Diário de Teresa Plath
Dia 05/05
Me recordo de estar brincando de pique esconde na escola, em uma tarde ensolarada, enquanto esperava a minha mãe me buscar no horário das 17 horas. Provavelmente era verão. Eu senti uma felicidade intensa, inexplicável. Acho que nunca mais senti algo tão potente como aquilo. Eu me divertia e sentia que a alegria estava me invadindo de modo feroz. Eu sorri por alguns segundos, depois tive medo. Parecia errado estar tão feliz. Eu era só uma criança e teorias psicológicas nos comprovam que criamos memórias falsas para substituir as lacunas deixadas por nossa incapacidade de reter todas as memórias reais.
Me lembro de relatar essa felicidade a alguém, que me disse que quando ficamos felizes demais é porque algo r**m está prestes a acontecer. Não tenho absoluta certeza de que alguém me falou essas palavras ou eu as imaginei. Também acho pouco provável que uma criança criaria por si mesma essa analogia tão c***l.
Recentemente li em algum lugar que gostaria muito de referenciar depois, que nós humanos, na verdade, temos medo da felicidade. Me senti menos sozinha. Parece que não sou a única a ter medo da felicidade, não sou a única a estar totalmente adaptada ao caos, a angústia, a culpa e demais sentimentos que nos desestruturam.
Estou trazendo essas reflexões porque ontem tive terapia, e pela primeira vez, me senti confortável com o silêncio. Pela primeira vez eu não sabia o que dizer e apenas fiquei cabisbaixa e pensativa. A psicóloga questionou a minha reflexão. Pela primeira vez, fiquei sem resposta. Digo isso, porque sempre sei o que dizer. Na verdade, em todos os processos terapêuticos que já vivenciei, eu adentrava os consultórios com discursos prontos, cheios de detalhes e com teorias e soluções já criadas. Como se eu sempre estivesse com um impecável roteiro em mãos, com uma dicção envolvente (nas palavras da minha terapeuta), e não precisasse ser tão confrontada.
A verdade é que os meus discursos prontos, longos e ricos em detalhes, eram o meu modo de me defender do confronto. Você não dirá nada sobre mim, se eu estiver o tempo inteiro fazendo isso. Por favor, não me confronte, porque eu já estou aqui, há anos, trabalhando arduamente para não me enxergar.
Durante todos esses anos com diferentes profissionais da Psicologia, eu descobri que os meus discursos em terapia eram sempre carregados de certezas minhas, de discursos fechados, monólogos que eu simplesmente apresentava ao outro, como uma atriz que decora o seu script e não faz nada além de ser assistida.
Ontem, nessa sessão, eu fui confrontada com uma pergunta que me perturbou: "você realmente quer ficar bem?"
Parecia uma pergunta um tanto quanto óbvia, visto que ninguém procura atendimento psicoterapêutico se está bem. Procuramos porque queremos ser ajudados. Para algumas pessoas, quase sempre, esse é o último recurso, quando tudo já foi tentado, sem sucesso.
Bom, às vezes o óbvio precisa ser dito e, nesse caso, questionado. Porque, surpreendente, nem sempre o óbvio é mesmo óbvio. E mais do que isso, porque temos o hábito de nos enganar, e podemos fazer isso muito bem. Tão bem, que acreditamos em nossa própria mentira.
Quando ela me fez essa pergunta, eu me senti paralisada, sem resposta. Fui sincera: eu não sei.
Dou voltas entre passado e presente, para mostrar que essas angústias sempre me acompanharam, muitas vezes de forma tão intensa que minha vida se tornou disfuncional e sofrida. Eu sentia pânico quando as 17 horas se aproximavam na escola no decorrer da minha infância, por medo de que minha mãe não me buscasse porque morreu, eu acreditava que o demônio possuiria as minhas Barbies e as escondia atrás do sofá, eu tinha medo de que sequestrassem os meus irmãos e, em todos esses medos, havia o pânico, a dificuldade de manter o controle, de respirar fundo.
Havia vergonha quando eu me descontrolava diante das pessoas porque eu não sabia lidar com esses pensamentos intrusivos e catastróficos. Eu era só uma criança, sem recursos psíquicos para uma psicoeducação, uma criança que vivia em constante estado de vigilância pois os perigos estavam todos ali, à espreita, sempre destinado aos que eu mais amava. Não podemos, de forma alguma, excluir o componente filogenético, porque esses quadros ansiosos me invadiram de assalto quando eu tinha em torno de 4 a 5 anos. Sem ter vivido traumas grandiosos, como estupros, negligências e demais circunstâncias muito mais impactantes a qualquer pessoa. Portanto, são muitas as variáveis para compreender porque eu, simplesmente, tenho essa "coisa" comigo desde que existo.
O ponto em que eu gostaria de chegar, com tantas voltas e reflexões, é que se eu arrasto essa coisa comigo desde que existo... como existir sem ser assim? O estado de constante vigilância, a culpa após atos desimportantes, a paranóia, as crises depressivas como eclosão de tudo o que foi citado anteriormente, são os meus companheiros mais antigos. Dizer adeus a eles, é dizer adeus a compreensão de quem eu sou no decorrer de toda a minha história.
É quase como se eu não soubesse mais me descrever sem ser dessa maneira: alguém com um humor oscilante, com crises depressivas e ansiosas, com um sentimento crônico de vazio. O que há além de tudo isso, se eu tenho tudo isso desde que existo?
Então, entra a parte da qual sempre gosto de falar, enquanto futura profissional na área da Psicologia, você pode ter certas psicopatologias, mas ter, é diferente de ser. Eu não sou uma borderline (diagnóstico ainda não concluído). Eu sou algo além. Para ser sincera, não sei bem quem eu sou e, por isso, a ideia desses lampejos. Vou me compreendendo conforme falo de mim com propriedade.
"Você realmente quer ficar bem?" Para mim significa "quer mesmo abandonar tudo isso que, por ser tão 'seu', você já acolheu e será difícil deixar para trás?"
Agora, após muito pensar, eu tenho uma resposta.
Eu quero.