Heitor Veigas Entrei em casa como quem invade um território inimigo. A porta bateu atrás de mim e o silêncio do apartamento pareceu zombar da minha pressa em escapar. Afrouxei a gravata com violência, arrancando-a do pescoço como se ela fosse a corda que me enforcava. O paletó voou para cima do sofá, cada gesto era pesado, impaciente, como se o próprio ar me incomodasse, um pedaço de mim largado como trapo. Fui direto para o bar. O som do gelo batendo contra o vidro quebro o silêncio como um disparo. Servi um uísque generoso, levei o copo à boca e deixei o líquido queimar garganta abaixo. O gosto amargo deveria ter me trazido paz. Não trouxe. Fechei os olhos, encostei a cabeça contra a parede. E ela voltou. Antonela Ribas. O tremor nos dedos. O corpo cedendo contra o meu. A boca que

