Hiro Satoki
Não pensei que pisaria novamente nesta cidade, mas não posso negar que ela está linda. Estamos na época das Sakuras. O que enche de nostalgia.
Apesar disso tinha consciência que a alegria que sentia por estar de volta. Afinal querendo ou não o Japão é minha origem e não podia evitar sentir saudades. Não posso me deixar levar por essa sensação de pertencimento.
Porém não demorou para que a alegria se fosse quando o real motivo do meu retorno se aproximou. Ver o corpo dele fez tudo que bloqueava no meu cérebro e coração, me atingir com força. Pensar que aquilo é um fato. Que não havia mais retorno. Dilacerava algo dentro de mim. Ainda lembrava de todas as coisas que aquele homem me ensinou.
O vovô era um homem bom, inteligente e honrado. Seguia rigorosamente cada tradição e viveu a vida para sua família. Talvez sua super p******o e sua frieza tenha gerados traumas em alguns de seus filhos, mas tenho certeza que ele não fez nada propositalmente. Ele errou tentando acertar. No fim isso que importa.
O caixão foi levado ao altar da família, lá cada um de nós acendeu um incenso e o depositou em frente ao altar, fazendo uma oração silenciosa. Depois disso o monge recitou o sutra. Após a cremação o jazigo com os restos foi posto no altar preparado previamente na mansão Satoki. Encarei pela última vez a foto do vovô e sussurrei uma despedida antes de deixar a mansão. Sabendo que jamais retornaria aquele lugar. Ainda mais agora.
Emi Satoki
Encontrava me sentada impaciente.
— Aonde está aquele palerma? — perguntei a mamãe que se encontrava sentada ao meu lado. Hiro já devia estar aqui com Aiko.
— Relaxe, Emi, querida. Eles logo estarão aqui — ela respondeu.
— Ora, vejam quem eu tenho o desprazer de encontrar — ouso vendo o moreno se aproximando. Devo dizer que continua tão bonito como sempre. Mesmo eu obviamente sendo a mais bela da família.
— Espero que não esteja se referindo a mim, Nari — disse.
— Nariiii — Ken emitiu alegremente indo de encontro com o nosso irmão.
Reviro os olhos com tal ato. Esse e******o parece uma criança balofa com o Nari. Sempre o seguindo para todo lado, mesmo Nari não dando a mínima para ele.
— Meu amado filho — a mamãe foi cumprimentá-lo — Oh, está tão bonito — ela comentou completamente derretida. Bufei. Eu mereço. Todo mundo sempre é tão baba ovo dele.
— Não vai me cumprimentar irmãzinha — Ele comentou irônico com um sorriso sádico.
— Prefiro não me misturar com a ralé — disse encarando minhas unhas perfeitas.
— Estive pensando, não te vi em muitas propagandas recentemente, se aposentou? — O mesmo comentou fingindo pensar seriamente no assunto. Maldito! Sempre sabe como atingir os demais, principalmente sabe como me atingir.
— Estive pensando também, faz tempo que não te vemos com uma nova namorada, está brocha por acaso — respondi, recebendo um olhar furioso em retorno.
— Não fale coisas do tipo para o seu irmão Emi! — mamãe me repreendeu e revirei os olhos. Quando ele fala coisas que me atingem ela não fala nada.
— Sempre tão barulhentos. Entrem — A figura imponente surgindo vindo diretamente da sala de reuniões. O tio Daichi sempre teve uma face fechada e abatida, após o velório ela tinha se tornado ainda mais intensa.
Seguimos ele até uma sala de reuniões onde o advogado da família, homem de confiança do vovô, já nos aguardava. O idoso tem um ar cansado e abatido, mas ainda impotente e superior. A sua frente uma maleta cheia de trancas chamava a atenção. Além dele a prima Sakura, que nem sei o que faz aqui já que é apenas uma adolescente e Goro, este que me surpreende ter saído de casa, se encontravam ali.
— Estão todos aqui? — O velho perguntou.
— Aiko, Fuyuka e Hiro ainda não chegaram — Mamãe alertou.
— Fuyuka não virá. Ele teve uma reunião de negócios em Singapura. Hiro também deixou claro que não se faria presente caso o pai estivesse aqui— O idoso informou. Espera! Por que ele conversou com esses dois previamente?
— Olá família — Aiko entrou saltitante na sala de reuniões.
— Aiko— emiti animada e ela veio me abraçar antes de assumir uma das muitas cadeiras vagas.
Logo atrás dela se encontrava Hiro, ele deu um cumprimento respeitoso e formal até demais para uma sala com apenas parentes, que não surpreendeu ninguém. Ele não mudou nada. Porém ninguém emitiu mais do que um aceno silencioso. A muito tempo ele deixou claro que preferia se manter longe de todos nos. O que acho ridículo. Ele não pensou nem mesmo na pobre Aiko quando abandonou sua família e deixou o pais. Ainda me lembro de como ela ficou arrasada.
— Bem, tendo em vista que todos estão aqui, começarei a leitura do testamento— o idoso começou
Este é o testamente de Hidetaka Satoki 6°geração da família Satoki dês da era Menji. Elaborado por Madara Kenji, oficializado pelo tabelionado de Tokyo, com as testemunhas Sayo Midori e Kawiri Uezu.
Listagem de bens cujo documento se refere:
A joalheria Satoki.
O palácio imperial sob poder da família, conhecido como Mansão Satoki.
O palácio de verão na ilha de Okinawa.
A rede de Hotéis.
As jazidas de mineração.
Perante os últimos acontecimentos em vida eu, Hidetaka Satoki, deixo todos os bens em meu nome em propriedade do meu neto, Hiro Satoki. — assim que o nome saiu da boca do senhor a sala explodiu.
Minha mãe foi a primeira a se levantar em protesto gritando que aquilo era um completo absurdo. Chocada demorei segundos para compreender o que acabará de ouvir, mas assim que entendi também me levantei em protesto. Daichi já havia arrancado o documento das mãos do advogado e seu ar sereno de quando o homem listava os bens da família havia desaparecido completamente. Ele passava os olhos freneticamente pelo papel lendo e relendo seu conteúdo resmungando em voz baixa. A raiva perceptível em seu olhar. Aiko tentava de todas as maneiras me acalmar o que era impossível já que me sentia possessa. Não acredito que aquele velho maldito, teve a pachorra de deixar 90% da família sem nada, de mãos abanando. Eu esperei por esse momento com tanto afinco, já pensava exatamente no que ia fazer com o dinheiro. Dinheiro esse que era a oportunidade da minha vida e que agora se esvaiu entre meus dedos. Não, eu não vou deixar as coisas assim, não vou simplesmente abaixar minha cabeça e aceitar essa m***a.
Enquanto eu tinha meu ataque Ken tirava satisfações com Hiro. Perguntando ao infeliz o que ele faria. Afinal ele mesmo já disse que não queria nada de nos. Ele se quer mora no Japão, o que ele pode querer fazer com a mansão? com a empresa? Hiro nada respondia parecia em completo choque. Sakura tentava acalma-lo, na verdade tentava fazer o mesmo ter alguma reação perante aquele caos. Foi então que a voz de Nari rompeu a atmosfera e chamou atenção para ele próprio.
— Imagino que tenha alguma condição para que o Hiro tome pose dessa herança — Nari disse cruzando os braços despreocupado.
— Sim, senhor. O seu avô deixou uma clausula separada sobre a pose— o homem disse e logo todos nós sentamos como o incentivando a continuar e o idoso prosseguiu — Hiro deve ter estar dentro da maior idade penal, deve estar em plena saúde mental e deve estar legalmente casado, durante sua posse dos bens. Caso o contrário todos os bens serão divididos igualmente entre os demais— o idoso disse e nesse momento Hiro abandonou a sala.
Mas essa frase foi o suficiente para me dar esperança. Afinal Hiro pode ser de maior, estar em plena saúde mental. Porém ele não é e nunca foi casado. Sorri só de pensar. Aiko deixou a sala correndo, provavelmente indo atrás do irmão. Olhei para mamãe e ela também sorria mais tranquila agora. Entretanto seu sorriso morreu.
— d***a! — ela resmungou.