Mais uma vez, estou correndo para enfrentar o Mandante Isiton, desta vez ele não me escapa.
Eu saio empurrando todo mundo, corro como um furacão na direção do crápula, vou abrindo caminho para chegar ao ponto final. Na verdade, eu preciso dar um ponto final nesta guerra, a cabeça da serpente precisa ser cortada.
Estou bem perto do Mandante, e ele sabe, ele me nota. Antes que eu me aproxime por mais alguns metros, ele assopra um apito mudo e uma lacraia enorme sai de dentro da caverna e do mesmo modo que eu cortei a multidão, ela vai espalhando várias pessoas com seu enorme corpo pelo campo, inclusive eu.
Era só o que me faltava. Solto um grito tão agudo que nem me lembro qual foi a última vez que gritei assim.
Que ódio, velho!
Se tem algum inseto que odeio mais que escorpião e aranha, é lacraia, centopeia, ou piolho de cobra, como chamo na minha região. Todas aquelas patas e antenas e presas, me revira o estômago. Mas tenho que ser forte.
O desgraçado do Isiton está sorrindo para mim, montado em cima daquele animal asqueroso. A lacraia é tão rápida que se não fosse tão grande, nem seria vista. Ela corre para dentro da floresta pegando fogo e eu preciso segui-la.
Antes que eu dê um passo, Metrim para bem na minha frente e diz:
— Rosy, não vá atrás dele, ele está montado em uma venepresa. É uma armadilha. Não sei como ele consegue adestrar estes animais perigosos.
— Oxe! De onde você apareceu… Metrim, ele está fugindo, não posso ficar sem fazer nada. Eu sei que é uma armadilha, mas vou lutar com todas forças para acabar com isto.
Esta conversa não dura trinta segundos, eu corro para a direção em que Isiton foi com a venepresa. Pego uma espada e uma tocha. Ainda posso ver o inseto bem longe, é extremamente rápido, não mais que eu.
Infelizmente, estou longe do campo de batalha, longe do Metrim, da Rainha que nem sei se lutou também, longe do exército de Metrimna. Estou sozinha, no meio de uma floresta escura, não sei onde está o Mandante Isiton, ele se escondeu, tenho certeza. Mas onde?
Apesar de ter uma ótima visão, não sei onde pode estar o Mandante, ele sabe muito bem se camuflar, fora que conhece aquelas redondezas como a palma da mão.
Para se esconder de alguém é muito fácil, como ele fez por muito tempo. Como ele conseguiu m***r um verme gigantesco comedor de carne que estava vivo há séculos?
Eu olho para todos os lados, principalmente para cima, pois, a lacraia só pode estar em uma árvore, ela é tão grande que eu consigo vê-la de longe. Mas ela é muito ligeira, talvez, da primeira vez que perdi o Mandante, a lacraia estava por lá para levá-lo embora.
Na hora exata e no momento exato, que conveniente.
Nesta hora, confusa e perdida, apenas com uma tocha e uma espada nas mãos, ouço o som de um galho ser quebrado, eu me viro rapidamente para frente e vejo um homem enorme sair das sombras, atrás de uma rocha, para o meu campo de vista.
Isiton está com sua capa cinza e com o seu martelo enorme na mão, ele joga a ferramenta no chão e retira a capa. Ao se revelar, parece estar triste, mas não tenho pena. Porém, ainda estou confusa.
— O que diabos você está fazendo? — questiono com a espata apontada para ele.
Ele levanta as mãos para o ar e responde:
— Por favor, Rosy de Aster, fique comigo.
— Você e eu sabemos que isso nunca vai acontecer. Por que insiste? Você nem me conhece.
— Conheci o suficiente para ter a certeza de que você deve estar ao meu lado e ser uma matriz para o meu propósito.
— Deus que me livre. Nem se eu tivesse fumado m*****a.
— O quê… Rosy, entenda, a sua linhagem com a minha geraria a melhor raça de árvomes deste mundo, você seria a Mãe de Todos, nossa descendência seria a raça mais poderosa, a mais bela.
— Só me diga, por quê? Por que eu faria isto? Você matou jovens inocentes para ter a vida eterna. E eu nem gosto de você…
— Ah! Por favor, não tente se enganar. Deixa-me te revelar uma coisa, se eu não tivesse feito o que fiz, outro faria, iria acontecer de qualquer jeito.
Eu faço uma pausa antes de perguntar:
— Como você descobriu sobre a Seiva da Vida? Você não me parece nenhum cientista.
— Acredito que você já sabe.
— Os Árvos.
— Sim, eles me capturaram e me ensinaram tudo, queria que eu causasse um impacto muito grande em Metrimna. Eles acham que, pelo menos, um terço da população deste mundo deve morrer, e o Império de Metrimna é o mais populoso do mundo. A superpopulação ameaça a existência deles, e eles disseram que se eu não fizesse isso, outro faria, e se se recusasse também, criariam outro arvomecida que não falharia em extinguir todos nós. Estão sendo misericordiosos.
— Muitas coisas não fazem sentido neste discurso, principalmente a de te transformarem em um imortal?
Isiton dá um passo à frente, mas eu ordeno que ele pare.
— Rosy de Aster, os Árvos descobriram que a melhor maneira de controlar a superpopulação é nos tornando semelhantes a eles, principalmente na reprodução, Árvos macho e fêmea só procriam uma vez. O contato torna o macho estéril e a conceição torna a fêmea estéril. Apenas se pode ter um filho por casal, será biológico para nós também.
— Então arranje uma árvome fértil para você, por que tem que ser eu?
— Por que eu já te fecundei.
Eu paro no tempo e acabo abaixando a guarda.
— O quê? — o meu grito é tão audível que ecoa por toda esta área da floresta qual estamos, dou uma pausa para absorver a informação, não acredito que é isto mesmo que estou ouvindo. — Você me estuprou? — questiono com raiva, mas no fundo, estou abalada.
— Como? Quer saber se eu a violentei? Não, não tinha este propósito, a queria apenas como uma humana de estimação. Você quem me seduziu, você quem me convidou para deitar-se comigo, e eu não resisti, nem acredito que a martelada te fez esquecer tudo. O seu plano era fugir, você me enganou muito bem. Como você acha que quase fugiu da jaula? Pensou que te deixamos sair para passear? No terceiro dia comigo, você já tinha um plano de fuga que envolvia intercurso s****l — Isiton sorri de canto de boca —, e pareceu que você gostou.
— Fecha a cara, vagabundo…
— Você sente alguma coisa por mim, eu sei — ele estende a mão outra vez. — Rosy, eu não pude deixar você escapar de mim, ainda mais agora que está gestante do meu primeiro e único filho. Por favor, venha comigo, muitos árvomes de Metrimna vão morrer, e você vai acabar sendo alvejada se estiver com eles.
— O quê?
— As armas que eles possuem são limitadas, mas o suficiente para exterminar todo o Império.
Que inferno, tudo tá fazendo sentido.
O que eu faço? Estou surpresa por ter tido a ideia de f********o como plano para fugir, eu jamais faria isto se não fosse meu último recurso. O que eu havia esquecido é que neste mundo não tem a pílula do dia seguinte e agora estou grávida… De novo.
Não pensei direito, não me julguem.
A pior parte é que parece que ele tem razão. Mas eu não posso ir com ele, por mais que eu tenha alguma atração física latente, o Príncipe Metrim me deixa bem mais confortável com a sua presença.
— Estou grávida, certo? Eu vou cuidar do bebê, mas não vou ficar com você. De jeito nenhum.
— Esta não é uma prática comum de uma dama.
— Dane-se, eu não quero esta vida. Fora que eu gosto do Príncipe Metrim, não saberia conviver com você nem se eu quisesse.
O Mandante Isiton fica aborrecido com o que digo. Ele demonstra.
— Eu não vou permitir que você e o meu filho fiquem longe de mim — assim que Isiton pega o apito, eu me surpreendo porque sei exatamente o que é aquilo.
Isiton assopra o apito e eu me viro com a espada para golpear o que quer se aproxime de mim, mas duas pinças descem de uma árvore e me agarram. Eu começo a gritar, porque várias patas estão me segurando, então eu uso a espada e corto a centopeia no meio.
O inseto grunhe e me solta, eu caio da árvore e ele também, uma metade corre para qualquer lugar. Mas a metade de cima do animal ainda está viva e consciente. E ela avança.
Estou no meio entre a lacraia e o Mandante Isiton que pega o seu martelo e corre na minha direção também, contudo, de longe, o som de um helicóptero se aproxima e uma libélula gigante agarra o Mandante e o leva para o céu, depois, o Príncipe Metrim cai em cima da lacraia e crava a sua espada na cabeça do animal.
Meu herói.
A lacraia corre enlouquecida para a floresta enquanto luta para que Metrim saia de cima dela. A praga não morre fácil.
Eu olho para cima e percebo que a libélula havia caído, o Mandante Isiton a atingiu com o martelo e está solto de novo, mais uma vez ele consegue escapar.