Belo e Frio

1144 Words
Você cheira a jasmim. Aquelas poucas palavras fizeram com que eu segurasse a respiração até enfraquecer. Havia algo com o jeito dele de falar, uma subjetividade e uma firmeza que fizeram com que ar ficasse pesado, condensado pela luta que nossos olhos travavam. Se nossos olhares lutavam, entretanto, eu certamente estava perdendo. Ele me engolia como se eu estivesse debruçada no mel dos olhos dele, recebendo um suave esplendor dos deuses. Era um homem estonteante. Senti os músculos dele contraídos mesmo com a camisa social escura que o cobria. Ele abaixou os olhos pelo meu rosto, analisando-o cautelosamente. Meus olhos traiçoeiros foram para o maxilar bem desenhado dele, observando-o enquanto ele engolia a seco… E então, como se nunca tivesse me tocado, o CEO da Arômata deu um passo para trás e me soltou. Ele balançou a cabeça, a expressão alternando para uma mais fria e impenetrável do que a de antes. — Achei que estivesse claro no contrato que não pode usar perfumes de outras marcas — censurou-me. Sem palavras. Eu estava absolutamente sem palavras. Queria desenhá-lo. Era uma injustiça que uma pessoa como ele não estivesse em uma pintura, olhando diretamente para a pobre alma que o observava do outro lado. Belezas menos estarrecedoras estavam presentes em obras famosas, enquanto aquele fenômeno perfeito da natureza não era retratado como merecia. Você é Sophia D’Ângelo, lembrei a mim mesma. Pelo bem da sua sobrinha e da sua irmã, você o odeia. Mas não odiava. Pelo contrário: estava em êxtase com a impressão que as mãos dele deixaram na minha cintura. Limpei a garganta e desviei os olhos. Precisava me recompor. Sophia jamais teria uma atitude tão reverente na frente dele. Eu podia deixar que meu coração disparasse e a excitação se apoderasse mais tarde, quando estivesse sozinha. Ali precisava interpretar o papel que me foi designado. — Tenho admirado fragrâncias de jasmim e não temos nenhuma parecida — falei, a voz inesperadamente trêmula. Peguei a jarra de água no meio da mesa, evitando encará-lo enquanto ele se sentava no lugar que separei para ele seguindo as instruções da minha gêmea. Mudando de assunto para o caso da Arômata possuir perfumes com aquela essência, perguntei: — Quer água? Ele não hesitou. Minha presença para ele era como a de uma mosquinha incômoda. Respondeu, direto e sem emoção: — Não. Nada de obrigado ou temos sim fragrâncias de jasmim, porque provavelmente tinham. Aquele homem não estava nada interessado no que eu tinha a dizer. Ele tinha se inclinado na mesa e lia os papéis do projeto impresso com mais interesse do que aquele que demonstrava ao precisar falar comigo. Era quase vergonhoso ser menos interessante do que papel, mas tinha um quê de vitória: ele não tinha notado que eu não era a secretária dele. Ele me salvou de quebrar os dentes e foi só. Foi um péssimo início de farsa, mas funcionou. Pensaria a respeito do perfume em outro momento; não queria gastar uma fortuna comprando um frasco da Arômata. Depois de trocar a água, encostei-me de pé atrás dele como me foi ordenado. Mantive a posição enquanto sentia os pés latejando no salto. Funcionários entraram em grupos separados — marketing, projetos e design. Elaine estava entre eles e foi a única que pareceu notar minha presença, revirando os olhos ao passar por mim. Com todo aquele desdém, não restava mais dúvida de que ela e Sophia tinham brigado. Todos ficaram em silêncio no momento em que atravessaram a porta. Ninguém se atrevia a desrespeitar a presença do CEO. Como um trovão rasgando o céu, a voz dele fez todos enrijecerem: — Comecem. Um rapaz com crachá da equipe de projetos se levantou. Chamava-se Jonathan. Ele pegou o controle de slides que eu deixei perto do lugar dele e eu quase suspirei ao perceber que as instruções da minha irmã eram incisivas e sem margem de erro. Se me solicitassem além do que ela instruiu, não saberia o que fazer. O chefe se endireitou na cadeira. Eu só conseguia ver as costas dele. Ele tinha uma postura direta que deixava qualquer um assustado. Cada movimento parecia calculado, como se ele estivesse agindo de propósito. Jonathan fez as apresentações com rapidez desnecessária. Gaguejando, disse: — Agora vou falar um pouco sobre a nossa ideia. Escorei-me na parede e passei os próximos minutos sentindo pena do funcionário. Devia ser a primeira vez que ficou responsável por apresentar o projeto na frente daquele homem majestoso e eu quase quis abraçá-lo. Não entendia como Sophia não se sentia desajeitada diante daquele olhar. Será que ela já percebeu como ele é bonito? Mas é claro que tinha percebido. Ela tinha olhos. Queria ter sido melhor avisada sobre aquele momento. A familiaridade dele me assombrava, como se a recordação estivesse bloqueada a cadeados na minha memória. Ao mesmo tempo, pensava que seria impossível esquecer alguém como ele. Como poderia tê-lo visto antes? Ele não era o tipo de ser humano que passaria despercebido. A reunião se estendeu até que eu achasse que meus pés sangrariam. O projeto era sobre a apresentação de um novo perfume que já estava pronto para ser fabricado, mas em atraso devido ao descontentamento do presidente da empresa com as apresentações do frasco. Não estava sendo fácil para a equipe na minha frente. Cada vez que abriam a boca para explicitar uma nova ideia, o CEO balançava a cabeça negativamente. Sem delongas e com um pouco de desdém, ele disse: — Não está bom. Os ombros dos funcionários caíram, derrotados. — O que o senhor acha que precisa ser melhorado? — Elaine, a corajosa do design, perguntou. Ele olhou lentamente na direção dela, desinteressado. — Tudo. Climão. Mas eu não podia discordar dele. A apresentação do frasco estava entediante, como se tivessem extraído de algum comercial de perfume francês e jogado na logomarca Arômata. Não tinha nada artístico ou inovador no produto. Elaine se empertigou. — É a quinta vez que fazemos modificações no projeto e o senhor ainda não aceitou. Se não disser o que precisamos melhorar, como vamos saber? O cabelo liso nanquim do CEO deslizou conforme ele se ajeitou. Não podia ver a expressão dele, mas conseguia imaginar que não era boa. — Você tem razão, Elaine — disse ele. — Talvez eu deva contratar outra equipe. O rosto da funcionária ficou vermelho e ela se afundou na cadeira. Meus olhos se alargaram nas órbitas e Elaine olhou para o lado a tempo de capturar minha expressão. Um erro. A raiva que não podia direcionar ao chefe — por Deus, Sophia tinha dito o nome dele? — foi completamente direcionada a mim. Os lábios pintados de vinho da mulher se curvaram em um sorriso. — Talvez Sophia tenha alguma opinião sobre o assunto — comentou Elaine, cheia de deboche. Segurei a respiração enquanto acrescentava: — Ela acompanhou todas as reuniões. Não, não, não.
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