Isabela passou a conversar todos os dias com o hacker que se escondia atrás da alcunha de Soup.
De repente, achou até fofo alguém usar aquele apelido.
Acordava sorrindo e imaginava como era o rosto do homem que dedicava tanto do seu tempo a ela.
E de fato.
Soupnazi estava escondido.
Tudo o que Isabela sabia era que uma das conversas parecia vir do Brasil e a outra do Texas.
Para piorar, ele conseguia usar ambas sem nenhuma dificuldade, quase como se fossem duas pessoas diferentes.
Já Soupnazi sabia tanto dela que a policial começou a achar que o hacker estava ali. Talvez até fosse um dos aliados de Santis, que a vigiasse, talvez já tivesse cruzado o olhar com o dele.
Começou a analisar cada um daqueles homens, mas nenhum parecia ser Soup.
Naquela tarde, depois de almoçar, ela correu para o computador.
Não para trabalhar, mas porque sentiu saudade.
A mensagem piscou na tela, uma linha em código que apenas ela podia ler.
-você não parece ser prisioneira –
Respondeu depressa.
-por quê? –
-anda muito para alguém que está presa, restaurantes, lojas de roupas, cabeleireiro –
Isabela ficou olhando para a tela sem conseguir entender o que estava acontecendo.
A câmera do computador estava coberta, jamais usava. Além das várias camadas de esmalte, ela reforçava com um protetor plástico.
Era sobre segurança.
Antes que pudesse responder, a mensagem surgiu na tela.
-Isabela Howard, nunca mais namorou depois da morte de Júlio Lancaster que se suicidou após descobrirem o estupro que cometeu enquanto ainda era cadete, filha única, dois abortos naturais, cabelos ruivos, começou com pequenas investigações e terminou como consultora investigativa da polícia, sumiu há alguns meses -
Isabela perdeu o ar.
Não sabia nada sobre a pessoa com quem conversava.
Ele parecia saber até seu DNA.
Engoliu a saliva que desceu rasgando a garganta.
-como você sabe? -
-fazendo o meu trabalho, agora é a sua vez. O que está fazendo? -
Ela não achou que tivesse espaço para mentir e contou que, apesar de estar ajudando Luca Santis, tinha um plano para fazê-lo pagar pelos seus crimes.
-O homem que me trouxe para cá roubou milhões de uma organização criminosa russa. Estou evitando que ele termine morto, mas quero garantir que seja preso -
-mentira! -
-estou falando a verdade. Luca Santis construiu sua fortuna cometendo crimes virtuais, mas agora roubou do homem errado -
-esse trecho eu já debuguei e confirmei, mas você não quer que ele seja capturado pelo sistema -
Isabela tentou se defender, mas depois de um tempo acabou cedendo.
-Santis é um homem diferente do que eu imaginava para um criminoso -
-criminosos podem ser tão bonitos quanto um código bem escrito –
Soupnazi não estava falando de qualquer criminoso. Ao contrário, estava pensando na noiva. Uma das chefes de segurança da máfia.
A sua criminosa preferida.
A conversa, como sempre, durou muito.
A organização à qual Soupnazi pertencia já sabia das investigações do hacker.
Ele mantinha Isabela cada vez mais tempo conversando, enquanto Pablo invadia os sistemas da residência de Santis.
E Luca não se importaria com isso.
Mas algo que ele prezava tinha sido alterado.
Entrou no quarto de Isabela segurando uma caixa de veludo.
Desta vez, ela não jogou o cabelo de lado, nem endireitou a postura.
Não prendeu a respiração, parecia não se importar.
— Bela?
O reflexo do corpo feminino fez Luca notar o susto.
Se aproximou devagar, os olhos absorvendo cada detalhe.
A curva dos ombros, a ponta dos s***s que a roupa moldava, os cabelos longos que dessa vez estavam soltos.
— Bela, por que acha que pode se afastar de mim?
A policial olhou para o computador, a última mensagem de Soup estava piscando, mas para Luca aquilo não passava de sinais, letras e números fora de ordem.
-ele está aí? -
Respondeu o hacker antes de responder Santis.
-está atrás de mim, com mais um colar comprado com o dinheiro que os hackers dele roubam de pessoas que usam sites pornôs e idiotas que clicam em qualquer link -
-não gosta de pornô, Estrela Guia? -
Ela arregalou os olhos, ficou vermelha como se Soup estivesse olhando para ela.
Só quando Luca terminou de fechar a gargantilha de esmeralda em seu pescoço que ela, finalmente, se virou para ele.
— Não me afastei, sou uma prisioneira, não sou?
Olhou para o computador e disse o que estava acontecendo.
-ele acabou de colocar o colar no meu pescoço, os dedos dele parecem queimar a minha pele. Acho que não gosto de pornô se não for eu a atriz -
Foi a vez do hacker ficar perdido com a ousadia.
Ele estava se referindo a uma gíria que costumava usar com Pablo para desabilitar firewalls.
No entanto, havia algo nas conversas dela, um jogo silencioso de provocações e interesse.
Soupnazi, pela primeira vez, sentiu que se importava com alguém que nunca havia visto.
E Isabela sorriu, descobrindo que havia espaço para se sentir desejada de outra forma além do corpo.
Entre linhas e códigos, Soup gostava dela. Ao menos mais do que Santis parecia gostar.
Ela fechou a expressão, mas Luca abaixou até alcançar a orelha feminina.
— Está tentando me manipular, Bela? Gosto bem mais de encontrar os seus dedos com outro cheiro.