O sumiço de Teresa Plath

1077 Words
Quando os seus pais chegaram ao apartamento, as plantas encontravam-se semimortas, a gata Juma miava lambendo as próprias patas, mas havia comida num dispositivo próprio que a alimentaria por mais alguns dias e a torneira se encontrava aberta de modo que a gata pudesse beber. O resto estava impecável, como um apartamento que está à venda e pronto para que uma série de fotos sejam tiradas e publicadas. No quarto, uma pequena bagunça: armário aberto, alguns cabides no chão, uma mochila, algumas roupas reviradas. Tinha fugido. Com toda certeza. A mãe, uma detetive nata, decidiu revirar o resto para encontrar vestígios de onde ela poderia ter ido. Ao abrir a gaveta de uma escrivaninha, lá estavam alguns diários e folhas que foram arrancadas deles. Com uma série de textos que, agora, em lágrimas porque Teresa não atendia as suas ligações e havia um razão: o celular estava em cima da cama, ela finalmente leria. Não havia o que fazer, a polícia já havia sido acionada e aquelas fotos de mulher descompensada e desaparecida já circulavam na internet. Não havia também vestígios de Alprazolam, ela havia certamente levado todo o seu estoque particular. Textos retirados do diário de Teresa Plath Táxi lunar Apenas mais um relato da minha vivência com o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Hoje foi um daqueles dias em que, por um acontecimento banal, eu me perdi de mim. Meu irmão me chamou de lunática em uma discussão, o desenrolar foi eu interpretar como maluca, doida, doente e todos os adjetivos que eu já escutei de pessoas próximas. Foi o gatilho para um surto que, apenas pessoas com borderline poderiam entender. Devido a alta carga de sensibilidade que pesa sobre nossos ombros. Como se toda essa sensibilidade e pensamentos autodepreciativos fossem uma âncora que fincou nosso barco na areia. Sou do tipo implosiva. Foram raras às vezes em que eu arremessei objetos ou agredi pessoas, física e verbalmente. Eu me machuco para não machucar o outro. Eu sinto culpa, ao invés de culpar o outro. Eu sempre me vejo como sendo o grande problema. Então me corto, me arranho, me belisco e, no caso de hoje, bati a cabeça na parede repetidas vezes com o desejo de que ela se partisse. Pensei que não havia outra saída a não ser o suicídio, então ingeri variados remédios. Subi na janela sem grade e vi que a altura era boa o bastante para que, talvez, eu morresse se me jogasse dali. Poderia não morrer mas, quem sabe, um coma que me deixasse em stand by. Quando eu coloquei a primeira perna para fora da janela, começou a chover intensamente. Então eu fiquei ali, sentada na janela, deixando as gotas de chuva me molharem e se misturarem com as lágrimas abundantes. Fiquei ensopada, mas não queria descer. Queria sentir a chuva me molhando, porque eu amo chuva e acredito, com toda minha força e fé, que Deus a mandou para que eu não me jogasse. Se eu me jogasse, talvez eu nunca mais visse e sentisse a chuva de novo. Me lembrei de São Pedro, impulsivo como era, e de como associam a chuva à ele. Lembrei do quanto eu amo São Pedro, do quanto tenho vontade de conhecê-lo um dia, e eu até achei que esse dia seria hoje. No entanto, Deus ordenou que a chuva me parasse, como um sinal vermelho no tráfego. Deixei o celular no modo avião e minha mãe já estava preocupada, pedindo que meu irmão, o mesmo que me chamou de lunática, ficasse me observando. Ela tem medo de que eu tome coragem um dia, a qualquer momento. É preciso muita tristeza, desespero e coragem para colocar em prática algo assim. Portanto, sempre fica no campo das minhas idealizações. Corda, remédios, ir para a frente de um carro em movimento, me jogar de um lugar alto. Já foram tantas as possibilidades mas, nenhuma delas foi capaz de me fazer ir de uma vez por todas. Sempre sou impedida, pelo meu medo, ou por algo que surge repentinamente me fazendo desistir. Dessa vez foi a chuva. Lembrei da música November Rain, por estarmos no mês de Novembro. “Because nothing’ last forever | Pois nada dura para sempre And we both know hearts can change” | E nós dois sabemos que os corações podem mudar ……………………………..⚔…………………………… Lunática: Excêntrico; diz-se de quem tende a divagar ou vive no mundo da lua. Me lembrei do quanto a música “Lindo balão azul’ na voz dos Novos Baianos sempre me fazia me lembrar de quem eu sou… Era uma identificação instantânea. “Eu vivo sempre No mundo da lua Por que sou um cientista O meu papo futurista É lunático Eu vivo sempre No mundo da lua Tenho alma de artista Sou um gênio sonhador E romântico Eu vivo sempre No mundo da lua Porque sou aventureiro Desde o meu primeiro passo Pro infinito” Devo mesmo ser lunática, nunca me senti daqui, devo pertencer à lua, por isso, lunática. Talvez, em algum momento, dopada de alprazolam, eu tenha pegado o famoso táxi lunar de Geraldo Azevedo, e retornei assim. Devo pertencer a qualquer lugar, menos ao planeta terra, que é repetitivo demais. Enfadonho e, se tratando de uma pessoa como eu, ainda mais difícil, porque a minha psique, quase sempre, parece uma lata de lixo que me atormenta com seu odor, exalando sobre cada parte da minha mente. Me enlouquecendo aos poucos ou, talvez, aos muitos. Queria ter um saco preto para recolher todos os entulhos, queria que os pensamentos ruins existissem sim… em uma galáxia distante. Bem longe de mim. Assim não me afetariam. O táxi lunar foi conseguido à beira mar e, nesse fim de semana, ao subir em um barco à deriva, devidamente ancorado, eu pensei sobre as ondas que faziam o barco se movimentar de um lado para o outro, mas sem ir para muito longe. Naquele momento, a maresia, o vento que beijava meu rosto, o balançar lento da maré mansa, me fez olhar para o horizonte do oceano, observar a sua vastidão, me ver tão pequena diante de todos os mistérios que existem além-mar, sentir o sal em minha pele, como se meu corpo estivesse temperado pela própria natureza, além dos raios de sol que me faziam pensar em como a água fica ainda mais bonita quando iluminada pelo astro rei. Naquele momento, em cima daquele barco, eu apanhei, à beira mar, um taxi para a estação lunar.
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