03

1088 Words
Aurora — Você não pode bater neles só porque é mais forte — diz minha mãe sorrindo. Limpa o sangue dos meus dedos e se diverte com a situação apesar da bronca, porque por pior que seja, prefere que eu consiga me livrar deles do que ser dominada. — Mas eles puxaram o meu cabelo e eu dei três avisos, assim como o papai me ensinou — falo e ela sorri de novo, observa a pessoa lendo o jornal com uma concentração grande. Baixa as páginas e observa por cima delas. — Eu ensinei? — Sim, você me disse para sempre bater até eles não levantarem — respondo movendo o meu punho para cima e para baixo o que obriga minha mãe a me segurar mais forte, no entanto, não reclama. — Você ensinou — afirma minha mãe, fica olhando para ele por bastante como se quisesse dar um sermão nele, igual faz comigo, contudo, não pode, porque foi o papai que me ensinou a ser forte. — Tudo bem, vou acreditar que eu ensinei — dobra o jornal com cuidado. — Mas eu também ensinei que, isso também é para proteger. — Meu pai move o punho devagar, começa a balançá-lo de um modo parecido com o meu. — Tá bom, papai. Rio, o dedo deslizando em cima do gatilho. Estou mesmo me lembrando disso em um momento como esse? Aquela criança que o meu pai queria proteger… ela não existe. Tudo se foi. Se quebrou com uma facilidade que nem meus pais puderam prever. Apesar de nos escondermos, eles nos acharam. Traidores… Nós fomos traidores. E por conta disso eu conheci o inferno. — Você é diferente dos outros, consegue falar por conta própria — comento e sou observada com cautela por ele. Se esse bichinho for diferente, talvez eu possa usá-lo. — Só… não perdi totalmente a minha cabeça. Na maior parte do tempo. — E você não odeia que eu tenha matado a sua família? — Eu não tenho família. Seu tom muda totalmente dizendo essas palavras. Dá para sentir o quanto está irritado e eu com certeza não quero criar um conflito com esse cara quando estou hesitando com o dedo no gatilho. — Porque não está atirando? — Estou tentando entender o motivo. — Hum, entendo, mas eu não tenho nada a oferecer por minha vida. Nem ela foi minha desde o momento em que nasci — fala e dá para perceber que fala muito bem, como se tivesse sido ensinado. — Seu treinamento foi diferente dos outros? — Sim, porque apenas instintos não podem ser aproveitados em todas as situações — explica e é compreensível. Há muitas circunstâncias onde usar um soldado que sabe se misturar, diferente do que aqueles outros pareciam ser capazes. — Mas não sou muito melhor que eles. — Isso sou eu que decido — balbucio baixando a arma. Um bom soldado do meu lado me trará vantagens. — Meu trabalho é eliminar todos os Anderson, mas, aparentemente, você não é um deles. — Aparentemente. — E você é capaz de escolher o seu dono ou não, Cachorrinho? — Me mate, será muito melhor. — Você é ou não capaz de escolher o seu dono? Dou um passo para mais perto. Os sinais de abuso só ficam mais evidentes no corpo nu. Tem feridas bem frescas em seu corpo. — Se sim, lata para mim. Ele inclina a cabeça de lado, acompanho o movimento. Por trás da máscara sinto toda a intensidade dos seus olhos. — Au au au. — Bom garoto. Verifico ao redor onde consigo encontrar o que vai liberá-lo dos grilhões. — As chaves ficam do lado de fora. Nunca as deixariam dentro das salas. É compreensível e não tem de fato, nada dentro delas. Como eles alimentavam essas pessoas? — Sabe o lugar exato? — Não, mas diria que dentro da sala do guarda. — É um ótimo palpite — balbucio, caminho ligeiro para fora e chuto a porta depois de tentar abri-la e descobrir que está trancada. Tem várias chaves com identificações nas paredes. No entanto, elas parecem ser como uma pegadinha, demoro um pouco até entender o esquema de cores e formas e sigo para o local de onde eu sai. — Você vai mesmo me salvar? — Você prefere que eu te mate? — Se quer o meu corpo, não sei se serei capaz de satisfazer você. Ergo uma sobrancelha. Solto um suspiro quase desistindo de soltar os grilhões. — Não quero um namorado. Quero um bichinho que pode me ajudar a matar algumas pessoas. Você é ou não capaz disso? — Para matar eu fui treinado — afirma olhando desconfiado para os grilhões soltos de suas mãos. — Não se abaixe — diz parando o meu movimento e estendendo a mão. — Um dono nunca deve se abaixar para o seu bichinho. Ponho a chave em sua palma e me afasto. O clique do destravar do grilhão em seu pescoço é um pouco mais duro que os outros. Enxergo algumas pequenas feridas frescas que o metal escondia. É possível ver que tem muitas marcas de cicatrização ali, igual aos pontos em seus pulsos. — Obrigado — fala, os pés dando passos lentos, somente para mostrar que está se aproximando. — Eu posso ver o rosto da minha dona? Olho para o horário. — Agora não, vamos — aponto para a saída com o queixo. Sem nem questionar passa na minha frente. Estou mesmo fazendo isso? Sempre faço merda quando me recordo dos meus pais, só porque queria ser a Aurora que minha mãe idealizava, mas ao invés da filha bonita, com florzinhas no cabelo eu me tornei uma assassina que deixa marcas de sangue sempre que passa. Creio que devo ficar feliz por ela não ter vivido para ver o tipo de pessoa que me tornei. Ela não suportaria. O seu coração bondoso a faria definhar. Às vezes nem eu sei como aguentei tudo aquilo. Seres humanos são incrivelmente adaptáveis, até as situações mais difíceis. — Dona, tudo bem? — Sim, continua andando — mando, a sensação de que deveria ter dito o meu nome antes de toda essa escolha de merda fazendo o meu rosto queimar por um breve segundo. Será que minha mãe achou que eu ia salvar um cara peladão em algumas das vezes em que me pediu para não resolver tudo com brigas? Tenho certeza que não. Ela não queria que eu aprendesse sobre o submundo, mas nenhum de nós quatro pudemos escolher com liberdade.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD