida eletrônica me envolvia e desfocava meus sentidos, meu lado racional. Minha mente dizia: saia e meu corpo queria continuar a dança frenética. Girei na mão de vários parceiros, sorrindo e me sentindo fora do corpo. Até que encontrei um, que eu conhecia muito bem. Devido a pouco luz da pista, não podia ver seus olhos. Mas, eu sabia que eram negros como a noite. Ele me fitava com intensidade e seus olhos pareciam famintos. Ele respirou em meu pescoço, como se estivesse se inebriado pela fragrância da minha pele. Queria me soltar dele, mas apenas me deixei levar pela dança, enquanto ele segurava minha cintura. Eu queria perguntar se ele estava me seguindo até ali, mas não fiz isso. Apenas deixei que ele me guiasse na pista e senti que inspirava mais forte, como se trocássemos nossas energias. Como se inspirássemos a energia de todos a nossa volta.
Alguém me puxou pelo ombro, de repente e me vi nos braços de Tomas. Ele parecia alterado e me segurou com força pelos braços.
- Você esta aqui – ele disse, recendendo a bebida.
Senti medo e aquela energia estranha que me tomava, parecia ter desaparecido de repente, com seu contato. Com o medo que tinha dele. Do perigo que representava.
- Me solta – eu disse, tentando-me desenvencilhar dele.
- Não, não – ele negou com a cabeça e beijou meu pescoço – Agora é só nós dois. Estava com saudades.
Fiquei com nojo e tentei empurra-lo pelo ombro, mas ele parecia mais forte e continuou a me beijar. Até que alguém o puxou pelo ombro. Só vi a confusão de corpos. Na pista. Todo mundo se afastou e Tomas e o cara da minha faculdade brigavam. Tomas acertou um soco no rosto dele, mas isso não o derrubou. Ele o acertei de volta, derrubando meu ex namorado no chão. As pessoas dispersaram, enquanto Tomas era atacado sem cessar pelos punhos do meu estranho salvador. Não fiquei para ver o desfecho, apenas sai em disparado, para fora da pista. Procurei a saída da boate, passando por uma multidão de pessoas, que pareciam me empurrar de volta para a pista. Mas me forcei contra elas, tentando encontrar a porta de entrada. Senti que precisava respirar, precisava sair daquele lugar, ou eu mergulharia novamente em um estado frenético e desfocado, como todos os presentes.
Finalmente consegui chegar à garagem e ouvi passos atrás de mim e pude ver o cara estranho da faculdade me seguia. Ele parecia intocado com suas roupas negras. Não havia qualquer marca do soco que levou de Tomas. Seus cabelos escuros caiam sobre seu pescoço, ordenadamente. Não conseguia entender como ele se mantinha tão alinhado.
- Entre no carro e vá para o mais longe possível – ele disse, em um tom soturno.
Franzi o cenho. Tomas e o Josh vinham em nossa direção, o que era estranho. Pareciam mirar o cara da faculdade, com um olhar assassino.
Assenti e cheguei perto do carro, com as mãos tremulas. Ele tirou a chave da minha mão e abriu a porta para mim e entrou logo em seguida, no banco do passageiro. Eu não queria ele ali, mas era melhor não ficar sozinha naquele momento. Não quando Tomas estava drogado.
Dei partida e pude ver Tomas tentando alcançar o carro. Meu telefone começou a vibrar na bolsa e eu sabia que era ele.
- Tem para onde ir? – perguntou.
- Acho que eu deveria perguntar isso a você – eu disse, com o corpo inteiro tremulo.
Seguimos pela rua e um carro apareceu minutos depois, dirigindo de forma perigosa. Pelo retrovisor, quem dirigia parecia alterado, pois estava na contra mão.
- Acelera – o cara ao meu lado disse.
Fiz o que ele pediu e nem sabia para onde ir.
- Para onde vamos? – eu me perguntei.
- Podemos ir até minha casa. Ele não vai te achar lá – ele sugeriu.
Não, tudo menos isso. Mas, não havia escolha, não naquela hora.
- Ok, me diz onde fica.
Ele começou a dar as coordenadas e em uma rua, consegui despistar Tomas. Eu tinha certeza que era ele, devido ao carro que ele estava usando. Depois, nós chegamos a uma área rural, um pouco perto do meu bairro.
- Entra aqui – ele pediu.
Era uma estrada de terra e isso estava realmente me assustando. Seguimos pela estrada, com árvores em cada lado. Não havia iluminação, apenas o farol do carro iluminava o nosso caminho. Parei no momento em que chegamos a um portão de ferro e havia muros, separando uma propriedade.
O cara desceu do carro e abriu o portão. Eu entrei com o carro e pude ver uma casa estilo vitoriana. Parei o carro em frente e desci, abismada. Ele parou ao meu lado e disse:
- Pode entrar e passar a noite.
- Não posso, nem sei seu nome.
- Você sabe um pouco mais do que deveria – ele disse.
- Eu sei? – perguntei, indignada. Nem o conhecia – Você está me perseguindo a semana toda. Acho que você sabe mais de mim do que eu de você.
Ele suspirou e passou a mão pelos cabelos escuros.
- Agnes, sou Kaelus. Estávamos conversando no site Mystikistís – ele disse.
Kaelus. Aquele nome era estranho. Ele não poderia ter esse nome. Deveria ser John, ou Michael, ou sei lá que raio de nome. Mas, não esse.
- Você só pode estar de brincadeira.
Ele negou com a cabeça.
- Não, estou tentando conversar com você a semana toda. Aliás, você é muito m*l educada – ele disse, com ironia.
- E você é um stalker. Como sabe meu nome? – acusei.
Comecei a retroceder, indo direto para o carro e ele me acompanhou.
- Eu sei, pois perguntei a administração – respondeu – E sei que seu namorado está no tráfico e é bem perigoso. E está mexendo com coisas que não deveria. É melhor você ficar aqui essa noite e poderemos ver o que fazer com você.
- Comigo? Você não tem que se preocupar comigo, Kaelus – usei o nome dele. Parecia estranho fala-lo em voz alta. Parecia sagrado.
Abri a porta do carro e sentei no banco do motorista. Ia fechar a porta, mas ele a segurou. Tentei puxar, mas ele a abriu e ficou parado, apoiando a mão o teto do carro.
- Inferno, me deixe ir. Ou me mate logo, tanto faz.
Ele soltou uma risada, sem humor.
- Fique, Agnes. Prometo não fazer nada. Não quer que Tomas vá até sua casa, quer? Ele vai fazer m*l a quem quer que more com você.
Pensei e refleti sobre sua proposta. Eu tinha um spray de pimenta na bolsa. E sabia defesa pessoal. Mas, ele era mais alto que eu e parecia ser muito ágil e forte. Ele bateu em Tomas na boate, o derrubando no chão. E meu ex namorado não era fraco. Mas, eu não tinha escolha. Eu podia não gostar de Caitlyn, mas ela não merecia ter problemas comigo.
- Está bem – eu disse – Mas, uma gracinha, e eu vou acertar você bem no meio das suas pernas.
- Estou considerando isso – ele disse, irônico, sem afastando do carro.
Peguei minha bolsa e tirei a chave da ignição. Fechei a porta do carro e começamos a subir a escada da varanda. Havia um balanço para dois lugares ali, o que era adorável. Ele abriu a porta, com a chave e algo saiu para fora. Era um gato. Ele se esfregou e minhas pernas e parecia carente. O peguei no colo e achei estranho. Era preto, como o gato que eu atropelei na estrada. Quer dizer, eu não sei se atropelei ou ele caiu morto no capô.
- Qual é o nome dele? – perguntei, acariciando a pelagem dele.
Ele ronronava, parecendo agradado.
Kaelus entrou na casa, acendendo a luz no interruptor, na entrada e segui atrás dele. Havia uma escadaria estilo art nouveau, com desenhos nos corrimãos. A esquerda havia a entrada para uma sala de estar e a direita havia duas portas. A entrada da casa era grande e havia um lustre que pendia do teto, com lâmpadas imitando velas. O cara era excêntrico mesmo.
- Eu não dei nome – ele disse, seguindo para a sala.
A entrada era um arco e a sala tinha uma lareira, duas poltronas e um sofá de quadro lugares. A cor dos móveis era preta. As paredes eram revestidas de quadros pequenos, com desenhos de flores, outros pareciam desenhos de tatuagem estilo old school. E havia fotografias desfocadas de mãos, pés, rostos e boca. A parede era em um tom cinza chumbo. Mais um lustre pendia do teto, iluminando a sala. No fundo da sala, havia uma janela com cortinas escuras e diáfanas. E o mais interessante era ver que a janela era com assento. Seria perfeito para ler e ver a paisagem do lado de fora.
- Não tem nome? – perguntei, incrédula, levando o gato comigo – Sério?
- Ele ficou comigo por obrigação. Nada demais – ele disse, dando de ombros.
Puxou um maço de cigarros do bolso e acendeu com o seu zipo, em tom prateado. A fumaça espiralava pelo ar e tinha cheiro de cravo. Ele me fitou, de forma intensa, como se pudesse me ler. Eu me afastei da fumaça tóxica e fui até a janela, afastando a cortina e abrindo o trinco dela, empurrando-a para fora. O ar noturno e frio invadiu a casa, mas era bem melhor que o cheiro do cigarro dele.
- Você parece à vontade – ele parecia ter dito em tom de deboche.
- Se vou ficar aqui, não quero sentir esse cheiro h******l – devolvi no mesmo tom.
Ele continuou fumando e continuava me olhando de forma estranha. Segurei o gato contra mim, como se ele pudesse me proteger.
- Precisa ser forte para ter o que quer – ele disse, soltando mais uma baforada e pegando um cinzeiro em formato de caveira em cima de uma mesa de centro na cor mogno. Deixou que as cinzas caíssem dentro e ficou segurando o crânio em sua mão – Quando se quer algo, tem que lutar com convicção.
- Eu devo brigar com você para que pare de fumar, é isso? – perguntei, em tom sarcástico.
- Se for preciso – ele disse, dando de ombros mais uma vez – Você é muito frágil.
Aquilo me ofendeu. Quem ele pensava que era para falar assim comigo.
- Você é um b****a.
- Melhore seu repertório da próxima vez que for me ofender – ele disse, sem se abalar – Agora, vamos pensar no que te torna forte. O que você acha que te deixa forte, Agnes?
Eu franzi o cenho.
- Que espécie de pergunta é essa?
- Só responda a pergunta – ele disse, deixando o cigarro no cinzeiro e sentando em uma poltrona, de frente para mim. Ele cruzou as pernas e sua calça escura levantou um pouco, relvando seu tornozelo, coberto de tatuagens. Seu sapato social parecia caro. Ele parecia estranho, meio fora de contexto. Cheio de tatuagens, mas vestido com roupas sociais.
- Eu não sei o que me torna forte – eu disse – Acho que por ser solitária, precisei ser forte. E toda vez que tinha alguma segurança, isso me era arrancado.
- Então ai esta sua resposta. Você não pode se apegar a lugares, pessoas, coisas. Precisa permanecer imune a isso, Agnes, se não, eles vão te tirar tudo que tem de precioso.
Não entedia nada do que ele estava dizendo. Parecia até mesmo aquelas criaturas estranhas que via antes de tomar os remédios. Eles viviam dizendo que eu precisava ser forte e despertar. Que deveria voltar para meu reino. Será que estava alucinando de novo? Então, lembrei que não havia tomado meu remédio àquela noite.
- Onde posso conseguir água? – perguntei.
Ele se levantou e saiu da sala. Voltou alguns instantes depois com o um copo e me entregou. Coloquei o gato ao meu lado, no banco. Ele se espreguiçou e se enrolou em si mesmo.
Peguei da minha bolsa meu remédio antipsicótico e ele fez uma careta para mim, quando engoli o remédio com a água.
- Não deveria inibir sua mente com esses sedativos. Isso não vai fazer mais efeito, conforme você envelhece – ele disse, voltando a sentar na poltrona.
- Como sabe que remédio é? – perguntei.
- O nome está na caixa – ele respondeu.
Voltei minha mão para a caixa que segurava e guardei na bolsa. Coloquei o copo no chão.
- E por que está dizendo isso? Como sabe que não vai adiantar eu tomar isso?
Era estranho, pois desde que havia completado dezoito anos, eu começava a ter sonhos estranhos de novo, além de ver as borboletas no jardim, em formato humanoide. Eu não havia conversado com o médico, mas iria fazer isso. Talvez, precisasse aumentar a dose.
- Não tem notado mudanças? – ele perguntou, colocando a mão sobre o joelho dobrado – Pense em quanto isso está inibindo aquilo que você é.
- E o que eu sou? – perguntei.
- Pare de tomar o remédio e você vai entender – ele aconselhou. Levantou do sofá e veio até mim, estendendo a mão – Venha, vou te mostrar um quarto para você dormir.
Peguei a mão tatuada dele e levantei. Soltei a mão rapidamente, me sentindo estranha com seu toque. Ele parecia impassível. Seguimos para fora da sala e ele subiu a escada em caracol. Os degraus eram revestidos em tecido bordo e os corrimãos eram pretos.
Chegamos ao segundo andar da casa e ele me guiou por um corredor com paredes revestidas em tom verde claro. Ele abriu uma porta branca e mostrou o quarto. A cama era no estilo Tudor, com dossel. As cortinas eram em tom marrom e o chão era de madeira. Havia cortinas brancas na janela e um armário enorme em tom mogno estava recostado à parede.
- Obrigada por tudo, Kaelus – eu disse, porque me sentia na obrigação de agradecer.
Ele apenas assentiu e fechou a porta. Mandei uma mensagem para Alyssa, perguntando se ela estava bem e outra para Caitlyn, dizendo que iria passar a noite fora. Não disse que estava na casa de Kaelus. Depois eu iria explicar para ela o que estava havendo.