Códigos ou Esmeraldas

881 Words
Isabela passou a conversar todos os dias com o hacker que se escondia atrás da alcunha de Soup. De repente, achou até fofo alguém usar aquele apelido. Acordava sorrindo e imaginava como era o rosto do homem que dedicava tanto do seu tempo a ela. E de fato. Soupnazi estava escondido. Tudo o que Isabela sabia era que uma das conversas parecia vir do Brasil e a outra do Texas. Para piorar, ele conseguia usar ambas sem nenhuma dificuldade, quase como se fossem duas pessoas diferentes. Já Soupnazi sabia tanto dela que a policial começou a achar que o hacker estava ali. Talvez até fosse um dos aliados de Santis, que a vigiasse, talvez já tivesse cruzado o olhar com o dele. Começou a analisar cada um daqueles homens, mas nenhum parecia ser Soup. Naquela tarde, depois de almoçar, ela correu para o computador. Não para trabalhar, mas porque sentiu saudade. A mensagem piscou na tela, uma linha em código que apenas ela podia ler. -você não parece ser prisioneira – Respondeu depressa. -por quê? – -anda muito para alguém que está presa, restaurantes, lojas de roupas, cabeleireiro – Isabela ficou olhando para a tela sem conseguir entender o que estava acontecendo. A câmera do computador estava coberta, jamais usava. Além das várias camadas de esmalte, ela reforçava com um protetor plástico. Era sobre segurança. Antes que pudesse responder, a mensagem surgiu na tela. -Isabela Howard, nunca mais namorou depois da morte de Júlio Lancaster que se suicidou após descobrirem o estupro que cometeu enquanto ainda era cadete, filha única, dois abortos naturais, cabelos ruivos, começou com pequenas investigações e terminou como consultora investigativa da polícia, sumiu há alguns meses - Isabela perdeu o ar. Não sabia nada sobre a pessoa com quem conversava. Ele parecia saber até seu DNA. Engoliu a saliva que desceu rasgando a garganta. -como você sabe? - -fazendo o meu trabalho, agora é a sua vez. O que está fazendo? - Ela não achou que tivesse espaço para mentir e contou que, apesar de estar ajudando Luca Santis, tinha um plano para fazê-lo pagar pelos seus crimes. -O homem que me trouxe para cá roubou milhões de uma organização criminosa russa. Estou evitando que ele termine morto, mas quero garantir que seja preso - -mentira! - -estou falando a verdade. Luca Santis construiu sua fortuna cometendo crimes virtuais, mas agora roubou do homem errado - -esse trecho eu já debuguei e confirmei, mas você não quer que ele seja capturado pelo sistema - Isabela tentou se defender, mas depois de um tempo acabou cedendo. -Santis é um homem diferente do que eu imaginava para um criminoso - -criminosos podem ser tão bonitos quanto um código bem escrito – Soupnazi não estava falando de qualquer criminoso. Ao contrário, estava pensando na noiva. Uma das chefes de segurança da máfia. A sua criminosa preferida. A conversa, como sempre, durou muito. A organização à qual Soupnazi pertencia já sabia das investigações do hacker. Ele mantinha Isabela cada vez mais tempo conversando, enquanto Pablo invadia os sistemas da residência de Santis. E Luca não se importaria com isso. Mas algo que ele prezava tinha sido alterado. Entrou no quarto de Isabela segurando uma caixa de veludo. Desta vez, ela não jogou o cabelo de lado, nem endireitou a postura. Não prendeu a respiração, parecia não se importar. — Bela? O reflexo do corpo feminino fez Luca notar o susto. Se aproximou devagar, os olhos absorvendo cada detalhe. A curva dos ombros, a ponta dos s***s que a roupa moldava, os cabelos longos que dessa vez estavam soltos. — Bela, por que acha que pode se afastar de mim? A policial olhou para o computador, a última mensagem de Soup estava piscando, mas para Luca aquilo não passava de sinais, letras e números fora de ordem. -ele está aí? - Respondeu o hacker antes de responder Santis. -está atrás de mim, com mais um colar comprado com o dinheiro que os hackers dele roubam de pessoas que usam sites pornôs e idiotas que clicam em qualquer link - -não gosta de pornô, Estrela Guia? - Ela arregalou os olhos, ficou vermelha como se Soup estivesse olhando para ela. Só quando Luca terminou de fechar a gargantilha de esmeralda em seu pescoço que ela, finalmente, se virou para ele. — Não me afastei, sou uma prisioneira, não sou? Olhou para o computador e disse o que estava acontecendo. -ele acabou de colocar o colar no meu pescoço, os dedos dele parecem queimar a minha pele. Acho que não gosto de pornô se não for eu a atriz - Foi a vez do hacker ficar perdido com a ousadia. Ele estava se referindo a uma gíria que costumava usar com Pablo para desabilitar firewalls. No entanto, havia algo nas conversas dela, um jogo silencioso de provocações e interesse. Soupnazi, pela primeira vez, sentiu que se importava com alguém que nunca havia visto. E Isabela sorriu, descobrindo que havia espaço para se sentir desejada de outra forma além do corpo. Entre linhas e códigos, Soup gostava dela. Ao menos mais do que Santis parecia gostar. Ela fechou a expressão, mas Luca abaixou até alcançar a orelha feminina. — Está tentando me manipular, Bela? Gosto bem mais de encontrar os seus dedos com outro cheiro.
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