Cassia
Em poucos segundos, minha irmã aparece.
— O que aconteceu com você, Cássia? Ela me pergunta, observando mais o meu cabelo do que a bagunça que o papai deixou na mesa.
— Papai ficou bravo, para variar. Dou de ombros, tentando ignorar o olhar intenso de Christopher.
— Suponho que você deve ter dito algo para irritá-lo. Ele não é uma pessoa que se irrita facilmente. Diz Christopher com tom desdenhoso.
Aperto os dentes, indignada. O que dia*bos está acontecendo com ele? Não está feliz em ver Liliana? Acho que esta é a primeira vez que não o vejo feliz ao lado dela e nem atento a ela, mas a mim.
Sempre quis isso, é claro, mas não nesta situação.
— Te respeito porque você é o namorado da minha irmã e o homem com quem vou me casar, mas não permito que você me acuse se nem sequer estava presente. Solto sem pensar, levada pela frustração.
A sua expressão muda, passando do desprezo a uma leve surpresa. O que mais odeio nele é que nenhuma expressão consegue tirar-lhe a beleza. Amo qualquer gesto seu, mesmo o mais sombrio e negativo.
— Irmã, acalma- se. Pede-me Liliana, arregalando os olhos para me avisar que não seja grossa com ele. — Ele não tem culpa da discussão que você teve com o papai.
Respiro fundo, assentindo. Não posso nem quero continuar prolongando esta conversa. Não suporto vê-los juntos, muito menos que se deem as mãos, e muito menos ainda sentir-me assim quando sei que não existe nenhuma possibilidade com ele.
— Sim, é verdade. Sorrio discretamente. — Ofereço-lhe as minhas desculpas, Christopher, não voltará a acontecer.
— Temos que conversar. Ele menciona, dando um passo na minha direção.
Recuo, embora procure não demonstrar o quão nervosa ele e o seu aroma cativante me deixam.
— Se você se refere à cerimônia, não precisa se preocupar. Eu asseguro. — Meu pai me informou. Não farei perguntas sobre isso, apenas me limitarei a seguir as suas instruções naquele dia e pronto. Por certo, estou ficando atrasada. Tenho que ir trabalhar.
Sem dar-lhes oportunidade de dizer mais nada, saio apressada da casa e desço as escadas tremendo. Odeio o m*aldito efeito que isso me causa, os meus pensamentos descontrolados e aquele rubor horrível que se espalha pelas minhas bochechas. O que menos quero no mundo é que ele perceba o quanto o amo. Não posso permitir que se aproveite disso.
Antes que o papai chegue no carro, prendo o cabelo como sempre. As vezes em que ele me tratou pior foram quando ele estava solto, e eu não estou pronta para outra discussão esta manhã.
— Você tem que registrar tudo de novo, deu errado. Ele diz ao entrar no carro e me jogar uma pasta. — Tudo o que você fez está errado.
— Não, não fiz nada de errado, tenho certeza. Respondo em voz baixa. — Talvez eu tenha me enganado em algo, mas...
— Que parte de "você fez errado" você não entende? Ele pergunta frustrado, ligando o carro. — Hoje você não sairá até que fique bom.
— Não posso sair tarde, preciso fazer algumas coisas. Digo a ele. — É que...
— Você não vai mais ver a sua mãe. Ele me interrompe, fulminando-me com aquele olhar que me causa o mesmo medo que o avô de Christopher.
Meu pai só tem quarenta e dois anos e o seu rosto é lindo, mas seu olhar é quase idêntico ao de um velho cansado da vida, sem motivos para continuar. Claro, o único vislumbre de alegria ele reserva para Liliana.
— Como...?
— Você realmente acha que pode me enganar? Ele ri.
— Posso ir quantas vezes quiser. Grunhi. — Você não pode me impedir, eu sou maior de idade.
Não responde, mas sei que vai me infer*nizar a vida para evitar que eu a visite. Decido que, por enquanto, não vou lutar essa batalha e fico em silêncio todo o caminho até a empresa, onde ele finge estar de melhor humor com os funcionários.
Aproveito para me adiantar e finalmente enviar uma mensagem para a Silvia. Aos domingos, por mais que meu pai queira, ele não tem o direito de me reter nem em casa, nem na empresa.
Felizmente, Silvia responde com muita gentileza, até usando lindos emojis entusiasmados. A maneira dela de escrever me faz sentir como se eu a tivesse na minha frente, falando comigo com a mesma ternura de quando eu era criança e acompanhava a mamãe a se arrumar.
O encontro está marcado para domingo, o que me deixa muito animada. Não é que eu goste de me arrumar como a mamãe, mas me diverte imaginar a raiva que isso vai dar ao papai.
— Só por você, mamãe. Sussurro, escrevendo uma mensagem para contar o que faria, embora depois a tenha apagado caso papai resolvesse me revisar.
Ao sair, não encontro ninguém, o que me parece um pouco estranho porque ele disse que me obrigaria a trabalhar mais horas. Além disso, ele tem algumas reuniões.
— Oh, quem deixou isso aqui? Murmurei ao ver a rosa sobre a escrivaninha. — Papai terá uma admiradora ou...?
Não. É impossível que ele tenha me deixado algo assim. Ele só dava joias, carros e viagens para a mamãe.
A rosa vem com um cartão, mas antes de lê-lo, certifico-me de que ninguém está vindo.
Para a ruiva mais linda não só deste edifício, mas de toda a cidade.
— Oh, Deus. Ofeguei, abanando-me com uma mão. — Não, isso... deve ser uma piada.
Embora eu saiba que é, não consigo evitar rir como uma boba. Não sei quem é esse sujeito, nem se realmente me acho bonita ou não, mas isso vai me servir muito no meu plano de vingança.
— O que você tem aí? Me pergunta meu pai, entrando no escritório.
— Não sei, alguém enviou. Digo, sorrindo. — Parece que alguém acha que sou bonita.
— Alguém tem péssimo gosto. Replica, olhando-me de cima a baixo.
— Ah, é? Você se inclui? Lembro que me pareço muito com...
Papai levanta a mão para me dar um tapa, mas para ao ver que me encolho, cheia de medo. Embora baixe os braços, não há arrependimento no seu olhar.
— Vá trabalhar. Não te pago para receber flores ou para ficar sem fazer nada. esbraceja, recuperando o autocontrole e a cor pálida do rosto. — E Christopher saberá disso. Ele saberá que tipo de... esposa terá.
— Claro, para que ele cancele o casamento e procure outra pessoa. Bom, se é isso que você quer...
— Para ele você é indiferente, ele só ama a Liliana. Ele encolhe os ombros. — Mas ele também não pode permitir que a sua futura esposa se envolva com outro homem e o envergonhe.
— Não estou me envolvendo com ninguém. Espeto. — Mas se eu fizesse isso, o que te importaria? E por que Christopher deveria se importar? Ele vai me deixar para se casar com Liliana.
Antes que ele me responda, pego o livro contábil e saio do escritório para começar a trabalhar e não pensar em nada até o dia em que for com a Silvia.
Se papai vai me usar como moeda de troca nos seus negócios, que ele sofra pelo menos um pouco. Se vai me tratar como uma qualquer, que seja com motivos.
— Silvia. Suspirei, sorrindo. — Já quero te ver.
— Quem é Silvia, irmãzinha?
Levanto o olhar para encontrar a minha irmã, que vem de braço dado com Christopher. Embora eu saiba por que eles estão aqui, não posso evitar amaldiçoá-los em silêncio por aparecerem justamente agora.
— Não é ninguém. Digo corando, ignorando o olhar do meu noivo. — Entrem, o meu pai está esperando por vocês.