É verdade?

1421 Words
Julia narrando. Seguro o terceiro resultado de gravidez positivo que fiz em mais de um mês: — Mas isso, está errado, eu quero um novo — falo e a obstetra respira calmamente. — Júlia, minha querida, eu já falei que o falso positivo é extremamente raro, e após fazermos vários testes de fita e de sangue, você está grávida, minha querida. — Isso não pode ser possível — falo de novo, e a Jade revira os olhos ao meu lado. — Eu tomo a injeção anticoncepcional, doutora, era impossível eu engravidar. — Bem, foi um milagre, quem sabe os planos de Deus? — ela tenta me fazer sorrir. — Eu sei os meus, eu e Deus sabemos que não tenho vocação para ser mãe. — Vamos tentar se acalmar, tá bom? Você ainda tem muito tempo para pensar em qualquer coisa, afinal, são nove meses, né? Agora podemos fazer a ultrassonografia. — Podemos — ando com ela até a máquina e minha amiga segura minha mão, também ansiosa. — Essa pequena manchinha é o seu bebê. Eu chuto uns trinta dias, mas no exame de sangue que recebemos podemos ver exatamente. — Quando vou poder saber o sexo do bebê? — pergunto ainda assustada, a ficha não caiu. — Você e o papai devem estar ansiosos, né? — a médica pergunta e fecho a cara para ela, entrometida. — Somos apenas eu e esse bebê — digo simples, nunca mais volto aqui. — E a madrinha aqui — a Jade diz animada e dou risada. — Madrinha? — Eu sei que você tem um monte de amigos, mas disso eu não abro mão — beijo sua mão que segurava a minha agradecida. — Prontinho, as imagens vocês pegam lá na recepção, ok? Vou deixar todo seu pré-natal agendado, mãezinha. Espero você na próxima consulta. — Estarei junto — a Jade diz para mim e limpo minha barriga do gel nojento. Saímos da sala dela e pego o envelope grande na recepção, saindo apressada. Hoje tem um evento na casa dos meus chefes, vou conhecer o filho deles para quem vou trabalhar, mas estou mais animada com a comida, estou morrendo de fome. [...] Assim que chegamos na mansão Russo, nos separamos quando eu dou uma desculpa e ando apressada para a cozinha. Vejo milhares de caixas de comida e funcionários entrando e saindo a todo momento: — Senhorita, o que faz aqui? — um garçom pergunta e pela sua cara vai me expulsar. — Eu estou grávida e estou morrendo de vontade de comer aquele docinho com castanha em cima, posso pegar? — sorrio tentando o convencer, que assente me dando um potinho. Ele abre as caixas para mim e pego mais doces do que eu deveria. — Muito, muito obrigada — ele sorri dando de ombros e saio pela porta dos fundos, parando em um dos bancos do jardim. Como devagar apreciando o sabor, mesmo sendo maravilhoso, não consigo pensar apenas nisso, na minha cabeça passa tanta coisa. Mas mesmo não tendo sido planejado e nem tendo caído a ficha totalmente, eu já estou começando a amar esse pequeno ser. Vou ter que fazer tanta coisa. Meu apartamento tem dois quartos pelo menos; eu usava um como biblioteca e salinha de tranqueira, mas arrumarei tudo e farei um lindo quartinho. Vou ter que fazer alguns cursos e ler livros de como ser mãe. Não quero ser nem um pouco parecida com os pais que eu tive. Espero que não seja tão difícil. — Ai, meu neném, vamos ser eu e você. Talvez eu nunca mais ache seu progenitor gostosão, mas espero que você puxe os olhos dele — dou risada percebendo que estou maluca, falando sozinha, nem sei se com um mês o bebê tem orelhas ou consegue ouvir. — Tá escutando? Faz algum movimento se estiver — testo e coloco a mão na barriga esperando. Quando nada acontece, desisto; pelo jeito, tenho muito o que aprender sobre crianças. [...] Ando cumprimentando algumas pessoas que conheço e vejo a Jade perdida na multidão: — Aonde você foi? — ela pergunta brava, mas sorrio. — Fui direto na cozinha, estava com vontade de comer um doce e o pessoal do buffet me deixou pegar. — Não trouxe nenhum para mim? Falsa — ela finge tristeza e dou risada. — Seu afilhado ou afilhada comeu tudo — falo e ela me olha com seus olhinhos brilhando. Eu sempre achei que a Jade seria a primeira a engravidar. Ela tem um jeito bem mais maternal do que eu. Começa a tocar a música da entrada e vejo meu chefe aparecendo no topo da escada com sua esposa, sorrio para eles olhando atentamente. O Andrew, filho mais velho, aparece sério e logo atrás o Antoni, que vem emburrado. Olho de canto para a Jade, que admira seu namorado totalmente apaixonada. Eles são bem fofinhos. Por fim, o último e tão esperado filho aparece. No instante em que vejo seu rosto sorridente, o reconheço; meu coração erra as batidas e o sorriso sai de meu rosto. Abaixo minhas mãos, que estavam prontas para bater palmas igual a todos fazem. Não, não, não, não! Eu não posso ter transado com um Russo. Ele não pode ser pai do meu bebê. p**a merda, o destino só pode estar me zoando. Eu preferia ter feito esse filho com o dedo do que com um dos Russos malucos. — Amiga — chamo a Jade desesperada e seguro em seu braço, sentindo minha força ir embora me fazendo cambalear. Eu não posso desmaiar, eu tenho que sumir daqui. Eu preciso pensar. — O que foi, Ju? Sua pressão caiu? — É ele, amiga — olho para o topo da escada, vendo-o analisar a multidão, me viro de costas tentando não ser reconhecida. — Ele quem? — O gostoso da balada, o pai do meu bebê — sussurro e ela abre a boca em choque, procurando. — Quem? — O filho do Senhor Giovanni, meu novo chefe. A Jade abre a boca em choque e, sem pensar duas vezes, me puxa para fora da multidão. Andamos em direção à cozinha e fico sentada em uma das mesas, não me sentindo com coragem nem para ficar de pé. Enquanto penso em fugir e como lidar com tudo isso, a Jade me entrega uma água, que agradeço e viro de uma vez. Minha garganta estava extremamente seca e eu nem havia percebido. — Fudeu, amiga, me tira daqui, por favor — peço nervosa. — Tá legal, vamos pelos fundos. — Vamos aonde? — olho com raiva para o Antoni, que abraça a Jade, impedindo nossos planos. — A Júlia está passando m*l, doidinho, vou levá-la para casa. — Eu vou junto — ele diz e negamos com a cabeça. — Você tem que ficar com a sua família — eles começam a discutir e olho para todos os lados nervosa. — Mas você e a Júlia também são minha família — ele diz e na hora o encaro, procurando qualquer traço de ironia. — Eu sou? — pergunto chocada. O que aconteceu? — Você é a única família da Jade, então como estamos juntos, você também é da minha — ele fala e fico em silêncio observando quem se aproxima. Me levanto com pressa, apertando a mão da Jade. Quando tento me virar para correr, ele é mais rápido. — Encontrei você — ele diz, encostando no Antoni, mas me olhando. Paro de escutar o que eles conversam, sentindo minha voz ir embora. Parece que consigo escutar o batimento do meu próprio coração. — Eu te conheço? — ele pergunta sorridente para mim e tento negar com a cabeça. — Ah, claro, meu pai me mostrou fotos suas. Vai ser minha secretária, não? Ele não se lembra de mim? Como esse desgraçado pode não lembrar de mim enquanto eu estou quase infartando? — Sim — falo e, para ignorá-lo, procuro alguém para eu ir falar. — Podemos conversar a sós? Eu queria tirar algumas dúvidas e te conhecer — Alec diz, me deixando totalmente confusa. O que ele quer, se nem sequer lembra de mim? Ando na frente em direção ao jardim, mas ele me alcança e segura meu braço com uma força desnecessária, me levando para o segundo andar. — Se você não soltar meu braço, eu juro que arranco sua mão com meus dentes — falo enquanto sorrio falsamente para ninguém perceber. — Desculpa, me excedi — ele afrouxa sua mão, mas não me solta, me levando para um corredor vazio.
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