Texto 7:
O que é viver?
Eu acreditava que viver significava, essencialmente, alcançar grandes conquistas.
Pensava que viver seria assistir ao parto do meu filho enquanto segurava um terço pedindo intercessão de Santa Maria, mãe de Deus. Consigo visualizar essa cena em minha mente e me parece tão pura, tão mágica. Diria que ela seria o ápice da minha existência. Dar a luz sempre foi um dos meus maiores sonhos. Me casar com quem amo, também. Construir uma família, e então sentir que estou tomando o rumo certo de todas as coisas, cumprindo o checklist da existência e evoluindo. Sendo só uma pessoa normal que cumpre papéis normais e esperados. Papéis que já existiam bem antes de mim, e não vou me ater a um apanhado histórico de como esses mesmos papéis foram construídos e as suas devidas funções.
Acontece que, quando eu entrei nesse mundo, através de um parto normal, às 09:26 do dia 1 de Janeiro (data escolhida por mim, aliás), os papéis já estavam postos. As expectativas sobre mim já existiam, no imaginário daqueles que me amavam e me aguardaram durante os 9 meses da minha gestação.
Então eu entrei nesse plano terreno, completamente frágil e dependente dos que me rodeiam, e tendo os papéis impostos por eles como meu norte sobre o que se deve ser.
De repente, após a época mais turbulenta da maioria das nossas vidas (a adolescência), com todos aqueles hormônios, os amores intensos que parecem eternos mas não serão, os primeiros porres, lágrimas e convicções que mudarão várias e várias vezes anos depois, enfim, após essa louca tempestade, chegamos a vida adulta. Uma outra vida. Um novo nascer. Um outro parto.
Porque agora, você ainda carrega os papéis que lhe foram impostos, mas tem a liberdade de negá-los e construir outros. Agora você pode se reinventar porque não é mais assim tão frágil e dependente (embora às vezes ainda precisemos de colo e afago). Paradoxalmente, o que parece tão libertador — fazer suas próprias escolhas — também soa tão aterrorizante. Ninguém nos disse que a liberdade tem essas nuances.
No começo desse escrito eu me indaguei sobre o que é viver. Hoje, sinto que tudo o que eu pensava ser vida, de fato, não passava de um amontoado de expectativas futuras, de devaneios sobre concretizações que só após serem cumpridas me dariam o estatuto de ser vivente de verdade. Uma pagadora de promessas. Quitaria todas as dívidas.
Quando lembro das várias histórias que me acompanham, as tristes, as felizes, as que proporcionam longas risadas aos meus amigos, quando lembro do meu fascínio ao sentir emoções novas e fazer coisas que desejei, às vezes até abusando da paradoxal liberdade anteriormente citada, eu percebo que já estou vivendo. Não há o que esperar. Não há parto ou casamento. Não encontrei meu grande amor, pelo contrário, perdi vários que acreditei fielmente que eram. Estou conquistando outras coisas com meu suor e dedicação. Então isso é viver? Conquistar?
Viver é tão vasto que abrange muito mais do que as grandes conquistas que nos tiram o sono por ainda não terem se concretizado.
Viver é quando escuto o barulho das ondas, entorpecida. Quando bebo em um date r**m sabendo que logo chegarei em casa e me verei livre daquele papo enfadonho. Viver é quando eu relato o date r**m para as minhas amigas e elas podem rir ou se indignar comigo. Viver é quando abraço meus pais bem forte, com um misto de alegria por tê-los aqui e tristeza por saber que um dia partirão. Então abraço mais intensamente, como numa tentativa de gravar esse afeto em mim para sempre. Eternizar na memória.
Viver é quando, embriagada, eu danço com minhas amigas, nos entreolhamos e sabemos que temos umas às outras para o que der e vier. Viver é quando eu ajoelho ao meio dia na igreja vazia para fazer minhas orações e contemplo as imagens de Nosso Senhor sabendo que sou insignificante mas, ainda assim, tenho todo seu amor e cuidado.
Viver é quando eu ignoro a culpa porque ela mata o desejo, e nunca nos impulsiona a seguir adiante. Viver é quando eu relembro tantas histórias e percebo que não preciso de um parto, amor da vida ou família estilo comercial de margarina para ganhar o estatuto de ser vivente. Eu sou.