Alguns Dias Depois...
Marcos Narrando
A praga do meu irmão voltou hoje de viagem, e com a volta dele, Fernanda retoma o trabalho com ele amanhã. Isso vai nos separar.
Pensei em matar meu irmão para ficar próximo da Fernanda? Não, porque não sou i****a como ele, que me mataria pela Maya.
Chego na empresa, triste por ser meu último dia com ela.
— Bom dia — digo tristemente para a senhora da limpeza, e ela me olha.
— Bom dia, senhor Marcos. O senhor está bem?
— Não muito, mas não se preocupe. É só meu coração que está partido — falo dramaticamente, e ela dá risada.
— Quer um abraço, menino? Vem cá. — Dou um abraço nela e sigo para minha sala.
Depois de alguns minutos, Fernanda aparece animada.
— Bom dia, senhor Marcos.
— Está sorridente, Fernanda — digo cruzando os braços e a encarando.
— Sim, estou feliz. Hoje temos muitos contratos para revisar.
— Por que está feliz? — insisto no assunto, apoiando meus cotovelos na mesa.
— Não sei se é profissional essa pergunta.
— Então, se eu pedir para sair com você, não profissionalmente, você aceitaria? — pergunto.
— O quê? — Ela se surpreende.
— É que hoje é o nosso último dia trabalhando juntos, e eu queria te chamar para jantar. Então... você aceitaria?
— Sim.
— Ótimo. Às 20h eu te busco em sua casa — falo sorrindo.
— Aonde vamos?
— A um lugar legal — respondo sem muitas explicações para deixá-la ansiosa. Quero que ela fique animada. E aí vocês se perguntam: e a Helena? Aquela cobra está em casa esperando que eu aceite o acordo e******o dela.
— Eu preciso de mais informações para me arrumar.
— Não se preocupe com isso. Sei que você se sairá bem e estará incrivelmente linda, como já é. — Me seguro para não a elogiar mais.
— Vamos trabalhar?
— Sim, mas hoje sem pressa. O que sobrar, o vagabundo do Mark faz. — Percebo um leve tremor de medo nela quando cito meu irmão. Ela sorri falsamente para tentar me tranquilizar.
— Sim, sim, ele fará. Mas, se eu puder levar para casa, posso fazer durante a noite, depois do jantar, é claro. — Fico com raiva. O Mark já fez algo para ela agir desse jeito.
— O que foi, Fernanda? O que meu irmão fez para você? — Tento esconder minha raiva para que ela se sinta confortável e me conte.
— O senhor Mark? Nada. Ele não fez nada. — Percebo que ela arruma bastante o cabelo, claramente nervosa.
— Eu sei que ele é meu irmão, mas eu não me importo em acabar com ele, Fernanda. Por você, eu faço tudo. Agora, me diga.
— Mas não aconteceu nada. — Ela insiste em negar.
— Ele abusou de você? — Duvido que meu irmão faria isso, mas só de pensar nisso quero matá-lo com minhas próprias mãos.
— Não, ele nunca tentou algo comigo e sempre me respeitou. Ele sempre me tratou como uma ninguém, só mandava ordens e pedia tudo com rapidez e eficácia. Mas isso eu me acostumei, afinal, trabalho para ele há um tempo.
— E o que ele fez?
— Ele me ameaçou. Eu tentei avisar à Maya que ele era louco, possessivo, obsessivo, mas ele ouviu tudo. Quando me viu no dia seguinte, me levou para sua sala e disse que faria de tudo pela Maya, inclusive matar. Ele disse que a calmaria dele era ela e eu queria tirá-la dele. Ele acabaria comigo se fosse preciso.
— Meu Deus, o meu irmão? — Fico assustado com o comportamento dele, e depois com raiva... muita raiva. Ele ameaçou a minha mulher. Vejo que ela chora e me levanto para abraçá-la.
— Desculpa — ela diz, olhando para mim. Meu coração se parte ao ver seus olhos assim.
— Você não tem que se desculpar, está bem? Eu também não gostaria que ficassem entre minha mulher e eu, mas ele não pode fazer isso, ok? Ele não vai te ameaçar novamente. Eu vou te defender de tudo, ok? Ele não vai mais encostar em você. Pode enfrentá-lo. Não tenha medo dele. Eu não vou deixar ele fazer nada, ok?
— Tudo bem — ela diz, mais tranquila. Limpo as lágrimas dela e beijo sua testa.
— Acho que hoje não dá para trabalharmos. Que tal se nós sairmos?
— Sair?
— Sim, podemos ir ao parque ou ao cinema.
— Eu tenho que trabalhar.
— Esqueceu que eu sou o chefe? — Ela dá risada, e eu pego suas coisas.
— Vamos. Eu quero tomar sorvete.
Saímos e entramos no meu carro. Paro em uma sorveteria perto do parque e desço correndo. Abro a porta para ela e a ajudo a sair com cuidado.
— Você parece um sonho — ela diz para mim, e eu sorrio.
— Mas sou sua realidade, querida. — Levanto a mão e um garçom vem.
— Oi, Fernanda — ele fala sorrindo para ela. Ela não é dentista para querer ver todos os dentes da boca dele. De onde ela conhece esse cara?
— Oi, Davi? — Ela não se lembra dele.
— Gabriel, você não se lembra de mim? — Ele parece ofendido. Quase dou risada, mas fico com raiva pensando de onde ele a conhece e com quantos caras ela já saiu. São tantas perguntas.
— Desculpa, eu me esqueci. Sofro de perda de memória. — Claramente, ela mentiu, mas parece que ele acredita.
— Da boate, de música latina. Você estava incrível com aquele vestido, e nós dançamos juntos. Depois saímos. — Eu vou matá-lo.
— Ah, eu sei qual é o lugar. Bem, queremos dois sorvetes, por favor.
— Dois de chocolate — falo qualquer coisa para ele sair. Funciona. Olho para ela de braços cruzados e sobrancelha arqueada. Ela me encara séria, mas acaba rindo e eu também.
— O que foi?
— Com quantos caras você saiu?
— Com quantas mulheres você já ficou?
— Três — respondo sincero.
— Só três? Você é um Bellini. Eu ouvi falar da fama de vocês quando comecei a trabalhar na empresa.
— Fama dos meus irmãos, na verdade. Eu tive duas namoradas e uma ex-esposa.
— Ex-esposa? — ela pergunta. É claro que a Helena não assinou o papel, mas ou é agora ou nunca.
Graças a Deus, os sorvetes chegam antes e o cara sai rapidamente. Começo a comer o meu, e quando vejo, ela já terminou o dela.
— Quer mais? — pergunto, e ela assente. Sorrio e entrego o meu. Eu amo com todas as minhas forças essa mulher, inclusive o estômago dela, que parece ser um buraco sem fundo.